Para ler na rede

Leituras para desarmar preconceitos

Olga de Mello indica livros para ler na rede e refletir sobre os riscos da intolerância. Uma das dicas é “Longe de casa”, de Malala Yousafzai

10 de agosto de 2019
A paquistanesa Malala Yousafzai, em palestra em São Paulo (Rovena Rosa/Agência Brasil)

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Olga de Mello

Para ler na rede

Em algum momento no futuro, pensaremos no período iniciado em 2015 como tempos de muita paixão política. Cisões em famílias e rupturas de amizades à parte, a convivência de muitos desses grupos permanece, ainda que o conflito seja a palavra de ordem. Quando um amigo me pediu sugestões de livros a serem dados aos adversários políticos de uma determinada corrente, pensei em quatro títulos. Na verdade, todos podem e devem ser lidos por qualquer pessoa de qualquer corrente ideológica, pois estimulam a reflexão sobre os perigos do autoritarismo e do entendimento para conviver com a diversidade.

O fascismo eterno (Record, R$ 29,90), de Umberto Eco, pode ser encontrado em diversos sites na Internet, mas merece ser lido, sublinhado, guardado. O texto é de uma conferência que o filósofo italiano fez na Universidade de Colúmbia, em 1995. Para Eco, a liberdade é uma tarefa inacabável e da qual não se pode descuidar, sob pena da repetição do mesmo regime de exceção. O medo das diferenças, a oposição à análise crítica, o machismo, o controle da sexualidade e a exaltação de um líder são algumas das catorze características do fascismo que ele aponta, alertando para a ameaça constante de sociedades democráticas serem dominadas por um sentimento discricionário e reducionista, calcado na desigualdade.

Sejamos todos feministas (Companhia das Letras, R$ 19,90), da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, também começou como conferência num TED, em 2012, foi amplamente divulgado pela Internet e transformado num livrinho em 2014. Romancista celebrada, que vive nos Estados Unidos e tem como temas recorrentes na ficção a condição feminina e a falta de pertencimento do imigrante – tanto em sua terra natal quanto na que escolheu ou teve que viver –, Chimamanda observa as semelhanças do papel social da mulher em quase todo o planeta. A subserviência, o estímulo às mulheres para que agradem homens, a quantidade de livros e artigos em jornais ou revistas ensinando como devem se comportar para conquistar a simpatia masculina são alguns dos aspectos que moldam a falta de ambição feminina, diz Chimamanda.


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O diário de Anne Frank é uma das indicações da coluna de Olga de Mello

Publicado em mais de 40 países, traduzidos em mais de 70 idiomas, com mais de 35 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo (cerca de 16 milhões, só no Brasil), O diário de Anne Frank (Record, R$ 49,90 ) teve novos trechos do manuscrito original anexados nas últimas edições. Otto Frank, pai da adolescente judia que manteve um diário entre junho e 1942 e agosto de 1944, relatando o cotidiano de duas famílias num esconderijo em Amsterdã, até serem descobertos e presos pelos nazistas, censurou as partes em que a filha reclamava da mãe e tratava de sexo. Nascida na Alemanha e radicada na Holanda, onde o pai foi trabalhar, buscando um ambiente onde os judeus pudessem viver sem a opressão nazista, Anne morreu aos 15 anos, num campo de concentração alemão.

A situação dos judeus na Segunda Guerra Mundial acontece hoje quando, diariamente, 44 mil pessoas abandonam seus lares e se somam à multidão de 68,5 milhões de deslocados pelo planeta. Enquanto a maioria  – 40 milhões – permanece em movimento nos próprios países de origem, 25,4 milhões de pessoas constituem a massa de refugiados mundo afora. Desses, pelo menos a metade vem do Sudão, Afeganistão e da Síria.  A paquistanesa Malala Yousafzai, a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, ela própria uma deslocada, reuniu histórias de mulheres e adolescentes que passaram pela experiência de migração em Longe de casa – Minha jornada e histórias de refugiadas pelo mundo (Seguinte, R$ 39,90).  Leitura que pode ajudar a derrubar e transformar os preconceitos em aceitação e solidariedade.