Governo gasta R$ 17 bilhões a mais com termelétricas | Diário do Porto


Energia

Governo gasta R$ 17 bilhões a mais com termelétricas

Especialistas apontam que o país poderia economizar R$ 17 bi com boa gestão de energia. Mas a insistência com termelétricas pesa no bolso do consumidor

22 de outubro de 2021

Usina termelétrica do Porto do Açu (foto: Divulgação)

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A Conferência das Partes (COP) começa dia 31 em um cenário de escassez e preço alto de energia que ameaça a retomada da economia mundial. No Brasil, a crise energética é agravada por planejamentos que ignoram as mudanças climáticas. Um estudo apresentado durante mesa redonda com especialistas do setor, no Instituto Clima e Sociedade (iCS), aponta que o governo gasta R$ 17 bilhões a mais para acionamento das usinas termelétricas (mais caras e necessárias para suprir a demanda).

Esse “seguro contra a seca” teria custado R$ 20 bilhões. Como não foi feito, os reservatórios chegaram ao menor nível em 90 anos, e o governo, agora, tem de gastar R$ 37 bilhões para acionar todas as térmicas, inclusive as mais caras, a diesel. Os cálculos são do engenheiro Donato Filho, diretor da Volt Robotics e professor de pós-graduação da USP em Modelagem Computacional e Sistemas Inteligentes. A apresentação do estudo contou com a participação o do matemático Sérgio Margulis e do engenheiro Luiz Eduardo Barata, ex-diretor do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), entre outros especialistas convidados pelo iCS.

Gasto com termelétricas poderia ser evitado

O estudo mostra também que a conta poderia ser ainda menor caso o governo tivesse investido antes na ampliação da geração solar e eólica. Essas fontes renováveis teriam evitado o esvaziamento dos reservatórios, cumprindo a mesma função que as térmicas, só que a um custo muito menor e sem aumentar as emissões. Um investimento anual de R$ 10,7 bilhões, metade do valor gasto com as térmicas, seria o melhor “seguro contra a seca” disponível.

“Em vez disso, leis e emendas obrigam a contratar térmicas, um malabarismo para passar o custo da energia suja ao consumidor. É uma espiral da morte: aumentamos as emissões de CO2, que aceleram as mudanças climáticas. As térmicas deveriam ser a última opção, mas se tornaram prioridade nas emendas do Congresso à MP de privatização da Eletrobrás, com o consumidor sendo forçado a comprá-las a preços altos”, critica Donato.

Donato da Silva Filho, diretor-geral da Volt Robotics

Sérgio Margulis reforça que o planejamento não pode mais ignorar as mudanças climáticas: “As secas não são mais eventos extraordinários, são para sempre e cada vez mais frequentes e intensas. O setor agrícola também vai ter que se adaptar a mais temperatura e menos chuva, todos temos de conviver com o novo normal.”

“O fator fundamental desta grande crise é que o planejamento não considera as mudanças climáticas. Quem paga é o contribuinte, e isso impacta toda a economia”, complementa a diretora programática do iCS, Teresa Liporace. Ela lembra que, às vésperas da COP, o Brasil dá uma “pedalada” em sua própria vantagem competitiva, adotando ações poluentes quando deveria mitigar riscos climáticos.


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Setor elétrico trabalha sem previsibilidade

“A quem interessa adotar medidas de curto prazo que vão ter impactos a longo prazo para todos?” O ex-ministro José Goldemberg, que presidiu quatro estatais do setor elétrico, comparou a atitude do governo em não evitar o esvaziamento dos reservatórios à de quem não faz seguro do carro. “Se você paga o seguro, vê que é muito menos do que o prejuízo de perder o carro. Não fazer seguro contra a incerteza tão grande de chuvas é um absurdo.”

Ex-diretor do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e ex-secretário-executivo do Ministério das Minas e Energia, Luiz Eduardo Barata lembra que o problema das mudanças climáticas é mundial, mas o Brasil procura agravá-lo ao contratar fontes poluentes em vez de se adequar à realidade. “O problema não é divino, é da natureza. Começa com crise climática, se transfere para a hídrica e, no Brasil, vira crise elétrica. O caminho é quebrar o paradigma e viabilizar a contratação em grande escala das renováveis, mas insistimos em negar o que o mundo nos apresenta”, disse o engenheiro.

Muitos estudos, segundo Barata, demonstram que o Brasil pode recuperar os reservatórios, tirando-os da situação crítica, com energias renováveis. “O esquema que vivemos desde o início do sistema, década de 50, não serve mais, e o uso das renováveis no período seco permitiria manter as hidrelétricas em condições de modular a carga elétrica o ano todo, sem esvaziar os reservatórios”. Donato reitera que o Brasil precisa observar como as mudanças climáticas estão alterando decisões governamentais pelo mundo. “O governo da China, um país comunista, está falando em adotar preço de mercado para a energia, para as pessoas sentirem o que estão gastando. E nós estamos com tarifa fixa”, compara.



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