Indústria cultural do Rio vive inferno astral | Diário do Porto

Indústria criativa

Indústria cultural do Rio vive inferno astral

Após a crise das escolas de samba e dos blocos com a Prefeitura, vem aí o corte de patrocínios da Petrobras e do BNDES: indústria cultural do Rio em baixa

16 de abril de 2019
Queda do preço ameaça Petrobras e acende alerta de recessão no Rio (Foto: Fernando Frazão/Ag. Brasil)

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Depois da devastação na indústria naval e dos escândalos que abalaram a Petrobras, com sede no Rio de Janeiro, o Estado enfrenta agora uma baita crise na economia criativa. A um só tempo, a antiga “capital cultural do país” não sabe o que será de seu Carnaval, “o maior espetáculo da Terra”, e amarga o corte histórico nos patrocínios da Petrobras e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), grandes financiadores de cultura.

A Petrobras anunciou que não vai renovar o patrocínio de 13 eventos culturais, o que inclui o Festival do Rio e o Anima Mundi. Em resposta a um requerimento dos deputados do Psol Áurea Carolina (MG) e Ivan Valente (SP), a empresa disse que seus programas de patrocínio passam por uma revisão e que, a partir de agora, deve focar em projetos de ciência, tecnologia e educação.

Além dos eventos de cinema, também foram atingidos no Rio o Prêmio da Música Brasileira, entregue no Theatro Municipal, e o Teatro Poeira, em Botafogo. O próprio presidente Jair Bolsonaro anunciou, em fevereiro, que a estatal passaria um pente fino nos projetos. “Determinei a reavaliação dos contratos. O Estado tem maiores prioridades”, disse o presidente no Twitter.

A Petrobras, na verdade, começou a reduzir fortemente seu patrocínio em 2011, quando destinou R$ 135 milhões para a cultura. No ano passado, caiu para R$ 38 milhões. A estatal, que já chegou a financiar 336 projetos culturais, só bancou 30 em 2018. Para este ano, o orçamento aprovado para comunicação, que inclui cultura, foi de R$ 180 milhões. O valor sofreu um corte de 30% e deve ficar R$ 128 milhões.

BNDES, Caixa, BB e Correios: cortes

O financiamento cultural pelo BNDES, também com sede no Centro do Rio, teve corte de quase 40% na previsão deste ano, segundo a superintendente de Relacionamento Institucional do banco, Helena Tenorio Veiga de Almeida. Ela também falou à Câmara dos Deputados, na quinta-feira da semana passada, dia 11. Os R$ 8 milhões de 2018 caíram para R$ 5 milhões — que devem ser investidos apenas em projetos de literatura.

O mesmo deve acontecer com Caixa Econômica, o Banco do Brasil, e os Correios. Além disso, o governo deve anunciar em breve um teto menor para projetos financiados pela Lei Rouanet. Um dos setores mais prejudicados deve ser o de musicais no teatro, uma das tradições da indústria cultural carioca.

Carnaval à beira de uma ataque

O cenário é de incertezas também no Carnaval, principal produto de exportação da cultura brasileira e âncora do turismo internacional no Rio de Janeiro. Em crise financeira, a Prefeitura cortou verbas para as escolas de samba e já sinalizou que, para o próximo ano, vai levar adiante seu projeto de “desmamar” o maior espetáculo do país, ou seja, retirar verbas públicas e entregar o evento ao setor privado, que lucra com a venda de ingressos e transmissão televisiva.

O clima é de desalento na Cidade do Samba, onde ficam os barracões das escolas e seus milhares de empregos, e na Liga Independente das Escolas de Samba, a Liesa. O desafio da Liga, um dos grandes atores da indústria cultural do Rio, é rever seus conceitos e seduzir patrocinadores privados de um estado que não enxerga a luz no fim da crise.

Não bastasse o difícil diálogo do prefeito Marcelo Crivella com as escolas de samba, os blocos de rua também estão em pé de guerra com a Riotur. Enfrentam uma crise sem precedentes com os fornecedores contratados para as apresentações do último carnaval. Com o aumento das exigências para os desfiles, os blocos perderam verbas de patrocinadores e chegaram ao fim do carnaval cheios de dívidas.

Em mais um episódio para marcar o inferno astral da indústria cultural do Rio, o Terreirão do Samba, na Praça Onze, está interditado por tempo indeterminado pela Polícia Civil. A decisão foi tomada após a morte de Maria Fernanda Ferreira de Lima, de 20 anos, estudante de Odontologia. Ela foi eletrocutada durante uma festa funk produzida pela Puff Puff Bass. A gestão do Terreirão é da Secretaria municipal de Cultura.

Dificuldades em 92 municípios

Artistas de rua, poetas, historiadores, produtores e gestores culturais estiveram nesta segunda-feira 15 na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, recebidos pelos deputados da Comissão de Cultura. Na audiência pública, reivindicaram a consolidação de políticas públicas de Cultura para além da capital, mais recursos e mudanças na gestão do Conselho Estadual.

O Estado tem 92 municípios, mas o investimento na indústria cultural do Rio de Janeiro se concentra excessivamente na capital. Uma pesquisa foi apresentada aos deputados pelo produtor Alan Oliveira apontando que, dos 127 bandas e fanfarras do interior, metade está desativada por falta de recursos.

Por sua vez, quem trabalha com cultura na capital se ressente da falta de apoio. Marconi Andrade, do grupo S.O.S. Patrimônio, ressaltou que vários prédios históricos estão sendo deteriorados pela falta de manutenção. Foi o que provocou a maior tragédia da história do patrimônio cultural brasileiro, em setembro do ano passado: o incêndio que destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Tragédia do Museu Nacional não ensinou

Só na capital, listou Andrade, há 1.400 monumentos históricos, dos quais apenas 80 possuem contrato para serviços de conservação. “Se analisarmos todo o estado, veremos que o que é feito é quase criminoso. São fazendas, palacetes, edifícios públicos e estações de trens que estão abandonados. Entendemos que o Estado passa por problemas sérios, mas não podemos deixar o legado dos nossos antepassados ser destruído”, criticou.

Nem a catástrofe do Museu Nacional mobilizou as autoridades para a conservação, lembrou Felipe Farias, presidente do Conselho Regional de Museólogos. Museus estão fechando pela ausência de recursos, incluindo a falta de concursos públicos para a categoria. “Não há como pensar em cultura e bens públicos sem os profissionais que são capazes de conservá-los, de produzir as exposições e incentivar a produção artística”, afirmou.

Para discutir a interiorização das políticas públicas de Cultura, o deputado Eliomar Coelho (Psol), que preside a comissão, anunciou audiências públicas nas regiões do estado, começando pela Baixada Fluminense. Também estiveram na audiência pública os deputados Carlos Minc (PSB), Luiz Paulo (PSDB) e Waldeck Carneiro (PT).