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Os feitiços das filhas de Eva e o grande livro da misoginia

Olga de Mello apresenta obra que se tornou o pilar do cultivo à misoginia, mas dá também a dica de dois livros que fustigam os preconceitos contra a mulher

21 de setembro de 2020
A misoginia tem um de seus pilares nas ideias medievais de bruxaria 9

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Olga de Mello

Olga de Mello

Junto com o racismo, a misoginia permanece como um dos preconceitos mais arraigados em quase todas as sociedades do planeta. A nova edição brasileira de Malleus Maleficarum – O martelo das feiticeiras (Rosa dos Tempos, R$ 74,90), o manual que os padres dominicanos Heinrich Kramer e James Sprenger conceberam em 1450 para nortear os processos contra acusados de bruxaria, traz os pilares desse cultivo da misoginia.

A perseguição aos pecadores pela Inquisição, iniciada pela Igreja Católica Romana na Idade Média, teve como principais vítimas as mulheres e quem não seguia o catolicismo, notadamente os judeus. Professores de teologia, ambos foram inquisidores atuantes, os alemães Kramer e Sprenger foram incumbidos pelo papa Inocêncio VIII de redigir uma normatização processual para os casos de bruxaria – que vigoraria como Bíblia da Inquisição durante três séculos e seria usado até por líderes protestantes.

 

Livro O Martelo das Feiticeiras

Embora popularíssimo, o Malleus Maleficarum foi rejeitado pela Cúria Romana, que o incluiu, em 1490, no Index, a lista dos livros de leitura proibida pela Igreja. No entanto, edições clandestinas em países que já dominavam a reprodução impressa ajudaram a difundir a tese de que a mulher é um ser instintivamente pecador, pronto a seduzir o homem para que incorra no pecado.

No prefácio da primeira edição do livro no Brasil, Rose Marie Muraro, fundadora da Rosa dos Tempos, primeira casa editorial voltada para o feminismo no país, recorda a histórica rejeição às mulheres a partir dos primeiros assentamentos de hominídeos. “Se nas culturas de coleta as mulheres eram quase sagradas” por sua fertilidade e “estimuladoras da fecundidade da natureza”, na sociedade sedentária, “por sua capacidade orgástica”, tornam-se “as causadoras de todos os flagelos a essa mesma natureza”, diz a escritora.

A intensificação da perseguição às bruxas ao longo de quatro séculos, de acordo com Rose Marie Muraro, foi uma estratégia bem planejada das classes dominantes para a centralização do poder e a estruturação do patriarcado. Embora não haja um número fechado quanto aos acusados de prática de bruxaria, estudos apontam que 85% desses réus eram mulheres. Em das aldeias da região alemã hoje conhecida como Colônia, em 1485, restaram apenas quatro mulheres moradoras, depois de um processo de bruxaria.

 


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Além de instruções sobre métodos de tortura para obter confissões de delitos, o guia assinado pelos dois dominicanos atribui às mulheres a maioria dos males que podem afetar os homens, incluindo a impotência. São elas que se relacionam sexualmente com o demônio e, assim, espalham o mal e destroem o cristianismo, principalmente as solteiras, viúvas, pobres e idosas. O manual, diz Rose Marie Muraro, normatizou o comportamento de homens e mulheres europeus, tanto no âmbito público quanto no particular.

Livro A vida mentirosa dos adultos

Seis séculos depois de lançado o Malleus Maleficarum, o feminismo e a igualdade entre os sexos ainda são invocados como argumentos para a dissolução social por políticos conservadores. A contestação à submissão pelas mulheres é um dos temas
da escritora Elena Ferrante, cujo último romance, A vida mentirosa dos adultos (Intrínseca, R$ 43,90), discute essa questão através de personagens multifacetados – e pouco simpáticos – na Nápoles do fim do século XX.

A narradora, a adolescente Giovanna, aos doze anos, ouve o pai compará-la a uma tia que a menina não conhece pessoalmente. Ao decidir encontrar a tia, a menina se depara com um novo universo, que pode incorporar a seu cotidiano de classe média alta, descobrindo o quanto a verdade é camuflada em diferentes fases da existência. Nascida no meio intelectualizado, Giovanna é levada a romper com a proteção da família e a admiração apaixonada pelos pais para buscar seu próprio crescimento.

 

Livro A amiga genial

 

Depois da tetralogia iniciada por A amiga genial (Biblioteca Azul, R$ 119 – os quatro volumes), dificilmente Elena Ferrante oferecerá outros retratos tão profundos e arrebatadores sobre a individualidade feminina. Mesmo assim, seu estilo continua hipnotizando os leitores. É praticamente impossível largar as 450 páginas do volume antes da conclusão da saga de Giovanna. Em outras épocas, poderia ser processada por feitiçaria.