Edifício A Noite não tem data para leilão e segue abandonado | Diário do Porto

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Edifício A Noite não tem data para leilão e segue abandonado

O edifício A Noite, na Praça Mauá, é um monumento arquitetônico da cidade do Rio de Janeiro que está carente de atenção e afetando o comércio da área

27 de fevereiro de 2020


A Noite, inaugurado em 1929, foi o mais alto edifício do país (Foto: Diário do Porto)


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Entra Dilma Rousseff, entra Michel Temer, entra Jair Bolsonaro, e o histórico e colossal edifício A Noite, no coração do Porto Maravilha, continua deteriorando-se diante dos olhos de milhões de cariocas e visitantes de um dos principais pontos turísticos do país, a Praça Mauá.

A situação do primeiro arranha-céu da América do Sul, propriedade da União, é tão obscura que, oito anos após seu fechamento para reforma, o leilão não tem data para acontecer. A Defesa Civil informou ao DIÁRIO DO PORTO que a construção não está regularizada com as exigências de segurança do Corpo de Bombeiros e que já recebeu autos de infração. Já o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) respondeu que seus técnicos farão uma vistoria no edifício nos próximos dias.

Como bem tombado em 2013, o prédio está sob a tutela do Iphan, que afirma que a responsabilidade pela gestão do mesmo é da SPU (Secretaria de Patrimônio da União), a qual teria sido notificada pelo instituto sobre vários reparos e intervenções necessários à segurança e conservação do edifício.

Detalhe de pixação no alto do edifício A Noite: Fora Temer
Detalhe de pixação no alto do edifício

A SPU, que fez a primeira tentativa fracassada de leilão do prédio em 2018, não respondeu aos questionamentos do DIÁRIO DO PORTO e remeteu o contato para o Ministério da Economia. Esse, por sua vez, informou que ainda não existe uma data para novo leilão, pois o imóvel estaria em fase de regularização cartorial. Sobre a conservação, disse ser de responsabilidade do INPI( Instituto Nacional da Propriedade Industrial), última entidade a utilizar o prédio, até 2012. Já esse instituto afirma que no local há uma brigada de incêndio e que a responsabilidade pelo edifício seria mesmo da SPU.

Fachada do edifício A Noite
Fachada nos fundos do edifício A Noite, com isolamento precário para proteger pedestres (Foto: DiPo)

O A Noite tem o nome oficial de Edifício Joseph Gire, em homenagem a um de seus arquitetos, que também foi responsável pelos projetos do Copacabana Palace e do Hotel Glória. Construído no final dos anos 20 do século passado, o local abrigou a redação do jornal A Noite e, a partir de 1937, foi comprado para ser a sede da Rádio Nacional, um dos mais importantes veículos de comunicação na história do país e órgão do Governo Federal.

O descaso do Poder Público com esse bem histórico, além de colocar em risco sua integridade, causa transtornos e prejuízo para investidores, comerciantes e moradores vizinhos. Nem parece que o Rio é a primeira Capital Mundial da Arquitetura, título concedido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) por ser a sede do 27º Congresso Mundial de Arquitetos.

O Congresso, de 19 e 23 de julho, deverá trazer mais de 15 mil profissionais de vários países à cidade. Todos passarão diante do A Noite ao se direcionarem ao Píer Mauá, espaço que sediará o evento, também no Porto Maravilha.

Prejuízos para o comércio

Quando foi inaugurado, o prédio de 22 andares e 102 metros de altura em estilo Art Déco, foi considerado o maior da América Latina. Por muitos anos, foi uma referência do Rio e teria potencial para dinamizar ainda mais a Praça Mauá, mas atualmente está provocando o efeito contrário. O comércio da área de seu entorno sofre com o abandono do edifício. A ladeira do João Homem, um dos acessos para o Morro da Conceição, exatamente atrás do A Noite, é um dos locais que mais sofrem com o prédio fechado.

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É lá que se localiza o Olivia Bistrô, que funciona de quarta a domingo. Thiego Laurent, gerente do local, acredita que o prédio fechado impede que mais pessoas visitem o restaurante. “Quem se depara com um prédio abandonado desse jeito se assusta. Virou um lugar para as pessoas fazerem de banheiro na madrugada. É péssimo, principalmente para o comércio, mas também para os moradores, porque o prédio assim desvaloriza o local como um todo”, diz.


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Na mesma ladeira, o conhecido Imaculada Bar também tem prejuízos. Severo Oliveira, gerente da casa, lamenta que o entorno do edifício se tornou um dormitório para moradores de rua. “Com o prédio abandonado, muitas pessoas têm medo de vir para cá, principalmente à noite”, diz ele. Durante o dia, Oliveira afirma que os camelôs acabam auxiliando o seu negócio, pois cuidam da segurança do entorno e ajudam a divulgar a existência do Imaculada, atraindo público para a ladeira.

Oliveira quer aumentar o número de clientes do restaurante, hoje formado em sua maioria por trabalhadores da região e turistas estrangeiros, mas aguarda uma solução para o A Noite. “Para a área seria maravilhoso que fosse feito alguma coisa com o prédio, que pode se tornar uma fonte de emprego, com reflexos positivos para os restaurantes e também para os moradores”.

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Próximo ao edifício, na rua Acre, está a lanchonete Tio Cabeça, cujo proprietário, José Carvalho, também reclama da situação indefinida. “É um esqueleto sem vida, no meio da cidade. Atrapalhou muito isso aqui”, diz Carvalho, enfatizando que a sujeira é uma de suas maiores preocupações.

Ao mesmo tempo em que o abandono do A Noite degradou o seu entorno, houve o aumento do preço dos aluguéis, após a revitalização da região. Os dois efeitos negativos se somam à queda de clientes causada pela crise econômica, o resultado é o fechamento de vários pontos comerciais na região.

“O preço dos aluguéis de imóveis comerciais aumentou muito, e as casas estão fechando. No lugar de prosperidade, há muita miséria. Minha lanchonete ficava aberta 24 horas, com clientes. Hoje, fecho às 19h, porque não vendo mais nada, e estou pretendendo fechar ainda mais cedo”, afirma o proprietário.