Dona Jura, a chef das delícias do Morro da Providência | Diário do Porto

Gastronomia

Dona Jura, a chef das delícias do Morro da Providência

O Bar da Jura já foi visitado por famosos, como a prefeita de Paris e admiradores da sua culinária e da linda vista da Baía de Guanabara

24 de outubro de 2019

Compartilhe essa notícia:


Cosme Felippsen

Já ouviu falar do Nhoque a la Jura? O prato é a delícia mais famosa da primeira favela do Rio de Janeiro, o Morro da Providência, e foi criado pelas mãos da pernambucana Dona Jura. Nascida em Recife-PE em 1955, Juraci Vilela Gomes veio morar na Providencia aos 3 anos de idade.

O Rio ainda era a capital, mas Juscelino Kubitschek já começara a transferência para Brasília. A pequena Juraci não estava nem aí para a mudança. Curtia a infância divertindo-se nas vielas do morro e observando a mãe na cozinha. Cresceu e, para ganhar a vida, foi boleira e costureira. Decidiu apostar para valer na potência de seus dons culinários em 1994, quando o governo Marcello Alencar lançou o programa Pró-sanear, de saneamento básico, na Providência.

Point de famosos em 2012

Dona Jura começou a cozinhar para quatro trabalhadores da obra no morro e chegou a alimentar mais de 150 pessoas por dia. Assim, na própria casa, fazia a comida e vendia também para os vizinhos. Já em 2012, no meio das obras do Porto Maravilha, abriu a Laje da Jura. Foi visitada por artistas e admiradores do rango delicioso e da linda vista da Baía de Guanabara.

No mesmo, no Festival Gastronômico Sabores do Porto, Dona Jura ganhou prêmios como o melhor prato, o famoso Nhoque a La Jura, feito com camarão, o de melhor recepção e o da cerveja mais gelada do Porto. Em 2014, ela transferiu-se para o Bar da Jura, na estação do teleférico da Providência, marcante pela vista bonita e pelo Samba Providência, que acontece um domingo por mês. O bar já recebeu a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, levada pelo fotógrafo francês JR.

Os pratos mais pedidos no Bar da Jura são feijoada, filé de peixe com molho de camarão, Nhoque a la Jura, panquecas e dobradinha. Tudo com a preciosa parceria da prima, Luciana de Lima, ajudante de cozinha. Para quem pensa em abrir um negócio no morro, no alto de sua experiência, ela tem uma dica. Simples, como tudo em Dona Jura. “A primeira coisa é ter vocação pra abrir algum negócio aqui“, resume. Para bom entendedor, meia palavra basta.

Viúva, Jura criou sozinha dois filhos até conhecer outro companheiro, com quem teve mais uma filha, e hoje vive separada. É avó de quatro rapazes e duas meninas, bisavó de uma linda criança chamada Mel. Aos 3 aninhos, Mel concentra as atenções da bisa. O filho mais velho, Gilbert, 46, é motorista particular, e a caçula, Elaine, 35, trabalha como assistente administrativa. O filho do meio, Robert, foi morto aos 17 anos durante uma operação policial.

Dona Jura é dona do prato mais famoso do Morro da Providência (Foto: DiPo)

A falta que faz um mercado

Apesar da tragédia e das durezas da vida e do dia a dia, Dona Jura parece feliz no Morro da Providência. Como todo morador, no entanto, reclama da falta de estrutura e de investimentos no comércio na região. Ela sente muita falta, por exemplo, de um supermercado. Para fazer as compras do bar, precisa sair da Zona Portuária. “O Mundial que existia na praça do Santo Cristo faz falta”, protesta.

A chef de cozinha do Morro da Providência manda um recado para a prefeitura: a favela precisa de serviços variados de qualidade, seja serviço público, como escola e posto de saúde, ou empreendimentos privados, como casas lotéricas. Em vez disso, os moradores estão tão abandonados como o teleférico, que consumiu milhões e está com suas instalações degradando-se diante da vista de todos.

Dona Jura sonha com um elevador panorâmico para o alto do Morro, para atender aos moradores e atrair visitantes para o lugar, tão rico em história. Tão rico e tão bonito que, quanto o DIÁRIO DO PORTO pergunta a Dona Jura a qual lugar ela mais gosta de ir, ela não aponta nenhuma obra olímpica do Porto Maravilha. “Gosto de olhar a paisagem daqui. Lugar igual a esse não tem! Aqui é show!“, responde a estrela.

Como chegar:

O Bar da Jura fica na Ladeira do Barroso 194, no meio do morro, na antiga praça Américo Brum e atual estação do teleférico. É possível chegar de carro, mas o transporte usado pelos moradores é a Kombi que sai do mercado 2001 na Rua Senador Pompeu – Central do Brasil. A pé, quem sai do Cais do Valongo pode subir a Ladeira do Livramento, que emenda com a Ladeira do Barroso, e seguir até a estação do teleférico. O bar fica embaixo, com um mirante do qual se avista a Serra dos Órgãos.

Dicas: A cerveja de 600 ml custa R$ 8; o litrão, R$ 10. O prato simples, R$ 15, a feijoada R$ 20 e o prato principal, a famosa Nhoque a La Jura, custa R$ 25 e precisa ser pedido na véspera. Reservas pelo telefone 3145-5594.