Leituras secretas de escritores desprezados pela crítica | Diário do Porto


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Leituras secretas de escritores desprezados pela crítica

Stephen King, Agatha Christie, Lisa Jewell e outros: Olga de Mello fala das delícias da literatura “de entretenimento”, que arrebata multidões de leitores

29 de maio de 2022

Stephen King, campeão de audiência (Deposit Photos)

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Olga de Mello

Olga de Mello

 

Todo leitor tem sua leitura secreta, da qual não se orgulha, mas que consome no recôndito de seu lar – e nem sempre é de teor erótico. A Internet tirou do armário e misturou em vala comum a chamada literatura de entretenimento, entronizando escritores absolutamente desprezados pela crítica, como os autores de livrinhos outrora vendidos em bancas de jornal, que acabaram recebendo um tratamento editorial luxuoso. Sim, existe uma produção literária bem construída e vista sem o menor respeito pelos especialistas oriundos ou não dos meios acadêmicos.

No excelente Sobre a escrita (Suma das Letras, R$ 29,90), Stephen King observa que, mesmo tendo vendido milhões de livros, jamais um jornalista lhe perguntou sobre suas técnicas de escrever, algo reservado a “um DeLillo, um Updike, um Styron, mas não a romancistas populares”. No prólogo de Morte no Nilo (LP&M, R$ 25), Agatha Christie insinua que a classificação de entretenimento não causa desonra às histórias policiais.

Embora a leitura esteja em baixa no mundo inteiro, quem ainda se dedica a tal atividade é visto como um erudito. Fora os muitos assumidos, poucos têm coragem de sair do armário e confessar que já leram E. L. James sem ser profissionalmente. Depois de doar toda a minha coleção de Agatha Christie, coberta de fungos, há cinco anos, venho comprando – e relendo – essa escritora, que só vendeu menos que a Bíblia e Shakespeare, segundo seus editores. Ainda assim, permanece esnobada por boa parte dos críticos.

Os policiais, para mim, trazem o sabor de férias, de descompromisso com a leitura e de pura diversão. Um gênero que não se esgota, mesmo quando se repete, vez por outra apresenta gratas surpresas como A família perfeita (Intrínseca, R$ 44,92), da britânica Lisa Jewell. Uma história escabrosa é aos poucos descoberta por uma mulher que, aos 25 anos, recebe como herança um imóvel, onde ela foi encontrada, bebê, ao lado dos corpos de seus pais e de um homem desconhecido. Com três narrações distintas, os acontecimentos – e os crimes – de três décadas são desvendados por personagens que buscam se equilibrar, depois de fugirem do jugo de um ditador doméstico.

Quem quiser fuçar sebos pessoal ou virtualmente pode se surpreender com bom entretenimento a excelentes preços. Manual para moças em Fúria – Almanaque 02 Neurônio (Record, R$ 20), das jornalistas Jô Hallack, Nina Lemos e Raquel Affonso, foi lançado há quase vinte anos, e trata com humor exuberante as contradições da geração que chegava à fase balzaquiana na virada do século XXI. Em tempos pré streaming, ficantes eram apelidados pelas moças de “pretês” – e os mais antiquados preferiam permanecer em casa assistindo a filmes em DVDs do que sair para dançar. A maturidade se instaura na vida das jovens solteiras quando começam a frequentar reuniões de condomínio e a chegada de uma carta poderia trazer uma imensa sensação de felicidade.

Para quem viveu essa época, é divertido recordar um mundo tão pouco tecnológico. Para quem não conheceu, a leitura pode ser um exercício arqueológico. E para quem quer saber um pouco da vida de uma estrela de cinema com muito menos glamour do que se imagina, Agora e sempre (Objetiva, R$ 27), que Diane Keaton lançou em 2011, pode ser tão comovente quanto muitas das personagens que ela interpretou. Além de abordar sem pudores a vida em família (incluindo a de sua avó paterna, Annie Hall, nome da personagem que lhe deu um Oscar), ela trata de paixões, listando como os maiores amores de uma vida Woody Allen, Warren Beatty e Al Pacino. E a alegria por decidir abraçar a maternidade aos 50 anos, quando adotou um casal de filhos.

Uma decepção, entretanto, é que La Keaton não fala dos namoricos que alimentaram as colunas de fofocas, mantendo uma discrição profissional sobre seus colegas de cena. E você, tem alguma leitura que preferia manter em segredo?


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