Instituto E+ defende taxa para petróleo e carvão | Diário do Porto


Inovação

Instituto E+ defende taxa para petróleo e carvão

O diretor do Instituto E+, Emílio Matsumura, quer “taxar o carbono” para incentivar a transição energética. Para ele, novas hidrelétricas serão inviáveis

30 de janeiro de 2021

Emílio Matsumura, diretor do Instituto E+, diz que Petrobras não errou ao focar em extração do petróleo (foto: reprodução Internet)

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O diretor executivo do Instituto E+ Transição Energética, Emílio Matsumura, propõe que seja criada uma taxação no país contra as fontes de energia baseadas em combustíveis fósseis, como o petróleo ou o carvão mineral. A “taxação do carbono”, como ele define, ampliaria o potencial para o crescimento de outras fontes alternativas, como as energias solar, eólica e mesmo do etanol, uma experiência brasileira de 5 décadas.

“Deveríamos caminhar para a taxação do carbono. É uma questão importante a ser colocada”, diz Emílio, alinhando-se aos críticos dos combustíveis que ameaçam a segurança climática do planeta. Hoje, no Brasil, no lugar da restrição há inclusive incentivo aos combustíveis fósseis, como no caso do carvão, cujo uso para termelétricas é protegido por subsídio.

Mas ele é contra a qualquer forma de subsidiar fontes de energia. O que inclui também a solar e eólica. “Há subsídios cruzados que precisam ser retirados, em algum momento, para que venham a competir em condições de igualdade no mercado”, afirma.

Fundado em 2018, o Instituto E+ Transição Energética e seus parceiros pesquisam, produzem, reúnem e oferecem conhecimento sobre o que existe de mais avançado em termos de transição energética, ou seja a busca da substituição de fontes de energia poluidoras por fontes renováveis e de baixo impacto ambiental. O Instituto E+ está conectado a uma rede global de think tanks. Estes centros de reflexão integram a International Network of Energy Transition Think Tanks (INETTT) – liderada e apoiada pela Agora Energiewende, com sede na Alemanha.

Instituto E+ vê futuro para gás natural

Apesar de pregar a taxação ao carbono, Emílio acha que a Petrobras não errou nos últimos anos, ao se concentrar apenas nas atividades de extração do petróleo e ter abandonado seu projeto de se tornar uma empresa diversificada em energia. A estatal já chegou a liderar pesquisas em biocombustíveis e em outras fontes renováveis.

“É difícil dizer que a Petrobras cometeu um erro, porque temos que pensar que ela estava altamente endividada, o que poderia comprometer seu próprio futuro. Então, talvez tenha sido interessante focar apenas na extração, desfazer-se de outras frentes, e melhorar seu endividamento de longo prazo”, defende ele. Porém Emílio faz um alerta de que essa opção não se sustentará por muito tempo, prevendo que a empresa terá que ir atrás de suas concorrentes no mercado internacional, que estão investindo para se tornar protagonistas na transição energética.

Emílio também enxerga futuro para o gás natural, embora seja outro combustível fóssil, mas que ele não incluiu entre os que poderiam ser afetado com a taxação do carbono, o de certa forma se transformaria em outro subsídio.

“O gás natural pode ser uma alternativa a fontes mais poluentes, como o diesel. Mas só é viável se chegar mais barato aos consumidores, o que não acontecerá, caso exija grandes investimentos em redes de distribuição”, afirma.

Outro futuro, mas incerto, para Emílio, é o dos empreendimentos em grandes hidrelétricas, que já foram a grande aposta do Brasil para formar a atual matriz energética. O presidente do E+ analisa que a fronteira disponível no país para megausinas está na Amazônia, o que traz altos impactos sociais e ambientais.

“Fazer novas hidrelétricas naquela região só é possível se essas questões forem resolvidas. Mas isso, a meu ver, só é válido se ocorrer logo, antes de 2040, pois com a curva de queda no custo de produção de energia solar e eólica, não valerão mais a pena os grandes investimentos em hidrelétricas, que deixaram de ser competitivas”, assevera.

Plano Nacional de Energia traz vantagens

Emílio não tem a mesma assertividade ao comentar o Plano Nacional de Energia 2050 (PNE), pois ao mesmo tempo em que concorda com críticas a sua elaboração, também o defende por aspectos que considera positivos.

“Temos uma visão crítica, sim, do PNE, que deveria ter dado mais enfoque à eficiência energética, pois já é possível atender a mais necessidades e serviços, usando menos energia. Porém o fato de que o Plano é muito aberto, sem determinar claramente os caminhos a seguir até 2050, já vejo como uma vantagem. Acho que não procedem essas críticas, pois se fecharmos muito as opções, corremos o risco de que se tornem logo obsoletas”, analisa.

Para ele, o mais importante é definir uma legislação e uma regulamentação moderna para o setor de energia, pois isso tornará o mercado mais claro para os investimentos, beneficiando a concorrência entre as fontes de energia e os consumidores.

Falta transparência no estímulo ao carvão

Já em relação ao Plano Decenal de Energia, com horizontes até 2030, o presidente do E+ é mais severo em suas considerações. “O Governo Federal ao elaborar o PDE criou incentivos para termelétricas a carvão, mas não justificou essa escolha claramente. Não sabemos o real motivo de isso ser uma opção”.

Ao definir a importância do próprio instituto que preside, Emílio diz que o E+ trabalha para que a transição energética seja “de baixo custo econômico, socialmente responsável e ambientalmente justa”. Metas que ele considera “pilares de difícil implementação”, mas necessários para que o Brasil se torne um player relevante entre os países que já lideram as iniciativas para uma futura economia de baixo carbono.

Por fim, ele diz que o país não pode se acomodar no fato de já ter uma matriz energética com grande participação de fontes renováveis. “É preciso caminhar para as novas fronteiras oferecidas pela transição energética, nas quais outros países estão investindo com clareza. O Brasil precisa ter um sentido de urgência nessa questão, pois aqui as transições costumam ocorrer de forma muito lenta”, finaliza.