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Gêmeos na literatura: quando as aparências enganam …

Coluna de Olga de Mello é dedicada a histórias que exploram personagens gêmeos, que na literatura rendem muitas digressões sobre o indivíduo e seu duplo

19 de junho de 2021


Estátua de Caim, de Henri Vidal, no Jardim das Tuileries, Paris


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Olga de Mello

Olga de Mello

Gêmeos univitelinos, aqueles que aqui chamamos de “perfeitos”, assustam, desde a época em que eram concebidos naturalmente, sem reprodução assistida. E essa impressão de estranheza, experimentada no mundo real, usada no cinema tanto para encantar (os endiabrados gêmeos da série Harry Potter) quanto assombrar (as meninas gêmeas de O iluminado), na literatura rende muitas digressões sobre o indivíduo e seu duplo. A rivalidade entre irmãos, levantada nos primeiros capítulos da Bíblia, não é questionada por boa parte dos gêmeos, que se misturam, na literatura, como facetas de um único ser, antagônicos porém vivendo na completude.

É assim que se definem as irmãs Gamal, em De duas, uma (Todavia, R$ 32,90), do mexicano Daniel Sada. Gêmeas idênticas, órfãs na infância, ninguém consegue distinguir as duas, que se comprazem com a confusão que provocam. Entre os que não conseguem identificá-las está o namorado, que compartilham, num vilarejo no interior do México. Já a simbiose é desfeita radicalmente por gêmeos separados desde o nascimento, como o rei Luís XIV da França e seu irmão Phillipe, encarcerado para evitar disputas pelo trono, em O homem da máscara de ferro, que Alexandre Dumas incluiu em O visconde de Bragelonne, último volume da trilogia Os três mosqueteiros, com as aventuras de D’Artagnan, Porthos, Athos e Aramis.

Sem tanta dramaticidade quanto os conflitos políticos tratados por Dumas, a americana Brit Bennet discute o rompimento entre duas irmãs – tão iguais, mas tão diferentes – em A metade perdida (Intrínseca, R$ 43,90). De início, a unidade das gêmeas Desirée e Stella Vignes é harmônica como a de Bibiana e Belonísia em Torto Arado (Todavia, R$ 38,90), de Itamar Vieira Junior. Uma serve de contraponto e complemento a tudo o que a outra é. Também como Bibiana e Belonísia, Desirée e Stella, buscam caminhos próprios, solitários.

As semelhanças entre A metade perdida – o título original, ‘A metade desaparecida’, esclarece melhor a trama – e Torto Arado estão também nas comunidades onde crescem as gêmeas. São povoados distantes dos centros urbanos, ignorados por populações continentais de países com grandes espaços territoriais. Bibiana e Belonísia vivem no sertão da Chapada Diamantina, dentro de uma comunidade pobre e mística. Uma quer manter as tradições locais, a outra, depois de conhecer o mundo “lá fora”, volta para a terra onde ficou a irmã, disposta a mudar a situação social de desigualdade e trabalho semiescravo a que todos se submetem.

 


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Já as americanas Desirée e Stella se veem premidas não apenas pelas condições sociais, mas por um racismo quase institucionalizado. Crescem num povoado de negros que, a cada geração, “embranquecem” mais, devido a miscigenações ancestrais. O tom de pele claro, que “passa por branco” é valorizado pelo grupo, que, no entanto, continua desempenhando funções servis, sem concretizar os sonhos de ascensão social pelo estudo. Um dia, as meninas descobrem que terão de trabalhar como faxineiras na cidadezinha “branca” mais próxima. É quando decidem fugir para Nova Orleans, onde Desirée se casa com um negro e Stella com um branco, que desconhece sua origem.

Maltratada pelo marido, Desirée volta para a cidade natal com a filha, a criança de pele mais escura que o povoado já viu. Já Stella, integrada à classe média alta californiana, se apavora com a chegada de uma família negra à vizinhança, temendo que instintivamente eles descubram seu passado. Enquanto as gêmeas brasileiras não se escondem sob identidades falsas para modificar o presente, às americanas não resta alternativa: elas precisam se reconstruir longe de casa, mas jamais questionar as regras da sociedade em que escolheram viver.

A linguagem altamente sonora de Torto arado, o cuidado na escolha de oralidade quase poética é tão importante na composição quanto sua trama enxuta, cuidadosa e precisa que o transformou no livro mais comentado ao longo de 2019/2020, quando ganhou o Jabuti e o Oceanos, na categoria de melhor romance. A metade perdida passa por leitura de entretenimento fácil. Não é. A cada página, a pressão social aflora para esmagar o leitor.