Imunoterapia, a revolução no tratamento do câncer | Diário do Porto


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Imunoterapia, a revolução no tratamento do câncer

A imunoterapia trouxe a transformação radical da abordagem terapêutica de muitas doenças, principalmente o câncer, começando a tirar a quimioterapia de cena

7 de setembro de 2019



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Luciana Medeiros

Luciana MedeirosQuase no final do maravilhoso livro O imperador de todos os males – uma biografia do câncer, o autor – Siddhartha Mukherjee, oncologista – registra a fala do cientista que aplicou no primeiro momento o imunoterápico Glivec, revolucionando o tratamento da leucemia no fim dos anos 1990. O americano Brian Druker, esse pioneiro, “diz, brincando, que conseguiu a perfeita inversão dos objetivos da medicina do câncer: sua droga aumentou a prevalência da doença no mundo”. Pois é, parece um contrassenso – saudar o que multiplicou o câncer. Mas o que o Glivec fez foi garantir a sobrevivência de milhares de pacientes com o câncer de sangue, ou seja, aumentou o número de gente controlando a leucemia. E vivendo BEM.

As palavras-chave são “imunoterapia” e “revolução”. Trata-se, sim, da transformação radical da abordagem terapêutica de muitas doenças, principalmente o câncer. Em diversos casos, começa a sair de cena a tradicional quimioterapia, com medicamentos citotóxicos (cito = célula), ou seja, que destrói células de rápido crescimento, tanto as malignas quanto as saudáveis. Na maioria dos casos, a toxicidade da quimio produz uma devastação no organismo. Mas foi, por muito tempo, o único caminho. Mais ou menos como destruir centenas de árvores para combater um parasita, torcendo para que a floresta seja capaz de se recuperar do ataque.

Imunoterápicos são essa nova classe de drogas. Atuam desativando as “máscaras” que o câncer usa para enganar nosso sistema imunológico. O pulo do gato foi a descoberta de uma substância que se ligava a uma proteína específica da célula neoplásica.

– Estamos vendo a migração da quimioterapia que nasceu no século XX para um tratamento direcionado especificamente às células neoplásicas – explica o hematologista Rodrigo Doyle Portugal, professor da UFRJ e chefe do Serviço de Hematologia da universidade.

 


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Rodrigo chega a usar a imagem de Davi x Golias, evocando a pedra certeira que mata o gigante na batalha. Prognósticos antes muito ruins, de pequena sobrevida à doença, são largamente ultrapassados. Aquela imagem do paciente debilitado pela quimioterapia começa a se desvanecer, substituída pelo controle da doença com alta qualidade de vida.

 

Rodrigo Doyle Portugal
Rodrigo Doyle Portugal

– Os resultados em leucemias e linfomas são impressionantes – continua Rodrigo. – O caso de Emily Whitehead, menina que recebeu as células em 2012, é um dos exemplos: sete anos depois do tratamento, a leucemia está sob controle. A engenharia para constituir as células é fascinante. Destaco aí o desenvolvimento de vacinas anticâncer, os medicamentos que recrutam células do sistema imune para combater a doença e a modificação das próprias células T (a terapia CAR-T Cell).

Sem querer complicar mais: são notícias maravilhosas. Esse tratamento, porém, tem um efeito colateral: o alto custo. Hoje, a terapia CAR-T pode custar quase R$ 2 milhões. O preço de um medicamento imunoterápico como o Ibrutinibe chega a mais de R$ 35 mil por mês.

– Entre os efeitos adversos de novos medicamentos incluímos atualmente a “toxicidade financeira” – prossegue o hematologista. – A terapia com células CAR-T sempre terá um custo importante. Acredito que futuramente se aproximará do custo atual do transplante de medula, que é caro mas não impeditivo.

notícias de que se desenvolvem pesquisas no Brasil, o que melhoraria o panorama. Que esse caminho chegue para todos.