Leituras de outro ano esquisitinho | Diário do Porto


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Leituras de outro ano esquisitinho

Em sua coluna derradeira de 2021, Olga de Mello nos faz um retrospectiva sobre suas leituras neste segundo ano de interminável pandemia

1 de janeiro de 2022

Os 15 livros de "cabeceira" de Olga de Mello em 2021 (reprdoução de internet)

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Para ler na rede “Retrospectiva Literária 2021”

                                                              Olga de Mello

Olga de Mello

Vacinas à parte, a pandemia não acabou. Enquanto se discute qual é a atual onda (terceira ou quarta) e o mundo volta a promover isolamento para evitar a transmissão da variante Ômicron, no fim deste segundo ano esquisitinho, vale recordar quantas boas leituras chegaram ao mercado brasileiro.

Foram três anos de espera por “Encaixotando minha biblioteca – Uma elegia e dez digressões” (Companhia das Letras, R$ 38,90), de Alberto Manguel, até sua publicação no Brasil. É o livro de cabeceira de qualquer bibliófilo, com um título adaptado de um ensaio de Walter Benjamim, “Desencaixotando minha biblioteca”. O argentino Manguel, um dos maiores especialistas em literatura e leitura do mundo, conta como embalou 40 mil volumes para atravessar o Atlântico na mudança que fez da França para os Estados Unidos. Amigos se prontificaram a auxiliar a tarefa, que suscitou diversas reflexões sobre a vida entre livros, como “se toda a biblioteca é autobiográfica, seu encaixotamento parece assemelhar-se a um “autonecrológio”.

A escritora húngara Magda Szabó teve a morte, em 2007, sonhada por qualquer bom leitor: com um livro nas mãos. Vinte anos antes, lançava “A porta” (Intrínseca, R$ 44,90), que trata da e agressiva relação entre uma diarista e sua principal empregadora – sim, países europeus comunistas também têm empregadas domésticas. Uma história de paixão e ódio até transformar-se num amor verdadeiro.

Em 1962,  a antilhana Françoise Ega, que havia emigrado para a França, leu a história da brasileira Carolina Maria de Jesus numa revista. Nascia então “Cartas a uma Negra” (ed. Todavia, R$ 59,90) um diário epistolar em que Françoise descreve seu cotidiano como empregada doméstica em Marselha, na França, comentando a indiferença dos patrões que parecem querer  entronizar no território francês a prática escravagista, consagrando diferenças culturais e de classe. Ao se insurgir contra a hostilidade e o desprezo dos empregadores, Françoise Ega se tornou uma liderança local, criando organizações trabalhistas e ajudando os imigrantes a legalizarem a permanência na França, além de buscar integrá-los socialmente, com atividades esportivas e culturais em centros de atendimento público.  O livro foi publicado apenas em 1978, quando tanto Ega quanto Carolina já haviam falecido.

“Correio Noturno” (ed. Tabla, R$ 44,20), da libanesa Hoda Barakat, trata em forma epistolar do estranhamento de um universo de excluídos no Ocidente, os refugiados árabes. Seis personagens distintos e com histórias bem diferentes se identificam ao encontrarem as cartas de desconhecidos. A primeira carta, de um imigrante ilegal para sua namorada, é lida pela mulher madura que tem um encontro marcado com um antigo amor da juventude. A carta da mulher chega às mãos de um homem com passado criminoso, que escreve para a própria mãe, e tem as folhas descobertas por uma aeromoça dentro do avião onde ele viajou. A delicadeza do entremeio das histórias rendeu a Hoda Barakat, que já havia recebido a Medalha Naguib Mahfouz de Literatura em 2000, o prêmio internacional por Ficção Árabe, em 2019.

A ascensão social e financeira de uma família de classe média na Zona Norte do Rio na década de 1970 em “Elefantes no céu de piedade” (Patuá, R$ 45), de Fernando Molica, é embotada pela chegada de um família de classe média típica precisa abrigar um parente que se tranca na casa e esconde um passado misterioso. O narrador é um menino em processo de perda da inocência em relação à política, observando o estranho comportamento dos adultos, que não revelam a verdade sobre a hospedagem do primo, nem a prisão de um tio depois do assalto ao banco em que ele trabalhava. Os mesmos adultos que criticam a prima adolescente “mal falada” vão defendê-la de uma falsa acusação de sedução/estupro que acaba transformando a rotina modorrenta do grupo em tragédia. Os segredos contrastam com a intensidade da claridade dos dias cariocas, mas combinam com o sufocante calor da cidade. Um trabalho primoroso de recordação dos anos de chumbo pelo olhar de quem não tinha idade para participar ou compreender a realidade de então.

A ausência do pai e a conivência da mãe alimentaram o romance da adolescente Vanessa Seringara, então com 13 anos, e o escritor Gabriel Matzneff, que tinha 49, na década de 1980. O biográfico “O Consentimento” (ed; Verus, R$ 44,90) foi lançado apenas quando o crime já estava prescrito, mas levou o octogenário Matzneff à execração pública, embora em sua produção literária demonstrasse claramente sua pedofilia, com ensaios, diários e romances nos quais falando de relações com meninos de 11 anos prostituídos nas Filipinas. Matzneff deixou Vanessa quando ela estava com quinze anos e ainda apaixonada pelo escritor, o que ela relata, cruamente, questionando por que a sociedade perdoa os crimes de artistas.

O cineasta Quentin Tarantino traz em “Era uma vez em Hollywood” (Intrínseca, R$ 49,90) detalhes sobre seu filme, no qual buscou recordar a Los Angeles de fins da década de 1960 e início dos anos 1970  com carinho, humor e muita devoção pela criação cinematográfica. O astro em decadência Rick Dalton (no filme, Leonardo DiCaprio) faz participações especiais como vilão especialmente convidado em séries de faroeste, nas quais encaixa, invariavelmente, seu dublê, Cliff Booth (papel de Brad Pitt), cinéfilo, admirador de Akira Kurosawa e de diretores europeus, com exceção de François Truffaut. Fã confesso da desprezada literatura violenta de quinta categoria, a chamada “Pulp Fiction” – não por acaso o título de um de seus mais celebrados filmes –, Tarantino desfia conhecimento cinematográfico sem a ostentação de alguns eruditos..

O inconformismo perante a opressão social – e cultural – é o que movimenta a jovem Adunni, protagonista de “A garota que não se calou” (Verus, R$ 41,90), da nigeriana Abi Daré, a fugir do casamento com um homem de meia-idade no interior da Nigéria, em busca do sonho de se tornar professora. Aos 14 anos, ela se torna a terceira esposa de um motorista de táxi em troca de alimentos e um dote para sustentar seu pai e irmãos. Foge  para a capital, Lagos, onde, enquanto trabalha como empregada doméstica em troca de comida, aprimora os conhecimentos de inglês para concorrer a uma bolsa de estudos, pois entende que apenas a educação permitirá que tenha uma vida menos sofrida. Best-seller do “New York Times”, o livro rendeu prêmios à Abi Daré, radicada na Inglaterra.

“Os contos de Rondó” (ed. Penalux, R$ 40), primeira incursão da consagrada autora de romances históricos Sonia Sant’Anna, se voltam para homens e mulheres comuns, que experimentam relacionamentos amargos, mas “da vida”, na qual a solidão é um imperativo que poucos conseguem superar. O último texto é um relato autobiográfico intrigante e realista, no qual desponta a  mágoa pela descoberta de segredos guardados por mais de cinquenta anos, aplacada por lembranças nostálgicas da infância ao lado dos irmãos – os também escritores Ivan e Sérgio Sant’Anna. Do caçula Sérgio, que faleceu em decorrência da Covid, no ano passado, Sônia, conta o quanto se incomodou quando nasceu: “Haviam me prometido uma irmã, que se chamaria Vânia, (…) o hospital estava em falta de meninas. Mas quando olhei pelo vidro do berçário, lá estavam vários bercinhos ocupados e com laço rosa, sinal de que existiam meninas disponíveis. Eles é que tinham preferido pegar um menino”.

“Correnteza” (Ventania, R$ 49,90) é contada em quatro “vozes” por uma família de filhas únicas: Manuela, a matriarca, nascida em 1930, sua filha Teresa, a neta Débora e a bisneta Luísa, mulheres que, mesmo quando tentam se enquadrar nos papéis sociais circunstancialmente estabelecidos pela época, mostram-se inovadoras e, principalmente, movidas por paixões. A rebeldia da juventude, o envelhecimento, as traições – delas e dos companheiros -, a possibilidade de rejeitar a maternidade são algumas das situações que elas vivenciam, demonstrando todas as contradições que encerram, com a única determinação de serem fiéis às próprias convicções.

“Contra o feminismo branco” (Intrínseca, R$ 42,90), da advogada paquistanesa Rafia Zakaria, tem o claro propósito de abrir os olhos dos leitores ocidentais para a inexistência de uma militância feminina universal. Para Zakaria, o feminismo majoritariamente esconde outra faceta do colonialismo que dominou o planeta com sua religião monoteísta, o conceito do branco salvador dos selvagens e a pregação progressista que desrespeita culturas. Esse apagamento está em projetos que deveriam gerar renda mulheres de países pobres, vistas pelos benfeitores de maneira estereotipada e na indústria da ajuda humanitária, pela qual “filantropos brancos e ocidentais doam dinheiro (..) para a educação das meninas de Bangladesh (…), mas não estão dispostos a renunciar às roupas de “fast fashion” (…)” cuja produção é baseada na exploração de mulheres de países pobres.  A caridade camufla a cumplicidade com o reforço das hierarquias raciais globais, diz Rafia.

O comentarista esportivo Emmanuel Acho transpôs para livro as discussões mostradas em uma série de programas em seu canal de YouTube para abordar o racismo intrínseco e as formas de eliminar a desigualdade em todos os campos – educacional, profissional e, principalmente, no discurso. Em “Conversas Desconfortáveis com um Homem Negro” (ed. Leya, R$ 34,90), o desconforto está em cada tópico que Acho, filho de um casal de nigerianos, escolheu para analisar as relações sociais nos EUA. Ao dissecar questões incômodas, mas aparentemente “radicais”,  como a das apropriações culturais reivindicadas pelos negros (uso de turbantes ou tranças rastafári) e a terminologia apropriada para chamá-los (negro/preto/afrodescendente), Emmanuel Acho cutuca o preconceito sem qualquer temor, propondo não apenas do fim do racismo, mas que todos se tornem militantes antirracistas, a única maneira de eliminar conversas desconfortáveis na sociedade.

“Criogenia de D. – ou manifesto pelos prazeres perdidos” (Mondrongo, R$ 45), um fascinante exercício literário de Leonardo Valente, traz um protagonista em constante mutação. Desvendar o gênero do angustiado D., em perpétua análise de sua inquietude, não importa dentro dessa narrativa fragmentada, ora poética em prosa, ora prosa em poesia. A forma é rompida não apenas como enredo, mas na construção desse intrigante personagem que se transmuta a partir do desejo do outro, vítima do adestramento, desde a infância, a se deslocar sobre trilhos e a jamais sair de cima deles, por determinação do pai.

“A Cachorra” (Intrínseca, R$ 24,90), da colombiana Pilar Quintana, aborda sentimentos e as dificuldades de sobrevivência através da relação entre Damaris, que trabalha ocasionalmente como caseira numa cidade de veraneio, e sua cadelinha vira-lata. Frustrada pela dificuldade em engravidar, ela dá à cachorrinha o nome, escolhido para a filha jamais concebida, mas o carinho se esvai no primeiro cio da cadela, substituído por ressentimento e mágoa avassaladores, que envolvem – e oprimem – o leitor.

“Estão matando os meninos” (Iluminuras, R$ 39), do pernambucano Raimundo Carrero, se volta para a dolorosa realidade brasileira da violência urbana, ceifando a vida de tantas crianças pobres em grandes cidades. Escrito em cinco meses, depois que Carrero leu a notícia sobre a morte de um adolescente por “bala perdida” no Rio de Janeiro, em 14 contos ele mostra o pasmo de pais que nada podem fazer para superar a dor dos assassinatos absolutamente injustificáveis de seus filhos, tratando de um cotidiano de muita miséria e coragem de famílias que buscam chegar ao dia seguinte, apesar de tantos sonhos destroçados pela cultura do racismo e da insuperável desigualdade social do País.


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