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Leituras de guerra em tempos incertos

Em sua primeira coluna do ano, Olga de Mello indica leituras que vão da Guerra do Vietnã às mulheres que militam no grupo Estado Islâmico

7 de fevereiro de 2022

Icônica foto de Robert Capa de combatente morto na Guerra Civil Espanhola, tema de livro de George Orwell indicado por Olga de Mello (Robert Capa)

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Olga de Mello

Olga de Mello

O ano mal começou e já tem mais bombardeio dos EUA na Síria, certamente, em nome da “liberdade”. Foi assim no Vietnã, uma região que, ao longo dos séculos esteve sob jugo chinês e francês, tendo passado décadas com a presença norte-americana defendendo os “ideais democráticos” numa guerra sangrenta que custou em torno de três milhões de mortos entre civis e militares vietnamitas. Esses números difusos de perdas em combates estão entre os aspectos levantados pelo jornalista inglês Max Hastings em “Vietnã – Uma tragédia épica 1945-1975” (ed. Intrínseca, R$ 99,90), leitura obrigatória para quem pretende compreender a geopolítica contemporânea. Hastings, ex-correspondente de jornais britânicos no Vietnã, busca personagens anônimos para mostrar o impacto de uma guerra que passou mais distante dos desejos do povo do que justificavam os invasores estrangeiros.

Ainda na época da dominação francesa na mesma área, foi lá que nasceu a escritora francesa Marguerite Duras, que fez dali o cenário de alguns de seus romances. Branca numa terra de asiáticos, a jovem futura escritora cresceu sem qualquer laivo racista nas paixões românticas, consciente de que ser ocidental lhe garantia um tratamento privilegiado pelos locais. A bestialidade da guerra e o passado oriental voltam em “A morte do jovem aviador inglês”, um dos ensaios reunidos em Escrever (ed. Relicário, R$ 51,98), que tratam da solidão e as manias do ofício do escritor, entremeados a recordações. O rapaz abatido na invasão à Normandia, a faz se lembrar dos irmãos, principalmente do caçula, a quem devotou intensa paixão, e que foi enterrado em cova comum no Japão. O irmão se mistura ao inglês, que lhe suscita a tristeza dos meninos que se vão em guerras injustificáveis: “Então, um dia, não haverá mais nada para escrever, nada para ler, não haverá mais do que o intraduzível da vida desse morto tão jovem, tão jovem que dá vontade de gritar”.

Outro eterno estrangeiro mundo afora foi Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell. Nascido na Índia, viveu na Inglaterra até formar-se em Cambridge e ir trabalhar como integrante da força policial imperial britânica, por cinco anos, na antiga Birmânia, hoje Myanmar. Depois de estadas em Londres e Paris, foi para a Espanha em 1936 para fazer relatos jornalísticos sobre a Guerra Civil e juntar-se às forças que lutavam contra os franquistas. “Em Homenagem à Catalunha e Recordando a guerra Espanhola” (ed. Avis Rara, R$ 53,90), dois ensaios que descrevem o período de seis meses em que viveu no país, ele revive o encantamento ao conhecer Barcelona, a primeira cidade em que esteve onde o comando era da classe trabalhadora. Ao ir à luta, no entanto, Orwell teve graves problemas de saúde, além de uma nova visão a respeito de revoluções em nome do povo que entronizam perpetuamente um grupo no poder, rompendo com o stalinismo, o que aborda nesses dois textos. A decepção política e a tristeza pelo desperdício de vidas sob o autoritarismo levaram a duas das mais importantes criações literárias ocidentais: “1984” e “A revolução dos Bichos”.

O stalinismo ainda não se firmara quando a família real russa foi executada, em 1918, cerca de um ano depois da abdicação do czar Nicolau II. O fascínio pelo trágico fim dos aristocratas está em “Os últimos czares – uma breve história não contada dos Romanov” (ed. LeYa, R$ 28,53), de Paulo Rezzutti, que não revela, no entanto, quem mandou matá-los. Trotsky queria levar o czar a julgamento por viver no fausto enquanto o povo passava fome. Atribui-se a Lênin e ao comando do governo revolucionário a decisão, porém, diante do desconhecido, resta ao leitor refletir sobre a incompetência política de um soberano que acabou dando lugar a um estilo de governo que até hoje não admite discordâncias.

 

Depois de anos de Guerra Fria, os soviéticos perderam o posto de inimigos número 1 dos Estados Unidos para grupos muçulmanos. A cobiça mundial pelas camadas de petróleo sob o território de muitos desses países levaram a frequentes intervenções ocidentais e às incessantes críticas em relação à sociedade patriarcal, que exige, muitas vezes o uso de véus e vestimentas para encobrir feições e corpos das mulheres. Mesmo assim, não são poucas as mulheres devotadas à causa do Islã, entrando para movimentos como o Estado Islâmico, por vontade própria. É sobre elas que a jornalista Azadeh Moaveni, nascida nos EUA, mas iraniana, se debruça em “A casa das jovens viúvas – a vida das mulheres no Estado Islâmico” (ed. Alta Cult, R$ 68,61), enfocando treze jovens – algumas convertidas ao islamismo – que enfrentaram reações adversas ao aderirem à causa islâmica. O título vem da prática de manter as mulheres sempre ligadas a militantes do grupo. Se alguma perde o marido em combate, rapidamente é arranjado seu casamento com outro integrante do grupo. A autora preferiu dar voz a essas mulheres e suas razões para participarem do movimento sem expressar o preconceito ocidental quanto ao lugar da mulher nas sociedades conservadoras teocráticas ou dominadas por um viés religioso.

 

 


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