'Quem faz a roda do turismo girar é a iniciativa privada' | Diário do Porto

Turismo

‘Quem faz a roda do turismo girar é a iniciativa privada’

Secretário de Turismo do RJ, Gustavo Tutuca fala sobre os planos para atrair paulistas e mineiros, a volta dos eventos, segurança e concessões de rodovias

4 de março de 2021
Secretário de Turismo, Gustavo Tutuca, aposta no turismo de proximidade no RJ (Fotos Juliana Reis)


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O ritmo dele é frenético e não desacelera nem na pandemia. Aos 41 anos, o secretário de Turismo do Estado do Rio de Janeiro, Gustavo Tutuca, não deixa espaço vazio quando o assunto é turismo, uma paixão. Nem é do tipo que foge de temas espinhosos que, em tese, não pertencem à sua pasta, como segurança, ordem pública e concessões de rodovias. Em entrevista ao editor Aziz Filho, Tutuca arriscou até previsão para a volta de grandes eventos. Falou sobre a “recuperação turística de Copacabana”, a insegurança na Linha Vermelha e nas rodovias, a valorização do RIOGaleão e, principalmente, a aposta no “turismo de proximidade”, que no mundo todo ganhou força com o novo normal sinalizado pela pandemia. A ideia é mostrar aos paulistas e mineiros que “o Rio de Janeiro continua lindo e perto”.

A entrevista foi no terraço do Hotel Fairmont, onde nesta sexta-feira 5 haverá o segundo encontro do grupo Coalizão Rio, que reúne autoridades e empresários para destravar projetos de desenvolvimento do Rio de Janeiro. O Coalizão Rio é apoiado pelo DIÁRIO DO PORTO. No encontro, o secretário de Transporte, Delmo Pinho, falará sobre os projetos de concessão de rodovias no estado, mas Tutuca dá alguns spoilers sobre a Dutra, a Rio-Teresópolis e a Via Lagos. Revela também quais são as três cidades turísticas do Estado que mais gosta de visitar. Para ver a entrevista no youtube, clique aqui.

 

DIÁRIO DO PORTO: Para estimular o turismo de proximidade, o sr. tem um plano de divulgar o Rio em SP, BH e Brasília. Qual será a mensagem da campanha, se a pandemia acabou com atrações como Carnaval, praias e festas?

Gustavo Tutuca: Nós criamos um planejamento entendendo o momento que a gente passa por conta da pandemia. O turista tem procurado destinos mais próximos a sua casa, viajar com a família, de carro. Isso ajudou muito o turismo do Rio de Janeiro, com os moradores da capital indo até o nosso interior. Foi muito importante, apesar de toda dificuldade. Com a chegada da vacina, as coisas tendem a melhorar, mas muitos destinos internacionais ainda estarão fechados para o Brasil, e também com a alta do dólar a viagem vai ficar mais cara.

Por isso esse programa, com ampla divulgação do destino Rio de Janeiro, não só capital, mas todo o Estado, com foco nos turistas de São Paulo, Minas Gerais e Brasília. A nossa expectativa é que, a partir de outubro, se tudo correr bem com a vacinação, os grande eventos voltem a acontecer por aqui. Até lá, nós temos as belezas naturais da cidade, um ecoturismo muito forte, que são grandes atrativos para o turista. É nessa linha que nós vamos seguir, “O Rio de Janeiro continua lindo e perto”.

 

Recuperação de Copacabana

 

DIÁRIO:O plano também está previsto uma ‘recuperação turística’ de Copacabana. O sr. poderia detalhar um pouco como será feita essa intervenção para melhorar o bairro, que passou tanto tempo abandonado?

Tutuca: É preciso integrar as políticas públicas entre Governo do Estado, Governo Federal e do município para promover o nosso turismo, cuidar do ordenamento urbano e da segurança pública. Já tivemos diversas conversas com a Prefeitura para ações conjuntas de acolhimento da população de rua, conservação, não só de Copacabana, mas da Zona Sul como um todo, nosso maior cartão-postal.

O governo estadual também lançou melhorias no Programa Segurança Presente. O governo federal quer lançar um programa de segurança turística para o país, e o case para esse programa será o Rio de Janeiro.

É preciso integrar as políticas públicas entre Governo do Estado, Governo Federal e do município para promover o nosso turismo, cuidar do ordenamento urbano e da segurança pública

DIÁRIO:Quando falamos em insegurança para turista, logo se pensa na Linha Vermelha e na Linha Amarela. Existe um plano de segurança integrada para essas áreas, pensando no turismo?

Tutuca:Sim. Por conta do turismo de proximidade, muitos cariocas estão procurando destinos no interior, e a Polícia Militar tem atuado com a operação Viagem Segura, de sexta a segunda, onde a segurança é ampliada nessas vias de saída do Rio de Janeiro. As linhas Vermelha, Amarela e a Avenida Brasil também são rotas para quem procura Região Serrana e Região dos Lagos. Na BR-101, apesar de ser uma segurança feita pela Polícia Rodoviária Federal, a Polícia Militar procura atuar nas vias locais. Isso já vem acontecendo nos últimos meses, e a gente pretende entregar um programa específico para essas vias, fundamental para a sobrevivência no RIOgaleão.

 


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DIÁRIO: Falando em rodovias, há muito relatos de ação de bandidos que passam medo, insegurança na subida da Serra, na Amaral Peixoto. Viajar pelo interior parece ter ficado mais complicado. A sensação de segurança está muito ruim. O que pode ser feito?

Tutuca: Queria falar dessa sensação de segurança porque os índices de violência nas rodovias têm caído muito. Só que a sensação de segurança, às vezes, não é a mesma que os índices têm demostrado. A gente precisa ir além do trabalho que as forças de segurança têm feito para melhorar esse número e comunicar ao cidadão essa melhoria, para efetivar essa saída do turismo de carro.

 

Concessões de rodovias

 

DIÁRIO:As rodovias têm outro problema, o de saturação, engarrafamentos que desanimam o viajante. No encontro do grupo Coalizão Rio, nesta sexta-feira 5, o secretário de transportes, Delmo Pinho, falará sobre novas concessões. Existe ambiente de negócios, clima para investimentos, para se falar de concessão e abrir espaços de mobilidade no estado?

 

Gustavo Tutuca

O RJ será o ‘case’ do plano de turismo seguro do Governo Federal, adianta Gustavo Tutuca

Tutuca:Para a gente do turismo, como para toda a economia do Rio de Janeiro, o programa de concessão que o Governo Federal está conduzindo é fundamental. As concessões sofrerão uma grande mudança. A nova concessão da BR-040, que liga Petrópolis, Itaipava, até Três Rios e chega a Juiz de Fora, será estendida até Belo Horizonte. A concessionária atual está saindo, e será preciso fazer uma licitação para aquele trecho. Isso é um ponto importante. Ali tem um imbróglio, inclusive jurídico, para a gente acompanhar de perto.

Outro problema é a BR-101 (Rio-Santos), que cobre toda a Costa Verde do Rio de Janeiro. É uma rodovia antiga, com traçado antigo, com má conservação. A solução é a seguinte: a nova concessão da Rodovia Presidente Dutra vai englobar a Rio-Santos, para dar viabilidade econômica. Hoje, a Dutra termina na Avenida Brasil, mas com a nova concessão vai terminar em Seropédica, onde hoje tem o pedágio. E a concessão de Seropédica à marginal Tietê, será junto com Rio-Santos.

Essas mudanças já devem ocorrer na próxima licitação. As obras prioritárias são na Rio-Santos, principalmente na duplicação dos túneis de Mangaratiba, grande causador de engarrafamento naquela região. Primeira obra prevista dessa nova concessão.

DIÁRIO: Qual é o objetivo de conceder duas rodovias juntas?

Tutuca:É para ter viabilidade econômica. A Rio-Santos por si só não se sustenta. É preciso uma rodovia com mais tráfego, que é a Dutra, Seropédica-São Paulo. Essa é a solução dada, e a gente espera ainda esse ano concluir esse processo de nova concessão.

E a outra concessão vai englobar o Arco Metropolitano, fundamental para o escoamento tanto econômico tanto turístico, ao trecho Rio-Teresópolis. São concessões que contemplam toda a região turística do Estado. E ainda tem o debate da Via Lagos, criar uma nova concessão ou estender a atual para cobrir toda aquela extensão até Búzios e outros municípios.

DIÁRIO: Tomara que não aumente o preço do pedágio, pois a tarifa ali é salgada.

Tutuca: Pelo contrário, o desenho proposto é para reduzir esse pedágio. Acho que o Delmo Pinho (secretário de Transporte) vai poder explicar com muita propriedade, é especialista no assunto, mas é muito importante para o turismo que essas concessões saiam do papel para dar suporte ao turismo de proximidade. Não só para o turista regional, mas para o internacional que vem para o Rio e procura um ponto turístico a três, quatro horas de carro. Vai facilitar muito.

Gustavo Tutuca
Para Gustavo Tutuca, valorizar o RIOGaleão é fundamental para a economia do Rio

 

 

Competitividade no turismo

 

DIÁRIO: A Secretaria tem um programa Turismo +10 anos, para aumentar a competitividade no setor. O senhor acha que os players privados do Turismo, os donos de hotéis, restaurantes, agências de turismo, estão preparados? O Rio de Janeiro tem um setor privado competitivo ou faltam investimentos, gestão e inovação?

Tutuca:Nós temos um setor privado muito competitivo. A gente vê as últimas intervenções de construções de equipamentos, como exemplo o AquaRio, roda-gigante e a própria renovação do Bondinho do Corcovado, são investimentos privados que têm dado sustentação para o turismo do Rio de Janeiro. O que a gente precisa enquanto poder público é integrar essas ações.

Nós conversamos muito com municípios que ainda não têm noção do quanto a iniciativa privada é importante, acham que a Prefeitura tem que fazer tudo, e não é isso. A Prefeitura tem que ser indutora, tem que criar as condições para a cidade receber o turismo e incentivar condições para a iniciativa privada atuar. Mas quem de verdade faz a roda girar do turismo é a iniciativa privada, são os hotéis, restaurantes, donos de bares e equipamentos turísticos. Preciso ressaltar, também, o apoio de instituições como a Fecomércio-RJ, que tem dado todo o suporte para o Rio de Janeiro no desenvolvimento do turismo. Isso é fundamental no nosso trabalho.

Quem de verdade faz a roda girar do turismo é a iniciativa privada, são os hotéis, restaurantes, donos de bares e equipamentos turísticos

DIÁRIO: A movimentação de grupos como o Coalizão Rio, que reúne empresários e autoridades para buscar soluções para o desenvolvimento do estado, tem força para ajudar o Rio de Janeiro a sair da crise?

Tutuca:Tenho certeza disso. O Coalizão busca soluções para diversas áreas, com pessoas de dentro e fora da política, empresários, sociedade organizada, deixando a questão partidária ou ideológica de lado. Ações como essa, juntando boas cabeças, ideias, e trocando informações de pessoas dispostas a ajudar, são fundamentais.

O secretário Delmo Pinho e eu participamos de uma live com o Luis Leão, do Clube Empreendedor, falando sobre o problema do RIOgaleão, uma discussão que a gente precisa trazer mais à tona no Rio. Temos levado esse assunto ao governador Claudio Castro e ao Governo Federal. O turismo e a economia do Rio de Janeiro, para serem fortes, dependem do Aeroporto Internacional. É uma iniciativa que tratamos no grupo Coalizão, e sou um entusiasta dessa iniciativa. Vou estar sempre disposto a participar dessas iniciativas.

 

Turismo de negócios

 

DIÁRIO:Muita gente diz que as belezas naturais do Rio, que são incomparáveis, acabam prejudicando o esforço em busca da inovação no turismo, assim como a dependência do petróleo acomodou nossas forças produtivas. O turismo de natureza acaba sendo afetado pela poluição, os descuidos. O Rio deveria ter investido no turismo de negócios, compras, convenções e congressos, como São Paulo?

Tutuca: Acho que tudo na vida, quando a gente tem facilidade, gera acomodação. Mas temos feito um trabalho muito forte na atração de eventos. O subsecretário Marcelo Monfort está fazendo um trabalho de captação de eventos nacionais e internacionais, criando também um calendário de eventos no interior do estado.

Organizar e programar todo o setor de turismo para ter produtos para serem vendidos junto com essas feiras e eventos que acontecem no interior é uma vocação do Rio de Janeiro. Por outro lado, as belezas naturais são atrativos para trazer o turismo de negócios. Qual empresário não quer fazer uma convenção da sua empresa numa paisagem como essa que a gente vê daqui (Hotel Fairmont)? Isso facilita atrair clientes, o lazer. A gente tem que aproveitar esse presente da natureza para atrair turismo de negócios, que dá mais estabilidade para o setor. Temos incentivado isso.

DIÁRIO: Qual o lugar você mais gosta de visitar a passeio no Rio de Janeiro?

Tutuca:Eu gostaria de citar três lugares: Búzios, uma cidade que eu e minha esposa gostamos muito, temos muita paixão. Paraty, pela história e ligação cultural com a cidade. E, na Região Serrana, gosto muito de Visconde de Mauá, um carinho muito especial por aquele lugar.