Incêndio na Gamboa: crônica de tragédias anunciadas | Diário do Porto

Editorial

Incêndio na Gamboa: crônica de tragédias anunciadas

Casarões ocupados por 40 famílias na Rua do Livramento são destruídos por incêndio: retrato do abandono da região mais pobre e populosa do Porto Maravilha

28 de março de 2021
Incêndio em casarões da Rua do Livramento: tragédia anunciada


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No lançamento do grandioso projeto do Porto Maravilha, não faltaram expectativas de que os belos e históricos bairros da Zona Portuária seriam valorizados na reurbanização – entendendo-se urbanização como processo indutor da qualidade de vida um determinada área. Os preços dos imóveis foram às alturas, uma quantia inédita de dinheiro foi investida na “maior PPP do Brasil”, mas as obras concentraram-se na faixa litorânea da Baía de Guanabara. Já podia-se notar a ausência da compreensão de que, onde existir a miséria, ela sempre será o maior dos problemas.

O incêndio que destruiu as moradias improvisadas de 40 famílias em três casarões da Gamboa, na noite de sábado, joga luz sobre a visão de quem fechou um dos olhos na hora de desenhar o futuro do Porto Maravilha. A presença do pequeno exército da Secretaria de Assistência Social, liderado por Laura Carneiro, atravessando a madrugada para remediar a tragédia anunciada, era o retrato da desolação: o poder público se mexendo, como quase sempre, depois do leite derramado. Vinte e seis famílias não tinham para onde ir.

 

Laura Carneiro no incêndio
A secretária Laura Carneiro esteve no local até 2h de domingo

 

A falta de moradia não é uma condição exclusiva dos bairros portuários, mas um fenômeno tão espalhado pela cidade que a prefeitura não tem recursos para solucionar. “O governo federal sinalizou com um programa verde-amarelo para substituir o Minha Casa Minha Vida, e precisamos desse apoio. A carência habitacional do Rio é gigantesca, a prefeitura não tem recursos para resolver sozinha”, disse ao DIÁRIO DO PORTO a secretária, que tem se desdobrado na tarefa de cadastrar, em meio à pandemia, mais e mais moradores de rua nascidos e criados na crise econômica.

 


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Os moradores dos cortiços destruídos estão cadastrados para receber moradias que não chegam. É desolador caminhar pela Rua do Livramento e notar que, atrás das belas fachadas de outros séculos, estão famílias amontadas em instalações perigosíssimas nos imóveis invadidos.

 

Casarões da Rua do Livramento
Casarões da Rua do Livramento: sem políticas públicas

 

A Secretaria de Assistência Social mobilizou meio mundo, montou um esquema de recebimento de doações, mas não pode impedir que outros desastres atinjam os imóveis invadidos na Rua do Livramento e os moradores do Morro da Providência. Do grandioso projeto olímpico, a favela só ganhou a estação de um teleférico que consumiu R$ 75 milhões e está enferrujando há 5 anos.

Para se ter uma ideia, o dinheiro investido no teleférico que está virando sucata daria para construir 2.500 casas de R$ 30 mil cada. O Morro da Providência tem 1.465 domicílios, segundo o Instituto Pereira Passos.

O socorro emergencial foi organizado por Laura Carneiro para atender a 26 famílias, que não têm para onde ir e agora engrossam o universo de 7.200 moradores de rua estimados pela Secretaria. Um em cada três está no centro, sobrevivendo das sobras dos escritórios e frequentadores.

Os esforços do secretário de Urbanismo, Washington Fajardo, para estimular a construção de moradias no Centro são elogiáveis, mas para não repetir a miopia da concepção excludente do Porto Maravilha, precisam andar abraçados com a Secretaria de Habitação e todas as outras instâncias da Prefeitura para enxergar quem mais precisa do poder público. Afinal, o combate à miséria, onde quer que esteja, sempre será o maior desafio.