Monarquistas querem Museu Nacional fora do Paço de S. Cristóvão | Diário do Porto

Museus

Monarquistas querem Museu Nacional fora do Paço de S. Cristóvão

Articulação de bastidores quer transformar o maior museu de história natural do continente em atração turística voltada para a familia imperial

29 de março de 2021
Vista lateral do futuro Museu Nacional: antigo e contemporâneo (UFRJ)


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Um movimento de simpatizantes da monarquia, que tem no ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, um de seus expoentes, articula mudar o uso do Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, um dos prédios mais importantes da história do Brasil. Principal museu de antropologia e história natural da América Latina desde 1992, o Museu Nacional daria lugar a um centro turístico dedicado à família imperial, que governou o país de 1822 a 1889.

O incêndio que devastou o acervo do Museu Nacional em setembro de 2018 foi a maior tragédia da história do patrimônio cultural brasileiro. Desde então, o projeto de reconstrução já arrecadou R$ 244 milhões, e as embaixadas de Portugal, Áustria e Alemanha se comprometeram com doações.

O Paço de São Cristóvão é a construção histórica mais relevante da Zona Norte do Rio de Janeiro. Nele moraram os imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II. É a atração central da Quinta da Boa Vista, principal área de lazer da região, onde fica o BioParque do Rio, antigo zoológico.

Plano secreto divide Orleans e Bragança

O plano de mudar a destinação do prédio foi revelado na semana passada pela Folha de S. Paulo e provocou fortes reações da UFRJ, proprietária do prédio, e de pesquisadores em todo o país. A polêmica divide até os descendentes da família imperial. O Museu Imperial, em Petrópolis, onde está a coroa do imperador, foi criado para contar a história do período e é um dos mais visitados do país.

 

Ernesto Araújo
Ernesto Araújo, simpatizante da monarquia, defende mudança (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

Bisneto da Princesa Isabel, João de Orleans e Bragança mandou mensagem a Alexander Kellner, diretor do Museu, registrando “total repúdio” à mudança e lembrando que D. João VI, o avô de sua bisavó, “criou o Museu para o nosso país ter um centro de referência a pesquisa”. Já o deputado federal Luiz Philippe de Orléans e Bragança, do PSL, diz que a remodelação valorizaria o passado do país.

“Ao invés de expor, de se tornar um ambiente publico para valorizar a história brasileira, a nossa história nesse território, passou a valorizar um cometa, um meteorito, pedras de descobrimento arqueológico. Nada contra isso”, disse à Folha de S. Paulo, mas, segundo ele, a missão principal do imóvel deveria ser “representar a história do Brasil”. Luiz Philippe chegou a ser cotado para vice na chapa de Jair Bolsonaro à Presidência na eleição de 2018.

O saudosista do monarquismo não está sozinho na empreitada, muito pelo contrário. As articulações contam com a simpatia do ministro Ernesto Araújo, que entrou em rota de colisão com o Congresso em função de seu desempenho pífio nas negociações para compra de insumos e vacinas contra o coronavírus. Ernesto já fez diversas deferências ao passado monárquico brasileiro, assim como Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação e tão ligado como o ex-colega à ala ideológica de extrema direita do governo.

 


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A presidente do Iphan, Larissa Peixoto, também estaria envolvida nas articulações, segundo documentos obtidos pela Folha, assim como o superintendente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Naconal) no Rio, Olav Schrader, ligado ao Movimento Brasil Real, pró-monarquia.

Ainda segundo a Folha, Shrader Schrader participou, em março, de reuniões em Brasília sobre o tema a pedido do secretário especial da Cultura, Mario Frias. Uma das agendas foi com Ernesto Araújo no Itamaraty.

Prédio é da UFRJ, que tem autonomia

A conspiração contra o Museu Nacional é feita com discrição porque o dono do prédio é da UFRJ, e uma intervenção dessa magnitude sem a concordância da universidade seria uma afronta à sua autonomia, prevista em Constituição, e com forte impacto sobre o projeto de reconstrução em andamento. A universidade recebeu muitas críticas por ter se descuidado do prédio ao ponto de ele ter sido quase destruído no incêndio.

O diretor do museu, Alexander Kellner, diz que não foi consultado sobre qualquer alteração no projeto de restauração em andamento. “Essa ideia é uma das mais estapafúrdias que já ouvi, nunca vi mais absurdo e ridículo. Seria matar o museu mais uma vez”, condenou. “Aquele palácio sempre foi museu de história natural”, completou, corroborando a impressão de João de Orleans e Bragança.

 

Denise Pires de Carvalho
Denise Pires de Carvalho, reitora da UFRJ: contra a mudança

A reitora Denise Pires de Carvalho chamou de “golpe” a movimentação. “Não acredito que o MEC vá tomar uma iniciativa de enfraquecer a érea de antropologia social, arqueologia, zoologia, botânica, sem que a universidade seja avisada”, disse. “Há pós-graduações envolvidas de excelente nível, não é uma instituição estanque da academia, é importante para a universidade e também para o museu que ele permaneça aqui.”

O orçamento da reconstrução é de R$ 379 milhões, e R$ 244 milhões já foram captados. Unesco, Instituto Cultural Vale, Bradesco e BNDES apoiam o projeto de reforma no âmbito da museologia. Só o Bradesco e o BNDES fizeram aporte de R$ 50 milhões cada.​ A reinauguração do bloco principal do museu está prevista para a comemoração do bicentenário da Independência do Brasil, em setembro do ano que vem.