Hector Gusmão: "Temos tudo, mas estamos ficando para trás" | Diário do Porto


Empreendedorismo

Hector Gusmão: “Temos tudo, mas estamos ficando para trás”

CEO da Fábrica de Startups, Hector Gusmão falou sobre oportunidades da economia criativa, e Aline Mendes foi aplaudida ao cobrar um olhar para a Providência

10 de dezembro de 2019

Hector Gusmão, Sávio Neves e Rafael Ponzi

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Em 2012, quando a Fábrica de Startups surgiu em Portugal, o país estava arrasado pela crise financeira e consumido pela dores da integração à Zona do Euro. “Saindo da crise, Portugal criou o melhor ambiente da Europa para a economia criativa”, contou Hector Gusmão, CEO que instalou a filial brasileira no imponente Aqwa Corporate, construído pela Tishman Speyer. Gusmão abriu o 1º Fórum de Soluções para o Porto Maravilha, como palestrante do painel Como empreender na economia criativa.

O jovem executivo citou números grandiosos para ilustrar como o mundo inteiro apostando as fichas na economia da inovação, “enquanto nós estamos ficando para trás, apesar de ter tudo o que precisamos”. Lembrou que houve um grande esforço do ecossistema de inovação para criar a Lei do Porto 21 e um hub de tecnologia na região portuária, mas que nada foi para a frente. E não é por falta de oportunidades, já que o dinheiro nunca foi tão ávido na procura por boas ideias.

“Em 2004, a gente contava nos dedos quantas startups chegavam a 1 bilhão de dólares no mundo. Hoje, é impossível contar. Este ano, saímos de zero para 10 startups de 1 bilhão aqui. Em 2017, assumimos a condição de cidade mais inovadora do pais em função da nossa diversidade, mas somos apenas a 6° melhor para empreender no Brasil e uma das piores em cultura empreendedora, ou seja, pessoas que vejam valor e queiram empreender”, lamentou o CEO.

Gusmão ressaltou a iniciativa da Fábrica de apoiar a Escola 42, francesa, que forma gratuitamente mão de obra para tecnologia: 450 jovens serão graduados por ano. É o melhor caminho para o futuro, e nenhum lugar do país está mais equipado para hospedar essa revolução do que o Porto Maravilha.

Hector Gusmão, CEO da Fábrica de Startups, em balanço feito de orelhão
Hector Gusmão no ambiente disruptivo da Fábrica de Startups

Foi no Porto Maravilha que Hector Gusmão enxergou as condições para repetir o sucesso de áreas renascidas em metrópoles como Nova York (Brooklin e Harlem), Leste de Londres, Paris e Cidade do Cabo. Em um andar inteiro do Aqwa Corporate, com decoração desinibida e disruptiva, a Fábrica conecta mentes criativas à demanda de empresas gigantes. No primeiro ano, recebeu 2 mil empreendedores e 500 startups inscritas, e trabalha com 190 startups, fazendo negócios com 28 grandes empresas.

A violência é o inimigo

O empresário Sávio Neves, que ajudou a trazer a roda gigante Rio Star para a vizinhança do Aqwa, definiu como “sopro de esperança” o recado de Hector Gusmão. Presidente do Trem do Corcovado, Neves enumerou alguns obstáculos para que o Rio dê o salto que cidades como a chinesa Shenzhen já deram. “Nós não conseguimos nem mesmo ligar por água os aeroportos do Galeão e Santos Dumont, algo que só depende de decisão política!”, exemplificou. Muitos viajantes e empresas, segundo o empresário de turismo, evitam o Aeroporto Internacional Galeão Tom Jobim com medo dos engarrafamentos e da violência na Linha Vermelha. A falta de segurança é, na opinião de Sávio Neves, o maior inimigo da economia criativa no Rio.

A insegurança púbica e as cicatrizes que ela deixa na cidade foram abordadas também por Aline Mendes, que representou a ONG Impacto das Cores. O projeto consiste em reaproveitar sobras da construção civil, especialmente tintas, para produzir arte no Morro da Providência e em outros locais para onde já foi exportado. Aline foi aplaudida ao cobrar ações efetivas para incorporar a população da primeira favela do país à economia movimentada pelos grandes equipamentos públicos, especialmente a Central do Brasil, por onde passam 700 mil pessoas por dia.

‘A onda leva quem só olha para o mar’

Aline Mendes fala no Fórum
Aline Mendes: de olho na economia da Central do Brasil

Aline inundou o Fórum de indagações que fazem todo o sentido em uma região que tem tudo para ser um polo nacional de economia criativa. Por que a experiência da Fábrica Bhering não extrapola a bolha e transforma o Morro do Pinto, com suas belas casas preservadas, em uma nova Santa Teresa, com arte e cultura? Por que os investidores do turismo não exploram a visão 360 graus do Morro da Providência? Por que o teleférico da Providência segue parado, deixando de ligar a comunidade à Cidade do Samba e a incrível economia do Carnaval?


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“Todo mundo aqui sabe da importância do carnaval do Rio, independentemente da opinião do prefeito. Com prefeito ou sem prefeito, o carnaval do Rio vai sempre acontecer com sucesso”, provocou a debatedora. “Todos temos que saber enxergar o potencial verdadeiro do Porto. O Bar da Jura, na Providência, já recebeu a prefeita de Nova York, o fundador do Youtube, várias personalidades mundiais, e por que vocês não vão lá? Pelo amor de Deus, vamos parar de ficar olhando para o mar o tempo todo. Desse jeito, a onda leva. Eu tenho um olho grande no dinheiro que circula na Central do Brasil, e vocês deveriam ter também”, brincou a artista.

Fortalecer o ecossistema do empreendedorismo

O empresário Rafael Barreto falou sobre a experiência inovadora da Fábrica Bhering, citada por Aline. É uma iniciativa de sucesso em produção artística que tem convivido em sintonia com a vizinhança. O condomínio de ateliês quer comemorar em grande estilo seus 15 anos em 2020. Barreto manifestou o desejo de espalhar o sucesso da Bhering para toda a região portuária, aproveitando a boa infraestrutura. “Em termos de logística não temos nada igual no Rio de Janeiro”, ressalta, ressaltando, como muitos outros debatedores fizeram, a necessidade de mais lojas, restaurantes e moradias de qualidade.

O primeiro painel foi mediado por Rafael Ponzi, dirigente do Clube Empreendedor, parceiro do DIÁRIO DO PORTO na realização do 1º Fórum de Soluções para o Porto Maravilha. “Nossa missão é estimular o surgimento de empreendedores e criar um ambiente de troca de experiências e de fortalecimento desse ecossistema”, disse Ponzi.


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