Jornalismo carioca em luto: Aloy Jupiara não resiste à Covid-19 | Diário do Porto

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Jornalismo carioca em luto: Aloy Jupiara não resiste à Covid-19

Diretor de O DIA e integrante por muitos anos do Estandarte de Ouro, do Globo, Aloy Jupiara morre aos 56 anos. Foi uma referência ética para sua geração

13 de abril de 2021


O jornalista Aloy Jupiara, de 56 anos, morreu de complicações da Covid-19 no Rio (Foto: Reprodução de Internet)


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“Sambódromo, deixei uma rosa branca com a inscrição Resistência. Pelo carnaval, pelo samba, pela saúde das pessoas, pelos que perderam amigos e parentes, pelos que se sentem desprotegidos por políticas públicas, e resistência para todos os profissionais de Saúde da linha de frente do combate à Covid, alguns dos quais pereceram nessa luta. Gratidão a vocês.”

A homenagem do jornalista Aloy Jupiara aos profissionais de Saúde e ao Carnaval foi seu último post no Instagram, em fevereiro. Pela primeira vez o samba não tinha ido para a Avenida que ele tantas vezes frequentou, por trabalho e por paixão. A Covid não deixou. E o carioca nascido no mês do Carnaval isolou-se em sua casa no Cachambi, de onde fechava as edições do jornal O DIA como editor-chefe, estampando nas páginas a catástrofe brasileira de todos os dias.

Amante do Império Serrano, Aloy tinha 56 anos e lutava desde 29 de março contra as complicações da doença, até perder a luta, na noite desta segunda-feira 12, para uma nova infecção pulmonar. Sua morte foi um dos assuntos mais comentados do Twitter, entre manifestações de tristeza e revolta. Tristeza pelo profissional e pela figura humana, e revolta diante do descontrole da pandemia no país. Desde abril de 2020 até esta terça, 12, foram 186 jornalistas mortos pela Covid, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Aloy estava internado no CTI do Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Tijuca, desde 29 de março. O corpo será cremado nesta quarta-feira, após breve cerimônia restrita à família.

Rosa de papel postada por Aloy no portão do Sambódromo, fechado para o Carnaval 2021 (Reprodução da internet)

A saudade dos amigos nas redações e barracões

Declarações emocionadas, muitas com fotos, encheram as timelines das redes sociais de amigos jornalistas e gente do mundo do samba. Era tão querido que sua morte chegou a figurar entre os Trending Topics do Twitter durante o dia.

“Ele dava a vida pelo samba”, lembra o jornalista Bruno Thys, da Editora Máquina de Livros. O historiador e escritor Luiz Antonio Simas, especialista em Carnaval, tuitou: “Convivi ao longo desses anos com um cara doce, sério, generoso, divertido; tremendo jornalista! Mais um que a peste, auxiliada pela irresponsabilidade do poder público, leva.”

Doce, sensível, gentil, generoso, tímido. Um gentleman. Foram os principais adjetivos usados na despedida. “Eu ainda não acredito que não teremos mais você. Eu não quero acreditar. A pandemia veio mesmo para nos destruir e atacar nossas esperanças de uma vida melhor. Vai ser duro, muito duro”, escreveu a amiga Cláudia Silva, parceira de vários projetos no Rio de Janeiro.

“Acho que nunca haverá alguém mais doce do que o Aloy Jupiara. Nem uma tristeza tão grande como a de sua partida”, escreveu Aziz Filho, editor do DIÁRIO DO PORTO. O jornalista revela a última vez em que se encontrou com Aloy, num dos poucos momentos em que ele rompeu o isolamento social para rever os amigos (confira abaixo).

Da cidade do Porto, em Portugal, onde vive, a jornalista Rosane Serro, em luto pela morte da mãe, também vítima de Covid em março no Rio, disse que “a devastação é tão grande que desnorteia”. Segundo ela, não era raro ver Aloy em plantões de domingo, inclusive quando era sua folga. “Estava no auge profissional, com livros publicados, reconhecimento, diretor de Redação do Dia. Vai fazer uma falta tremenda.”

Um defensor do samba como patrimônio imaterial do Brasil

O envolvimento com o Carnaval carioca fez com que Aloy integrasse o grupo responsável por transformar o Samba do Rio em patrimônio imaterial do Brasil, em 2007. O Museu do Samba lamentou a morte do integrante de seu Conselho Deliberativo e “uma das maiores referências do jornalismo brasileiro e da cobertura carnavalesca”.

Colaborador do Museu do Samba, Aloy integrou o grupo de pesquisadores que participou da elaboração do dossiê “Matrizes do Samba no Rio de Janeiro”, em 2007, documento fundamental para o Ministério da Cultura, após movimento coordenado pelo Museu, reconhecer o samba como patrimônio imaterial do Brasil.

“Nos momentos mais difíceis da história do Museu do Samba, o Aloy sempre esteve à disposição para nos socorrer. Era um exemplo de pessoa e de profissional. O jornalismo perde um profissional ético e dono de um caráter sem igual. O carnaval perde um de seus maiores apaixonados e o Museu do Samba fica sem um de seus grandes pilares. Estou muito triste! Obrigada por tudo, Aloy”, lamentou a fundadora, Nilcemar Nogueira.

Aloy Jupiara também participou como entrevistador de dezenas de depoimentos da série de história oral “Memória das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro”, uma das mais importantes ações desenvolvidas pelo Museu. “Profundamente consternado, o Museu do Samba se solidariza com os familiares, amigos e colegas de profissão de Aloy neste momento de luto”, descreve a nota.

Sobre a paixão pelo samba, o amigo e jornalista Chico Alves escreveu no UOL: “Não se interessava tanto pelo lado glamouroso dos desfiles, mas principalmente pela relação que os moradores das comunidades tinham com as agremiações. Pesquisava a história dos sambistas”. Ainda segundo ele, o “morador do Cachambi, subúrbio da zona norte do Rio, repetia que não tinha motivos para se mudar para a zona sul, como muitos amigos pediam. Achava que o verdadeiro carioca é o suburbano”.

De repórter a diretor, uma vida nas redações

Formado na Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ, o editor-chefe do Dia construiu sua carreira no Globo, onde por 20 anos foi repórter, coordenador e subeditor de Rio, editor e coordenador de Política. Foi pioneiro no jornalismo on-line no Globo, na criação dos site GloboNews.com e Extra On-line. O amor pelo Carnaval se transformou em boas ideias para mais visibilidade ao samba. Foi jurado e coordenador do Prêmio Estandarte de Ouro. Nos sites do Globo e do Extra, foi o primeiro a estimular a cobertura on-line mais ampla dos blocos de rua do Rio, até então um tema secundário nas pautas dos veículos.

Aloy Jupiara escreveu, em parceria com o também jornalista Chico Otávio, os livros “Deus tenha misericórdia dessa nação: A biografia não autorizada de Eduardo Cunha” e “Os Porões da Contravenção”, que abordava a relação entre a ditadura e o jogo do bicho no Rio de Janeiro. Recentemente, participou do documentário “Doutor Castor”, sobre o bicheiro Castor de Andrade, em exibição no Globoplay.

“Além do faro investigativo e enorme dedicação ao trabalho, Aloy se destacava sobretudo pelo semblante tranquilo, não importava a situação. Sempre bem-humorado, tinha verdadeira paixão pelo trabalho nas redações, que talvez só não fosse maior do que o amor incondicional ao carnaval”, publicou O Globo Online.

‘Daqueles curiosos que buscam a informação o tempo todo’

Por Alba Valéria

Lembro que quando entrei no Globo, em 1987, ele tinha acabado de sair do programa de estágio e tinha sido contratado para coordenar a pauta do jornal e ficar na subchefia da noite, devido a sua visão jornalística. Era uma pessoa que previa com serenidade o que iria render boas suítes, que matérias iriam bomba no dia seguinte. E deixava uma pauta irretocável, com sugestões de linhas a seguir na continuação das matérias e de personagens.

No carnaval, era uma pessoa que estudava, que buscava informações, que tinha um olhar crítico sobre os desfiles, enredos, o trabalho nos barracões. Conversar com ele sobre carnaval era como ter uma aula. Trabalhei 18 anos com ele no Globo. Era uma pessoa doce, calma, educada, responsável, bom apurador, daqueles curiosos que buscam a informação o tempo todo e sempre pesam muito bem as palavras que vão estar no texto.

Tinha clareza e rapidez de raciocínio. Um gentleman. Nunca ouvi alterar a voz por nada. Parecia flutuar acima do bem e do mal, sem com uma observação muito perspicaz sobre a situação. Transmitia tranquilidade e segurança, mesmo em coberturas bem conturbadas. Era muito querido e admirado pelos colegas. Não conheço ninguém que tivesse algo a reclamar do Aloy, mesmo em locais onde a vaidade supera a razão, como nas redações.

Era doce, gentil, generoso. Era um cara sensacional. Ninguém vai do estágio direto para a coordenação de pauta de um grande jornal como O Globo, e sem pistolão – Aloy conquistou tudo sozinho – do nada, né?

‘Aloy foi um guerreiro, travou sempre o bom combate’

Por Bruno Thys

Quando assumi a direção do Jornal Extra, em 2005, não tínhamos ainda um site. Precisávamos de um bom jornalista que dominasse tecnologia e conhecesse arquitetura digital. Aloy era vizinho de andar, trabalhava no globonline e falava essas novas línguas muito bem. O conhecia desde 1994, quando tentei levá-lo para o Jornal do Brasil, por sugestão do Paulo Motta. Ele preferiu ficar no Globo.

Aloy veio trabalhar no Extra em 2006. Agostinho Vieira, que comandava a área de negócios dos jornais, nos ajudou na tarefa. Ele bateu um bolão: tomou á frente a construção do site, inicialmente um blog, que, em pouco tempo se tornaria um dos mais acessados do país. Trabalhava dia e noite, mais noite do que dia, em melhorias contínuas no ambiente digital e, quando necessário, dava um help no “produto analógico“ também. Era excelente jornalista e fez muita coisa no Globo antes de ir para o digital, do qual foi pioneiro no país.

Essa sua opção por trabalhar à noite produziu um episódio prosaico: um dia já de madrugada, desligaram o elevador com ele dentro. Gritou por ajuda e, nada. Relaxou e dormiu até religarem o elevador, na manhã seguinte. Aloy formava no time do “recuo da bateria”, lugar da redação do Extra em que ficava o comando do jornal. Passava boa parte do tempo, porém, na tecnologia, em outro andar. Era simples, culto – estava sempre com um livro na mão – antenado, adorava cinema, teatro samba e muito ligado aos poucos e grandes amigos. Lutava contra um temperamento mais individualista e fez progressos nisso.

Conversávamos bastante sobre temas gerais, literatura, teatro e cinema. Ele era cinéfilo e sabia tudo até de cinema iraniano! Ficávamos felizes quando descobríamos que conhecíamos gente que achávamos que só um de nós conhecesse, caso de Stella Adler, professora de teatro nos Estados Unidos. Aloy lia bastante e escreveu um livro muito bom com o Chico Otávio sobre ditadura, samba e o papel dos bicheiros naquele momento. Ele dava a vida pelo samba. Era organizador e figura central do Estandarte de Ouro, promovido pelo Globo.

Sua vida era a Irineu Marinho, sua família, também. Sofreu muito quando saiu de lá há alguns anos. Perdeu o chão e se trancou até voltar ao mercado. Vou sentir falta das nossas conversas, do bom humor, da alegria das vibrações com as pequenas conquistas do dia a dia que celebrávamos com um cumprimento típico da turma do “hap“. Quando foi internado, tínhamos esperança de que se recuperasse: era novo, não fumava nem bebia. Acompanhamos bem de perto a luta dele. Nos últimos dias, as notícias nos deixaram mais esperançosos.

Estamos todos muito tristes. Muito. Aloy não era de festas, chopes e jantares. Era tímido. Os anjos o guiarão em silêncio á presença do Criador que o receberá com discrição. Aloy foi um guerreiro, travou sempre o bom combate. Ao Chico, Elba, Joyce e a todos os que trabalharam e conviveram com ele os nossos sentimentos, a nossa saudade e eterna admiração.

O último encontro: ‘Ele falava pouco. Era especialista em sorrir’

Por Aziz Filho

Acho que nunca haverá alguém mais doce do que o Aloy Jupiara. Nem uma tristeza tão grande como a de sua partida. Em janeiro, nós driblamos o isolamento para um chope no Olegário, o último de muitos. Ele, Claudia Silva e eu, inseparáveis há 30 anos. Rimos demais, falamos bem da Mangueira e mal do governo, choramos pelo Brasil e de saudades do Ramiro Alves, fizemos planos para a aposentadoria daqui a uns 30 anos, enchemos a cara até esquecer que o vírus poderia nos separar um dia.

Diante de dois tagarelas, ele falava pouco. Aloy era especialista em sorrir. Depois disso, tentamos mil vezes combinar outra escapadela da quarentena para beber, porque o mundo tinha piorado e a gente tinha que comemorar que um dia tudo isso ia passar. No fechamento do jornal, ele me pedia: “ponha uma foto da Júlia aí, a situação hoje tá braba”. Aloy era muito rigoroso no isolamento, nunca saía de casa.

Em nosso último diálogo, ele tinha acabado de conseguir um lugar na UTI, depois de uma fila angustiante. Eu queria saber detalhes, e prometi rezar muito. Ele contou como estava a saturação do oxigênio (95 com ‘ventinho na fuça’ e 80 sem), disse que não poderia mais ficar com o celular e, para se despedir, mandou um coração vermelho. Foi a última mensagem e ficou aqui no celular, vou olhar sempre que a situação ficar braba.

O último post do Aloy no instagram, em fevereiro, diz o seguinte: “Sambódromo, deixei uma rosa branca com a inscrição Resistência. Pelo carnaval, pelo samba, pela saúde das pessoas, pelos que perderam amigos e parentes, pelos que se sentem desprotegidos por políticas públicas, e resistência para todos os profissionais de Saúde da linha de frente do combate à Covid, alguns dos quais pereceram nessa luta. Gratidão a vocês.”

Eu sei que você vai ficar aí torcendo por nós. Muito obrigado por tudo, meu camarada. Amo você.