Conheça a luta do Maqua, da Uerj, para salvar os botos da Baía | Diário do Porto


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Conheça a luta do Maqua, da Uerj, para salvar os botos da Baía

O Maqua, laboratório da Uerj, acompanha a vida dos cetáceos na Baía de Guanabara. A população de boto-cinza, símbolo do Rio, diminui a cada ano

4 de fevereiro de 2020



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Eles eram uns 400 em meados da década de 1980. Trinta e cinco anos depois, não chegam a 30. O boto-cinza (Sotalia guianensis), símbolo do Rio de Janeiro e evocado na bandeira da cidade, está sumindo da Baía de Guanabara. É bem triste, mas nem tudo está perdido. Muitos acreditam que ainda dá tempo de salvar essa população especial. É o caso do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

O Maqua foi criado por iniciativa de alunos do curso de Oceanografia em 1992. Os coordenadores são os professores Alexandre Azevedo e José Lailson, que fazem parte do Maqua desde o início. “Nós somos um laboratório da Uerj e somos muito voltados para pesquisa, para a formação de aluno e extensão universitária, são os nossos três pilares”, explica Alexandre Azevedo.

Segundo o professor, a redução do número de golfinhos se deve provavelmente à mortalidade. Alguns poucos, no entanto, podem ter migrado e abandonado a Baía. O fenômeno é pouco provável, pois o boto-cinza costuma permanecer em sua área de nascimento. A mortalidade está diretamente relacionada às atividades humanas.

A contaminação é feita por uma série de poluentes na Baía de Guanabara. Há lançamento de esgoto sem tratamento; contaminação por mercúrio, encontrado nos peixes; 1 bilhão de litros de chorume por ano em função dos lixões; poluentes derivados de óleos, de cozinha até combustíveis; e microplásticos. É uma das áreas mais poluídas do mundo.

Todos esses poluentes, a degradação do ar e a alteração na oferta de alimentos afetam a saúde da fauna da Baía de Guanabara. “Os contaminantes tornam os animais mais suscetíveis às doenças e menos capazes de reproduzir. Muitos filhotes morrem devido à carga muito grande de contaminantes e não têm resistência a qualquer imunossupressão no sistema ou exposição a patógenos”, explica Alexandre. São bactérias, fungos, protozoários e vírus.

Um golfinho vive aproximadamente 30 anos e alcança sua maturidade sexual aos seis. A fêmea tem uma gestação longa, entre 10 a 11 meses, e sofre um grande desgaste para cuidar de seu filhote e amamentá-lo, o que leva cerca de um ano. “Cada fêmea vai dar à luz um filhote no intervalo de 3 a 4 anos. Na Baía de Guanabara, vimos que são 4 anos de intervalo. Então cada fêmea, se tudo der certo, vai ter ao longo da vida 6 a 7 filhotes“, diz Alexandre. Por culpa dos impactos ambientais, na Baía de Guanabara nascem por ano entre 3 a 4 filhotes. Entretanto, somente um chega à idade adulta.

Há esperança

O boto-cinza é residente na Baía de Guanabara, mas não vive sozinho. A fauna é muito diversa, e nela se encontram tartarugas verdes juvenis, pequenos tubarões, raias e aves como os atobás, fragatas e trinta réis. Mesmo degradada, a biodiversidade marinha é vasta. Há alguns golfinhos que, mesmo não residindo na Baía, a visitam regularmente. Tal atitude é chamada “fidelidade de sítio”. É o caso de algumas espécies de baleias que, no verão, ficam próximas à Baía para se alimentar. É também o que acontece com o golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) e o golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis), este último já catalogado pelo Maqua desde 2009, o que permitiu aos pesquisadores descobrir que mais de 200 golfinhos retornam à Baía regularmente.

golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis) na Baía de Guanabara
Golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis) é das espécies mais encontradas na Baía de Guanabara (Foto: Maqua/Uerj)

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Na Baía de Guanabara, os golfinhos buscam as áreas mais silenciosas. A poluição sonora os afeta de forma intensa, já que são animais que “enxergam” através do som. “Se a água não for muito clara, eles não vão enxergar bem, então utilizam o biosonar, que os possibilita a mandar o sinal e captar o eco com as informações do ambiente. E também têm os sinais de comunicação. Eles são muito sensíveis a ruídos e aos sons embaixo d’água”, explica Alexandre.

O boto-cinza não é encontrado somente na Baía de Guanabara, mas também nas baías de Sepetiba e Ilha Grande. Lá, onde também são catalogados. Juntos, somam mais de 600 animais.

A catalogação dos animais nos bancos de dados do Maqua é feita através de fotos tiradas das nadadeiras dorsais. Cada nadadeira é diferente da outra, pelas marcas naturais. “É como se fosse a fotografia do rosto deles. Então a gente começa a entender que, por exemplo, os animais nascem e passam toda a vida na Baía de Guanabara. Tivemos animais identificados lá atrás, em 1985, e que viveram até 2014 na Baía de Guanabara. A gente vê que eles são residentes da Baía, são os verdadeiros moradores”, diz Alexandre.

Aumento de tecnologias para ajudar nas pesquisas

O Maqua faz expedições para a Baía de Guanabara semanalmente. Desde que passaram a realizá-las com o auxílio de um drone, conseguiram uma contagem mais segura, além de visualizarem comportamentos de golfinhos até então desconhecidos, como o cuidado da mãe com o filhote e suas interações na busca por um parceiro.

As muitas parcerias do Maqua com universidades, institutos e centros de pesquisas no país ajudou no período de cortes de verbas da Uerj. “Na época mais dura, a gente não chegou a parar, mas, com a ajuda de nossos parceiros, só fizemos manutenção das pesquisas em andamento. Mas muitos alunos não vinham por não ter aula ou porque as bolsas estavam suspensas, e o bandejão, fechado. Isso afastou alguns alunos. Alguns eu consegui segurar, outros não”, afirma o professor.

As informações geradas são levadas para órgãos governamentais. Também há ações sociais como o Projeto Botinho, realizado em 29 de janeiro, em Ilha Grande e em praias de Niterói, com palestras e atividades educativas para crianças.

Navio oceanográfico

O navio oceanográfico Professor Luiz Carlos, inaugurado em 28 de janeiro, promete revolucionar a oceanografia no Rio. Com custo de R$ 7 milhões, o primeiro navio oceanográfico do estado tem capacidade para 30 pessoas. Suas instalações, laboratórios e equipamentos são voltados para a coleta e análise de estudos em oceanografia. O navio traz a possibilidade de estudantes e pesquisadores passarem mais tempo em pesquisa e alcançarem lugares mais distantes.

“O professor Marcos Bastos (diretor da faculdade de Oceanografia) pensou em um projeto que, além de ser oceanográfico, o navio deve ser multiuso. Se o pessoal da saúde, ou outra área, quiser realizar uma ação nas ilhas e atender as pessoas, tem como fazer. Não vamos esquecer a parte social. Social que é a cara da Uerj”, completa Alexandre.


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