Estudantes de luto vão à luta pelo Museu Nacional | Diário do Porto


Educação

Estudantes de luto vão à luta pelo Museu Nacional

O movimento estudantil se “apropriou” da luta pelo Museu Nacional e iniciou uma série de protestos em defesa de mais recursos e apoio para as ciências, tecnologias, educação, artes e cultura em geral. Na segunda, teve abraço simbólico ao Museu e ato de protesto na Cinelândia

4 de setembro de 2018

Bombeiros e Defesa Civil trabalham após incêndio no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil)

Compartilhe essa notícia:


Bombeiros e Defesa Civil trabalham após incêndio no Museu Nacional (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil)

O movimento estudantil se “apropriou” da luta pelo Museu Nacional e iniciou uma série de protestos em defesa de mais recursos e apoio para as ciências, tecnologias, educação, artes e cultura em geral. Após um abraço simbólico ao Museu – flagrado pelo DIÁRIO DO PORTO na segunda-feira (veja aqui) –  estudantes  organizaram um ato de protesto na Cinelândia em defesa da educação pública, de qualidade e socialmente referendada.

O “Luto pelo Museu Nacional! Em defesa da universidade pública!’ foi o primeiro ato convocado em função do incêndio que destruiu quase todo o acervo do Museu Nacional, na noite de domingo (2). Na convocação pelas redes sociais, os organizadores informavam que ocorreram três incêndios em prédios da UFRJ nos últimos anos.

Pelas redes sociais, a mobilização também tem sido grande, capitaneada não só por estudantes, mas também por pesquisadores e organizações voltadas ao ensino e pesquisa. Uma mensagem circulou no Whatsapp com um chamado de estudantes de museologia da Unirio no qual pedem que pessoas enviem fotos do acervo para um e-mail como forma de promover um levantamento dos registros visuais das obras.

Clima de comoção coletiva na porta do Museu Nacional

Centenas de estudantes foram ver de perto o cenário de destruição e protestar contra o descaso. Nicolas Tadashi, de 22 anos, estudante de Letras da UFF, observava à distância, atônito, o prédio destruído na segunda-feira (3) . “O Museu pra mim sempre foi um espaço de convivência. Vim aqui inúmeras vezes, sozinho, com família, irmãos”, contou. “É difícil ter que remar contra a maré, esse é um espaço importante, deveria ser incontestável isso”, lamentou.

Jhone Araújo, de 29 anos, estudante de Doutorado em Geologia da UFRJ, realizava estudos de geoconservação e patrimônio geológico no local. “Trabalhávamos na reconstrução 3D de peças antigas, torço para que estejam na nuvem, diversos materiais estavam sendo digitalizados”, conta ele. Nesta quinta-feira (6) ele daria uma aula sobre geoconservação no Museu. “Os prédios também são patrimônio geológico, as rochas que estão nele. Isso aqui vai ser exemplo de desleixo, de descaso para o mundo”.

Mobilização pelas redes sociais

No Twitter, Facebook e Instagram, muitas pessoas também lamentaram a perda de coleções inteiras e da maior parte do acervo do Museu Nacional, incluindo peças raras entre as 20 milhões existentes no local. Iniciativas diversas de abaixo-assinados virtuais passaram a circular nas redes sociais em defesa do museu e denunciando o descaso de autoridades com a manutenção.

A exemplo do que ocorreu com o Museu de Arte Moderna do Rio, em 1978, em que houve uma ação conjunta para levantá-lo, nos textos publicados nas redes sociais, há sugestões de criação de um grupo de amigos, pesquisadores, artistas e funcionários para reconstrução do prédio destruído.

Os posts fazem referência à “incineração da memória” e do “assassinato da história”. Também destacam a descontinuidade de pesquisas inteiras em diversas áreas. As mensagens reiteram que as queixas vêm há anos e que não foram ouvidas pelas autoridades. As palavras mais utilizadas são “tristeza”, “tragédia” e “descaso” para classificar o incêndio.

O antropólogo professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-presidente da Fundação Nacional do Índio Mércio Gomes destacou em sua conta no Facebook a perda de 200 anos de história. Ele conclamou profissionais como antropólogos e geólogos a colocar suas coleções e materiais adquiridos em pesquisas à disposição do museu.

“Temos que reconstituir o nosso Museu Nacional, refazer as coleções de ciência natural, as coleções de arte indígena, as coleções de plantas, animais, mapas, tudo que puder ser reconstituído do passado”, defendeu.

Organizações também lamentam o ocorrido

Muitas organizações emitiram notas de solidariedade ao Museu Nacional e de repúdio à situação. A Sociedade Brasileira de Arqueologia (SAB) publicou nota cujo texto abre relatando que “lágrimas correm dos rostos” dos integrantes da entidade enquanto buscam palavras pra expressar “tamanha dor e indignação”. Segundo a entidade, a história do museu se confunde com a própria trajetória do campo da arqueologia no país.

Por fim, a sociedade “manifesta total solidariedade à instituição e a todos os colegas de lá, repudia toda forma de negligência por parte de autoridades governamentais, as quais desde longa data tomaram ciência da necessidade de restauração da instituição e praticamente nada fizeram, e ainda registra a disposição inabalável para somar naquilo de estiver ao seu alcance na luta do Museu Nacional”.

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) também pontuou em nota o prejuízo irrecuperável, colocou-se à disposição para o esforço de recuperação do que resta do patrimônio e também criticou os sucessivos cortes de recursos. “Dos R$ 520.000,00 anuais previstos desde 2014 para a manutenção do Museu, passou-se para os cerca de R$ 340.000,00 em 2017 e R$ 54.000,00 em 2018. Os projetos de reforma e revitalização, requeridos há tanto tempo, não se efetivaram a tempo”, colocou a associação no comunicado.

O Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios Históricos – Icomos/Brasil divulgou nota em que lamenta a “catástrofe” com o museu. A organização chamou o episódio de uma “tragédia anunciada que vinha se desenhando a partir dos últimos anos da política nacional”. A entidade pede a revisão da política de restrição orçamentária que atinge instituições como o museu.

O Conselho Federal de Museologia (Cofem) se manifestou “de luto pelo patrimônio histórico, científico e cultural perdido por descaso das autoridades públicas”. Essas autoridades, acrescenta o texto, “não destinam recursos humanos e financeiros suficientes e ao tempo necessário para se evitar tragédias anunciadas, como a que lamentavelmente constatamos neste início de setembro”.

O Instituto Brasileiro de Museus classificou o episódio como “a maior tragédia museológica do país”. Segundo a instituição, o fato coloca o desafio de “consolidar e implementar uma política pública que garanta, de forma efetiva, a manutenção e conservação de edifícios e acervos do patrimônio cultural brasileiro”.

A Associação Profissional dos Trabalhadores do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural Nacional (Asphan) afirmou em nota que a tragédia evidencia a necessidade de aportes públicos para equipamentos como este. “A cultura não é um negócio, é direito fundamental de nossa gente e de toda a humanidade. É uma obrigação do Estado brasileiro. A situação de abandono em que vivemos advém desse pensamento errôneo, de se achar que estes equipamentos culturais podem viver sem o devido apoio estatal. Em lugar nenhum do mundo isto ocorre!”, destacou a entidade.

Ato na Cinelândia

Ainda na segunda-feira (3), centenas de estudantes, professores e funcionários do Museu Nacional se reuniram na Cinelândia, no centro da cidade do Rio, no ato Luto pelo Museu Nacional, com críticas à falta de investimentos em conservação do patrimônio histórico.

O protesto começou por volta das 16h e durou mais de duas horas. A manifestação ocorreu em frente à Câmara dos Vereadores do Rio. De acordo com o s organizadores, foram 2.500 manifestantes. A Polícia Militar não estimou.

Diversas entidades estudantis participaram do ato, entre elas a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Associação Nacional de Pós-Graduandos (SNPG), o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

Durante o ato político, houve um princípio de tumulto entre os diferentes grupos de estudantes, mas a situação foi logo contornada pela tropa de choque da Polícia Militar. Para dispersar os manifestantes, a PM atirou bombas de efeito moral. Não houve prisões.

Fonte: Agência Brasil, com Redação


/