Pandemia: mortes abalam mais a Economia do que o isolamento | Diário do Porto

Saúde

Pandemia: mortes abalam mais a Economia do que o isolamento

Lições da pandemia da gripe espanhola indicam que recuperação econômica foi maior onde medidas de isolamento foram adotadas: mortes abalam mais a economia

30 de março de 2020


Recessão tende a ser mais longa em lugares que não adotam medidas duras de isolamento (Deposit Photos)


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Aziz Filho

Há um século, a gripe espanhola matou entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas. Há dúvida sobre sua origem, mas a maior parte dos estudos indica os Estados Unidos. A circulação de pessoas entre os países era bem menor do que hoje, mas os adversários da Ciência eram mais numerosos do que os que atrapalham hoje a OMS no combate ao Covid-19. O ineditismo de uma pandemia naquelas dimensões pegou gestores públicos mais despreparados do que os atuais. Misticismo e preconceito também eram mais generalizados, e o conhecimento, muito menor. A maior vantagem da briga contra a Covid-19 vem das lições do passado, e uma delas é a de que o isolamento social é menos nefasto, até para a economia, do que o afrouxamento das regras em função do medo imediato da perda de empregos e renda.

O isolamento apavora empresários com medo da falência e os cidadãos que perderão sua fonte de renda. Muitos tendem a negar a necessidade do isolamento, crucial para evitar o colapso dos hospitais. O prefeito de Milão já fez mea culpa pelo tempo precioso que perdeu promovendo o turismo quando o vírus avançava na Itália. O Brasil teve até carreata em protesto contra as recomendações da OMS. As lições, no entanto, garantem que o isolamento é menos nefasto para a economia do que a aceleração do contágio.

Tomemos como exemplo o setor do turismo, o mais afetado. Os países que superarem a transmissão, como parece estar acontecendo na China, vão voltar a receber turistas muito mais rapidamente do que as nações nas quais o vírus seguirá matando, com hospitais lotados e hotéis fechados. A lógica deveria ser suficiente para afastar as dúvidas, mas, se for preciso desenhar, é bom saber que tudo já foi desenhado.

Com ou sem isolamento horizontal, haverá muita perda de renda, empregos e negócios. Este será, com certeza, o cenário da pandemia do Covid-19. Dito isto, a questão que um número cada vez maior de economistas, mesmo os liberais, e estudiosos da História vêm colocando é: quanto mais rápido e eficiente for o isolamento, menor será o impacto econômico a médio e longo prazos.

Fundador e editor do Instituto Mercado Popular, Pedro Menezes enumerou estudos nesse sentido em artigo no site Infomoney. O primeiro é de economistas do FED (Banco Central americano) e do MIT, “Pandemias deprimem a economia, intervenções de saúde pública não: Evidências da gripe de 1918”. A pesquisa comparou a atividade econômica em cidades americanas antes, durante e depois da gripe espanhola. Tudo bem que um século é muito tempo, mas aquela foi foi a última pandemia comparável, em termos de desafio para a humanidade, com a do novo coronavírus.

Guardadas as ressalvas sobre o avanço da Ciência nesses 100 anos, o que importa é a conclusão: as cidades americanas que agiram com mais força para implementar quarentenas tiveram desempenho econômico melhor depois que a pandemia passou. É óbvio que todas as 43 cidades pesquisadas sofreram a redução da oferta e da demanda de bens e serviços, ou seja, recessão e redução da capacidade produtiva. As medidas de saúde pública indicadas naquela época eram praticamente as mesmas recomendadas agora pela OMS: distanciamento social, quarentena, campanhas informativas sobre higienização.

Nos Estados Unidos, as unidades federativas têm mais autonomia do que no Brasil para adotar políticas públicas, de forma que as medidas variaram muito de um lugar para outro. Cerca de 10% delas executaram medidas de isolamento por menos de 42 dias, 40% as adotaram entre 42 e 88 dias, 40% passaram entre 88 e 156 dias sob intervenção, e um grupo mais rígido, de 10% das cidades, impôs mais de 156 dias, ou seja, 5 meses.

Durante a epidemia, as cidades tiveram desempenhos econômicos similares. As mais rígidas, no entanto, desenvolveram-se mais depois, pelo fato de ter havido menos mortos. A quarentena beneficiou a economia local, comparativamente às cidades que perderam mais vidas. “As evidências referentes a ativos bancários e produção industrial indicam que, após a pandemia, cidades que implementaram medidas mais agressivas apresentaram melhor performance econômica”, concluiu o estudo. “Pandemias são altamente disruptivas para a atividade econômica. Porém, medidas oportunas visando mitigar a severidade da pandemia também foram capazes de reduzir a severidade da crise econômica. Ou seja, intervenções não-farmacêuticas (como quarentenas) podem reduzir a mortalidade ao mesmo tempo em que são economicamente vantajosas.”

O artigo do Infomoney ressalta ainda o estudo “Macroeconomia das Epidemias”, cuja conclusão foi de que, se cada cidadão agir conforme os próprios interesses, o resultado tende a ser prejudicial para toda a sociedade, pois quem não é do grupo de risco se tornaria um transmissor descontrolado de um vírus fatal. Com novos testes, tratamentos e aumento da capacidade de atendimento dos hospitais, “a resposta ótima envolve uma recessão ainda maior no curto prazo, com recuperação mais rápida posteriormente”.

O pesquisador italiano Luigi Zingales, ligado à Universidade de Chicago, e o brasileiro Carlos Góes, do Instituto Mercado Popular, analisaram a perda de capacidade produtiva. Uma agência governamental americana estima uma perda média de 10 milhões de dólares para cada trabalhador morto na pandemia. Estudo semelhante chega ao valor de R$ 630 mil por brasileiro morto. Os cálculos indicam que a perda econômica nos piores cenários projetados, aqueles em que o isolamento social não é adotado, supera os ganhos por não parar a economia. No caso dos Estados Unidos, a morte de 2 milhões de americanos representaria uma perda de 20 trilhões de dólares a longo prazo, dez vezes mais do que Donald Trump já topou gastar para manter os cidadãos em casa. No Brasil, a perda com 1 milhão de mortes evitáveis representaria R$ 630 bilhões.

Nesses cálculos mórbidos, é comum não se levar em conta os que perderão a vida por causa da pandemia mesmo sem contrair o novo coronavírus. São vítimas de acidentes, infartos, derrames e outras doenças, como câncer, que não terão acesso aos leitos de UTIs superlotadas. As lições da história estão ao alcance de todos. Ignorá-las pode até ser um direito do cidadão comum, especialmente os que têm menos acesso à informação, mas não dos responsáveis pela formulação e adoção de políticas públicas.

*Aziz Filho é jornalista e especialista em Políticas Públicas