Exu abriu os caminhos da Grande Rio, campeã 2022 | Diário do Porto


Carnaval 2022

Exu abriu os caminhos da Grande Rio, campeã 2022

Contra a intolerância, Grande Rio canta Exu e conquista sua primeira vitória. Veja o resultado e conheça um pouco da história da escola de Duque de Caxias

26 de abril de 2022

Integrante da comissão de frente da Grande Rio interpreta o orixá Exu (Gabriel Monteiro/Riotur)

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Quem desconhece as religiões de matriz africana costuma associar a figura de Exu ao mal, a desarmonia e ao caos. Mas quem estuda ou é adepto do candomblé e umbanda sabe que isso não passa de maldade ou desconhecimento. Isso quando não são as duas coisas juntas. Com o enredo “Fala Majeté! Sete Chaves de Exu”, a Grande Rio, de Duque de Caxias, desmistificou o personagem, mostrou o “mais humano” dos orixás e conquistou sua primeira vitória entre as grandes escolas de samba do Rio de Janeiro.

A segunda colocada também é da Baixada Fluminense, a Beija-Flor de Nilópolis. A terceira tampouco é da capital, mas de Niterói: a Unidos do Viradouro, campeã de 2020. Ficou assim a pontuação das escolas do Carnaval 2022:

  1. Acadêmicos do Grande Rio – 269,9 pontos
  2. Beija-Flor de Nilópolis – 269,6
  3. Unidos do Viradouro – 269,5
  4. Unidos de Vila Isabel – 269,3
  5. Portela – 269,2
  6. Acadêmicos do Salgueiro – 268,3
  7. Estação Primeira de Mangueira – 268,2
  8. Mocidade Independente de Padre Miguel – 268,2
  9. Unidos da Tijuca – 267,9
  10. Imperatriz Leopoldinense – 266,9
  11. Paraíso do Tuiuti – 266,4
  12. São Clemente – 263,7

As São Clemente não desfilará no Grupo Especial no ano que vem, pois foi rebaixada para a Série Ouro. Seu lugar entre as grandes será ocupado pela Império Serrano, que foi a campeã da Série Ouro com enredo sobre o capoeirista Besouro Mangangá.

Grande Rio vice em 2020

No Carnaval de 2020, a escola de Caxias já havia mostrado que não está de passagem. Foi vice-campeã, com a mesma pontuação da campeã Viradouro, mas perdeu o título no desempate no critério “evolução” a escola da Baixada parte em busca de seu primeiro caneco no Grupo Especial. A agremiação acumula quatro vices nos anos de 2006, 2007, 2010 e 2020.

O enredo exaltação à Exu teve a assinatura dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora e foi dividido em sete passagens, ou chaves, como exemplifica a sinopse. “Engana-se quem associa Exu a coisas pesadas, sombrias e maléficas. Ao contrário, ele é uma entidade complexa, cheia de variações e a mais parecida com o homem. Está associado ao carnaval, às festas, às artes e até ao lixo. Não o lixo material, mas o lixo de valores, o resto da sociedade que ninguém quer, que está à margem. disse Bora.

Paola Oliveira, rainha de bateria da Grande Rio
Paola Oliveira foi a rainha de bateria da Grande Rio (Gabriel Monteiro/Riotur)

A citação ao lixo não é por acaso.  No enredo, foi elemento de ligação com a cidade berço da escola, Duque de Caxias, que por décadas abrigou o maior aterro sanitário da América Latina no bairro de Gramacho. O lixão foi representado na figura da catadora Estamira, personagem simbólica do aterro que inspirou o roteiro de uma peça de teatro e de um premiado documentário de cinema.

A letra do samba-enredo teve compositor com sangue de linhagem nobre. Um dos autores é Arlindinho Cruz, filho de Arlindo, que há anos luta contra as sequelas causadas por um AVC. Arlindinho dedicou a vitória na disputa interna na Tricolor de Caxias ao pai, historicamente ligado ao Império Serrano, tradicionalíssima escola de Madureira que em 2022 vai disputar a Série Ouro, o grupo de acesso do Carnaval do Rio. Assinam o samba com ele Gustavo Clarão, Fragga, Claudio Mattos, Thiago Meiners e Igor Leal.

Com Exu na alma e Caxias e a Baixada no coração, a Grande Rio cumpriu a promessa de fazer a Sapucaí tremer.


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Primeiros passos em 1988

Em 1988, foi fundado o G.R.E.S. Acadêmicos de Duque de Caxias. Para que a agremiação fosse filiada à Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro, teria que ser oriunda de um bloco carnavalesco. Para tal, surgiu o G.R.B.C. Lambe Copo, no bairro Prainha. Assim foram os primeiros passos da escola de samba Grande Rio.

Milton Abreu do Nascimento, conhecido como Milton Perácio, foi eleito presidente, mas precisava de um patrono e um presidente de honra que tivesse influência para ajudar ou mesmo financiar o Carnaval da escola. O convite foi aceito por Jayder Soares da Silva, que passou a ser o presidente de honra. O então deputado Messias Soares virou o patrono.

Jayder Soares sugeriu que se fizesse a fusão das agremiações em uma escola, que em 22 de setembro de 1988 passou a ser chamar Acadêmicos do Grande Rio. A escola de Caxias estreou na elite do samba carioca em 1991, mas retornou para o grupo de acesso já no ano seguinte.

Mestre sala e porta bandeira da Grande Rio
Casal de mestre-sala e porta-bandeira da Grande Rio na cor do orixá (Tata Barreto/Riotur)

Com o enredo “Águas claras para um Rei Negro”, veio o título da Série A. Desde então, a Grande Rio só cresceu entre as agremiações que disputam a primeira divisão do carnaval do Rio. Em 2003, já sob a batuta do lendário carnavalesco Joãosinho Trinta, a escola conseguiu chegar ao pódio da disputa, ocupando a terceira colocação do grupo especial. Nesse ano, o enredo “O nosso Brasil que vale”, teve grande repercussão.

Nos oito anos seguintes, a Grande Rio foi sucesso absoluto. Somente uma vez nesse período, a escola não voltou para desfilar no sábado das Campeãs, sendo segunda colocada em três oportunidades, 2006, 2007 e 2010. Em 2017, a escola resolveu colar na popularidade da cantora Ivete Sangalo e fez um desfile sensacional. Com a força e o carisma da baiana, a escola levantou a Sapucaí e marcou em sua história um grande desfile. O título não veio, mas a festa na avenida foi empolgante.

Renato Lage e Márcia Lage

Para o carnaval seguinte, a Tricolor de Caxias contratou os experientes carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage, que juntos assinaram os últimos quinze carnavais no Salgueiro. Eles desenvolveram o enredo “Vai para o trono ou não vai?”, que homenageou o centenário do comunicador Aberlado Barbosa, o Chacrinha.

No desfile, a escola fazia uma correta apresentação, mas último carro não entrou na avenida, e com atrasos e buracos na evolução, sem contar a perda de 0,5 décimos por estouro de tempo, a escola terminou em décimo segundo lugar. Seria rebaixada, retornando à Série A depois de 26 anos, mas a Liga Independente da Escola de Samba mudou a regra, e a agremiação continuará no Grupo Especial em 2019.

Vice em 2020

Por pouco, a Acadêmicos do Grande Rio não desbancou todas as veteranas do sambódromo em 2020. Não fosse o desfile deslumbrante da Viradouro, que cantou as Ganhadeiras de Itapuã, a escola, uma das mais jovens do Estado, teria conquistado seu primeiro campeonato no Grupo Especial com o enredo “Tatalondirá, o canto do caboclo no quilombo de Caxias”.

O desfile vice-campeão contou a história do pai de santo Joãozinho da Gomeia. O abre-alas com tons terrosos e retalhos de panos e crochê teve também um “homem-pássaro”. Um dos destaques da escola, que sempre leva artistas globais para a Avenida, foi a volta da atriz Paolla Oliveira como Rainha de Bateria. Ela ficou dez anos fora da Sapucaí.

 


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