Escavações para obras do VLT revelam loja de venda de escravos do século 19 | Diário do Porto


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Escavações para obras do VLT revelam loja de venda de escravos do século 19

Achados incluem bola de ferro, que pode ter sido colocada nos pés dos escravos para que não fugissem. Recentemente, ao percorrer o roteiro Pequena África, o DIÁRIO DO PORTO havia noticiado a presença de um cemitério de escravos na mesma região, próximo do Largo de Santa Rita

13 de agosto de 2018

Achados ocorreram durante as escavações para obra do VLT na Avenida Marechal Floriano com Rua Miguel Couto (Foto: Oscar Liberal/Iphan/Divulgação)

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Achados ocorreram durante as escavações para obra do VLT na Avenida Marechal Floriano com Rua Miguel Couto (Foto: Oscar Liberal/Iphan/Divulgação)

Objetos e alicerces de uma loja que se dedicava ao comércio de escravos no final do século 19 podem ter sido descobertos no Centro do Rio. O sítio arqueológico foi encontrado na atual Rua Miguel Couto, durante as escavações para a linha 3 do Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT. Recentemente, ao percorrer o roteiro Pequena África (veja aqui), o DIÁRIO DO PORTO havia noticiado a possível presença de um cemitério de escravos na mesma região, próximo do Largo de Santa Rita.

A loja de venda de escravos funcionou provavelmente nos anos 1860 e 1870. O local fica a cerca de um quilômetro do Cais do Valongo, o maior porto escravagista da história, já declarado patrimônio cultural da humanidade pela Unesco. Entre os objetos encontrados, está uma bola de ferro, que pode ter sido usada como um grilhão,  colocado nos pés dos escravos para que eles não fugissem.

Os arqueólogos que conduzem as pesquisas no local cruzaram mapas da época com informações de jornais, e a localização bate com anúncios de venda de escravos presentes no ‘Jornal do Comércio’.

Ao final das pesquisas, devem ser definidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, medidas a serem adotadas pela concessionária e pelo poder público para dar visibilidade aos achados, mas por enquanto não há a possibilidade de que a estrutura subterrânea fique exposta e nem que se altere o trajeto do VLT.

A arqueóloga do Iphan do Rio, Maria Cristina Leal Rodrigues, responsável por fiscalizar as pesquisas, afirma que a exposição total do sítio não é viável pelo fato de ele se encontrar no meio da via. Segundo ela, todo o trabalho de pesquisa está sendo fiscalizado e documentado, por meio de fotos com alta definição.

“A estrutura está sendo estudada. Como está abaixo da área que vai receber o VLT, ela não será impactada. Não foi necessário determinar nenhum desvio no projeto da Linha 3, já que adaptações estavam previstas e foram feitas para a preservação da estrutura. O Centro do Rio, que foi por onde começou a colonização da cidade, é uma área muito rica em história. Novas escavações ao longo da linha podem nos trazer mais dados para que possamos contar a nossa história”, disse Cristina.

A descoberta só foi possível porque como parte do licenciamento da obra foi demandada pelo Iphan uma pesquisa arqueológica. O procedimento é comum em alguns tipos de obras que envolvem regiões com patrimônio cultural.

Roberto Stanchi, responsável pela Coordenação Nacional de Licenciamento do Instituto, explica que em várias cidades pelo Brasil e inclusive em outras partes do mundo com história muito mais antiga, como Roma, por exemplo, existem várias camadas de história e que nem tudo fica exposto, entretanto, ele reforça a necessidade de o país aprimorar essa relação entre o desenvolvimento e a preservação do patrimônio.

As pesquisas para que as obras prossigam devem durar pelo menos até outubro. O VLT já fez uma adequação no projeto, com a instrução do Iphan, para realizar um asfaltamento mais alto do que o originalmente previsto para a preservação do sítio.

Sobre a Linha 3

A Linha 3 do VLT vai ligar a Central do Brasil ao Aeroporto Santos Dumont, passando pela Avenida Marechal Floriano. As obras foram retomadas em maio, depois de uma paralisação de três meses, enquanto a concessionária VLT Carioca aguardava a licença do Iphan para a escavação no local.

De acordo com o projeto, a Linha 3 do VLT terá três estações: Duque de Caxias (na Praça Cristiano Otoni), Camerino (próxima à rua de mesmo nome) e Santa Rita (que ficará na última quadra da Avenida Marechal Floriano, próximo ao Largo de Santa Rita). O prazo previsto para a conclusão da obra é dezembro de 2018.

De acordo com a empresa Artefato – contratada pelo Consórcio VLT – o trabalho de escavação e pesquisa arqueológica é realizado paralelamente à obra do VLT, não havendo risco de atraso na obra. Os alicerces dos imóveis encontrados estão 40 metros abaixo do assentamento dos trilhos.

Da Redação, com Agência Brasil

Obras do VLT vão correr em paralelo com as pesquisas arqueológicas no Centro do Rio (Foto: Oscar Liberal/Iphan/Divulgação)

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