Carolina Smolentzov
Na rua batizada Luís de Camões, no Centro do Rio, a primeira edição da obra que consagrou o autor lusitano – Os Lusíadas – está preservada em um dos mais icônicos espaços culturais e turísticos da cidade: o Real Gabinete Português de Leitura. Além do aclamado livro, a biblioteca, visitada diariamente por moradores do Rio e turistas do Brasil e do exterior, tem em seu acervo mais de 350 mil publicações, entre raridades, manuscritos e periódicos digitalizados.
O prédio, único representante do estilo neomanuelino na cidade do Rio de Janeiro, é impressionante por fora e ainda mais em seu interior. Em 2021, o Real Gabinete Português de Leitura figurou na lista de bibliotecas mais bonitas do mundo, selecionadas pela revista Time. Os frequentadores e turistas não se cansam de tirar fotos e selfies em frente ao cenário comparado ao ilusionismo das obras do artista gráfico holandês M.C Escher (1898 – 1972) e à magia dos filmes da franquia Harry Potter.
O Real Gabinete foi criado em 1837 por um grupo de imigrantes portugueses para estreitar os laços culturais com o Brasil. Foi aberto ao público geral em 1900 e, hoje, é a maior biblioteca de obras portuguesas fora do país, com livros de todas as áreas do saber. A entrada no espaço, muito procurado durante o ano todo, é gratuita e dá acesso ao salão de leitura e aos detalhes de um local rico para a história do Brasil e de Portugal.
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Segundo o coordenador Cultural do Real Gabinete, Orlando José Dias Inácio, o local é bem conhecido e procurado, mas enfrenta um desafio comum a todas as bibliotecas atuais: a falta de leitores. “Os turistas chegam aos milhares, mas os leitores não. Isso é um desafio e tanto. Com a informatização das atividades humanas, as pessoas passaram a obter mais informação pela internet, o que faz com que elas deixem de ir à biblioteca”.
Ao longo de seus 186 anos de existência, o Real Gabinete Português de Leitura acumula uma série de características e curiosidades que o tornam um lugar único no Centro do Rio de Janeiro. Conheça agora algumas delas.
1. Acervo recheado de raridades
Desde a fundação, o Gabinete prezava pela compra de livros clássicos e edições que eram raras já naquela época. Era um tempo em que a imprensa no Brasil não era tão desenvolvida, e a instituição tinha representantes em Portugal responsáveis pela prospecção e compra das obras.
Essa busca resultou na aquisição de exemplares como a edição prínceps (primeira edição) de Os Lusíadas, de 1572, que pertenceu à Companhia de Jesus, e um livro de leis, as Ordenações de Dom Manuel por Jacob Cromberger, editadas em 1521. É possível conhecer também manuscritos como Amor de Perdição, considerada a principal obra do português Camilo Castelo Branco, e o Dicionário da Língua Tupy, de Gonçalves Dias, além de cartas de escritores.
Hoje, a biblioteca é um depósito legal de Portugal. Desde 1935, o Real Gabinete recebe os livros publicados no país, o que mantém o acervo atualizado.
2. Arquitetura singular e beleza mágica
A fachada do prédio chama atenção pela beleza e estilo arquitetônico. O Real Gabinete Português de Leitura é o único representante do neomanuelismo no Rio de Janeiro: inspirada na flora marítima e na náutica durante a era das Grandes Navegações, a arquitetura exuberante foi resgatada como forma de valorização da cultura portuguesa.
Mas é o interior do espaço que rouba a cena. As paredes cobertas por estantes que guardam uma imensidão de livros, com colunas e armários de madeira ornamentadas são arrematados pelo teto, em forma de cúpula. Ao olhar para cima, o visitante se depara com o vitral e o lustre que protagonizam muitos cliques para as redes sociais.
Em geral, a beleza do Real Gabinete virou atração turística e cenário de selfies e ensaios fotográficos. Já no passado, o local também foi palco das primeiras sessões solenes da Academia Brasileira de Letras, presididas por Machado de Assis.
3. Atividades culturais
Embora os turistas cheguem aos montes, eles não são o público-alvo do Real Gabinete Português de Leitura. Para aplacar o desafio da falta de leitores, a biblioteca organiza uma série de atividades culturais que miram principalmente o meio universitário.
O Centro de Estudos do Real Gabinete é muito ativo, composto por cerca de 60 professores universitários.
Além de cursos de extensão, abertos a todo o público, o gabinete promove colóquios, seminários, congressos e concertos musicais. Os eventos acontecem no segundo andar, no auditório da Sala dos Brasões.
4. Sempre atual
Há 20 anos, o acervo do Real Gabinete Português de Leitura foi informatizado, ou seja, catalogado em um banco de dados. Isso significa que a lista das obras do acervo pode ser consultada no site, mas o acesso aos livros é feito fisicamente, na própria biblioteca.
Alguns itens, como periódicos do século XIX e uma coleção de manuscritos, estão digitalizados. O polêmico romance ‘A Mulata’, de Carlos Malheiro Dias, publicado em 1896, é uma das obras disponíveis nessa coleção.
Real Gabinete Português de Leitura
Endereço: Rua Luís de Camões 30, Centro. Próximo à estação Uruguaiana
Horários: Segunda a Sexta-feira, das 10h às 17h
Site: https://www.realgabinete.com.br
@realgabineteportuguesdeleitura