Carnaval

Depois das escolas de samba, Prefeitura compra briga com blocos de rua

Exigências decretadas pela Prefeitura dia 2 revoltam foliões, e associação de blocos já cogita desfiles sem autorização, como antigamente. Entenda a briga

4 de janeiro de 2019
O tradicional bloco Escravos da Mauá desfila neste domingo 24 (Foto: DiPo)

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Bloco Escravos da Mauá desfila pela Gamboa
Bloco Escravos da Mauá desfila pela Gamboa: tradição ameaçada (Foto DiPo)

O confronto com as escolas de samba, que tiveram metade do patrocínio público cortado, não é a única briga que a Prefeitura do Rio comprou no carnaval carioca. A divulgação, esta semana, das exigências para os desfiles dos blocos de rua azedou de vez a relação entre a Riotur e a sociedade civil organizada da folia. Em carta aberta à população, a Sebastiana se declarou surpresa com as novas exigências da Riotur, anunciadas quando os blocos já começam seus eventos pela cidade. Entre elas está a obrigação da presença de médicos, UTIs e postos de Saúde em blocos que atraiam mais de 5 mil pessoas.

Na Sebastiana (Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro), o clima é de revolta. A presidente, Rita Fernandes, classificou como grave erro confundir “manifestações culturais feitas por amigos que decidem brincar o carnaval na rua” e “esses blocos gigantes, como o da Preta ou o Favorita, que são grandes empreendimentos e contam com muito investimento”. Blocos históricos como a Banda de Ipanema, segundo ela, serão prejudicados.

“É coerente cobrar a presença de profissionais de saúde e ambulâncias paras locais onde há grandes aglomerações, mas essa é uma obrigação do poder público. Os blocos atraem turistas do mundo inteiro e geram muita renda. É racional esperar esse tipo de contrapartida do poder público”, completou Rita Fernandes.

 


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Entre as outras exigências estão o comprovante junto à Coordenação de Licenciamento e Fiscalização da Prefeitura em caso de exposição de marca de patrocinador em carros de som ou materiais para distribuição, a certificação de obrigações legais cumpridas por veículos utilizados pelos blocos e a proibição de delimitação de espaços, por meio de cordas e/ou seguranças (“áreas privadas”), pagos ou não, nos desfiles e ensaios carnavalescos.

Bloco da Favorita, da promoter Carol Sampaio, ocupa a Avenida Atlântica no Carnaval de 2018
Bloco da Favorita, da promoter Carol Sampaio, ocupa a Avenida Atlântica no Carnaval de 2018 (Foto DiPo)

 

A Sebastiana já cogita de voltar a desfilar sem autorização, como antigamente. “Os blocos do Rio desfilarão sim, nós estamos garantidos pela Constituição. A gente quer colaborar, mas se ficar inviável vamos sair sem autorização. Eles vão reprimir 500 blocos no Rio? Eles vão ir para cima de seis milhões de pessoas, ao invés de conversar?”, disse Rita Fernandes ao G1. “Isso burocratiza e inviabiliza o carnaval espontâneo. Se for assim, vamos ser clandestinos. Hoje se tornou impossível se cumprir a exigência. Vamos nos juntar ao que eles chamam de blocos ‘piratas.”

Os blocos já começaram a agitação de 2019. Clique aqui para conferir os eventos selecionados pelo DIÁRIO DO PORTO para você entrar no clima de Momo junto com os primeiros blocos do Porto Maravilha, do Centro e da Lapa.

Em seguida, a nota aberta da Sebastiana em protesto contra as novas regras:

Há anos vimos buscando achar soluções para os problemas do crescimento do carnaval de rua. Mesmo com todo o espírito libertário que cultivamos, inerente aos blocos, fomos em busca do diálogo com o poder público, porque entediamos que era parte da nossa responsabilidade com a cidade e os foliões. E agora, mais uma vez, nós da Sebastiana estamos surpresos com as novas exigências da Riotur anunciadas em uma portaria publicada no dia 2 de janeiro, quando os blocos já estão se preparando para suas apresentações.

Em todos os seminários que realizamos para tentar entender e equacionar os pequenos problemas ainda existentes depois de anos de acertos, vai ficando claro que a nova administração nunca teve a compreensão da dimensão cultural e inclusiva dessa múltipla participação popular, nem a boa vontade para pensar em conjunto a riqueza do carnaval de rua. De modo que essa nova tentativa de disciplinar corações e mentes parece ser mais do mesmo: o divórcio entre a administração municipal e a população.

Essa portaria é um retrocesso em anos de trabalho conjunto com antigas administrações e com o governo do Estado. Não dá para aceitar que a Riotur desrespeite o decreto do governo do Estado em relação às obrigações com o Corpo de Bombeiros, por exemplo, onerando os blocos com ações que cabem ao poder público municipal, como a saúde e a segurança.

Carnaval é arte do povo e para ele, é uma das manifestações protegidas pelo Artigo 5 da Constituição Federal que permite a livre expressão e organização dos cidadãos. Tentamos e queremos colaborar, mas é difícil encontrar razão para o diálogo com quem não quer dialogar.

Temos mais de 30 anos de carnaval! Exigimos o respeito que merecemos pelo trabalho que temos feito de forma generosa pelo Rio de Janeiro.

Sebastiana 


Blocos de Rua da Zona Sul, Centro e Santa Teresa

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