Denise Lima, do Píer Mauá: "Não vamos deixar o VLT parar" | Diário do Porto


Empreendedorismo

Denise Lima, do Píer Mauá: “Não vamos deixar o VLT parar”

Diretora da Píer Mauá, Denise Lima prevê prédios residenciais, dá dica de investimento, conta que o navio com Roberto Carlos vai sair do Rio. E muito mais.

8 de agosto de 2019

Denise Lima, do Píer Mauá, integra a direção do Distrito Empresarial do Porto (foto: Diário do Porto)

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Há uns 30 anos, a estudante de Arquitetura Denise Lima costumava andar de cabeça baixa pela Praça Mauá para chegar ou sair do estágio, na Rua Venezuela, sem encarar as cenas que abalavam o prestígio do pedaço. Há oito anos, ela voltou à área para ajudar a mudar essa história. Denise é diretora do Píer Mauá, responsável pela recepção aos cruzeiros e pela maioria dos eventos que carregam – cada vez mais – cariocas para a orla da Baía de Guanabara.

É preciso pulso para acompanhar o monta-desmonta de estruturas, como a da CasaCor, que será de 20 de agosto a 29 de setembro no prédio do Touring. O maior evento de decoração do Brasil abre as portas para a reforma do prédio centenário que abrigará o Mercado Gastronômico em 2020. O empreendimento reunirá os melhores restaurantes e bistrôs do Rio na belíssima construção e também no prédio anexo, de onde a mesa de trabalho de Denise é emoldurada pelo encontro de linhas do mar, da Ponte e do Museu do Amanhã.

Denise recebeu a equipe do DIÁRIO DO PORTO para uma entrevista em que contou sua história e manifestou certezas muito boas de se ouvir. Ela diz que chegou a hora de começarem a subir os prédios residenciais na região. Na qualidade de especialista em mercado imobiliário, dá até dica de investimento em um deles. Está segura de que o prefeito Marcelo Crivella encontrará uma solução para não fechar o MAR e o Museu do Amanhã. E não acredita que o VLT Carioca vai parar por causa dos calotes que têm sofrido da Prefeitura. “Nós, cariocas, não vamos deixá-lo parar.”



 

Denise Lima, da Píer Mauá, aponta para o mapa do Porto Maravilha
Diretora do Píer Mauá aponta para o mapa do Porto Maravilha

DIÁRIO DO PORTO: Diante da crise hoje vivida pelos empreendimentos do Porto Maravilha, a sra. acha que valeu a pena o carioca gastar tanto dinheiro na demolição da Perimetral?

Denise Lima: Não tenho dúvida. Acompanhei todas as obras de revitalização, a demolição e todos esses impactos, e depois o legado da Olimpíada. A empresa Píer Mauá é pioneira, está aqui desde 1998 operando o Terminal de Cruzeiros, um mercado que cresceu muito no Brasil e no mundo. Na época em que a gente ganhou a concessão, o número de passageiros era muito reduzido, uns 10 mil. Na temporada 2010/2011, tivemos o ápice de 650 mil. A economia bombava, as classes C e D estavam viajando, os financiamentos eram generosos, e os armadores abriram cruzeiros de três dias, parcelados em 10 vezes. Mas eram passageiros que não tinham condição de consumir dentro do navio, comprar os pacotes onde os navios pernoitavam. E esses passeios menores foram acabando.

DIÁRIO: A concorrência com outros destinos também complicou?

Denise: Sim. Tivemos a entrada de concorrentes fortes, como China, Cuba, México, Dubai. Fora isso, temos a crise. Agora vivemos uma retomada, com expectativa de crescimento em 10% ao ano. Mesmo com crise, é um setor que cresce. O número de passageiros hoje é da ordem de 350 mil por temporada.

Navio no Píer
Navio no Píer

A atividade principal do Píer Mauá é o Terminal de Cruzeiros, mas a concessão que ganhamos inclui desenvolver entretenimento e gastronomia. A Píer Mauá começou a movimentar os armazéns quando aqui era muito pouco movimentado, tínhamos a perimetral e, com ela, muitos problemas. Apesar disso, conseguimos fazer vários projetos, como Rio Boat Show, Fashion Rio, Feira de Artes. Conseguimos cativar o carioca. Nossa área é muito interessante porque está entre o Santos Dumont e o Aeroporto Internacional, então é boa para eventos. A logística ficou incrível com o VLT. Também estamos próximos de hotéis, então as pessoas gostam de estar aqui.


“É muito importante para que a revitalização

aconteça que você tenha pessoas morando aqui”


DIÁRIO: A derrubada da Perimetral foi caríssima e as obras foram infernais. Valeu mesmo?

Denise: Houve um investimento forte aqui, e não tenho dúvida, como carioca, de que valeu. A Perimetral escondia as belezas que a gente tem, e hoje temos um frescor que não tinha. Não ia dar para ver um Museu do Amanhã, um MAR, um Mercado Gastronômico, um Terminal de Cruzeiros recebendo tanta gente, se ainda tivéssemos a Perimetral.

Não tenho dúvida nenhuma de que o Porto Maravilha será um sucesso, e assistiremos em breve. Estamos passando por um momento de dificuldade, mas o AquaRio já bateu 3 milhões de visitantes, o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio são um sucesso, e agora teremos o Mercado Gastronômico.

Antigamente, o turista pegava um táxi ou uma excursão e ia a três lugares: Cristo, Pão de Açúcar e Copacabana. Hoje a gente eles param aqui e circulam por essa região, que tem várias atrações.

Quando o Eduardo Paes e os outros governantes anteriores a ele desenvolveram esse projeto do Porto Maravilha, ele foi ancorado principalmente em moradias. É muito importante para que a revitalização aconteça que você tenha pessoas morando aqui. Por isso existem projetos de moradia que vão acontecer nos próximos 5 a 10 anos.

DIÁRIO: Os construtores erraram ao apostar apenas em prédios comerciais?

Denise: Essa região era um hiato. Das muitas empresas que estão vindo para cá, a maioria era da Barra e está ocupando esses prédios. A prefeitura vem incentivando a moradia, mexendo na legislação, mudando a quantidade de vagas. Passamos por um momento de crise, mas já já teremos os lançamentos aqui que vão fazer o mesmo que ocorreu em Buenos Aires. Os jovens querem acessibilidade, morar perto do trabalho, viver onde as coisas estão acontecendo, então isso aqui tem muita característica de jovem.

Edifício-sede da LÓrèal
Edifício-sede da LÓrèal

Meus filhos vão querer morar aqui. Lógico que, para isso, as moradias precisam acontecer, e elas vão acontecer. Se a gente fizer um paralelo com Buenos Aires, precisamos de um tempo de amadurecimento. A gente conversou com o pessoal de Barcelona. Eles receberam uma olimpíada também. Lá, toda a área do porto foi revitalizada, e a primeira coisa que eles falaram foi que, nos primeiros 10 anos, não acontece nada. Precisamos de um tempo de amadurecimento, de maturação.

A Olimpíada foi há três anos. Se a gente estivesse vivendo um momento um pouco diferente no Rio e no Brasil, as coisas já teriam acontecido. Para nós, da Píer Mauá, não foi fácil conviver com as obras, não conseguíamos realizar muitos eventos, então todos tínhamos uma expectativa incrível, e o momento pós Olimpíada não foi tão bom como pensávamos. Existe uma frustração nossa como cariocas, principalmente de quem está atuando aqui, de que as coisas podiam estar acontecendo mais rapidamente. Veja o prédio do Vista Guanabara. Ele poderia ter sido ocupado um pouco antes, mas hoje já está ocupado, praticamente inteiro.

Existem quatro projetos de residência, da Tishman Speyer, atrás do prédio que tem o painel do Cobra, ao lado do Vista Guanabara e do prédio da L’Oréal. Eles já estão em aprovação e já já estarão sendo construídos. Outras empresas também estão produzindo os projetos, mas não tem como lançar nada agora por conta da crise. Se você abre os jornais, não tem nenhum lançamento mobiliário em nenhum lugar. As coisas estão sendo retomadas. Tirando a Zona Sul, não tem nada acontecendo.

 


“Na medida em que o número de moradores

começar a crescer, virão para cá supermercados”


DIÁRIO: O tráfico no Morro da Providência e a falta de segurança não são obstáculos especiais no Porto?

Denise: Aqui no Porto, especialmente nessa região onde estamos, não percebo esse problema que vemos na cidade. No Boulevard Olímpico, temos a guarda presente atuando. Talvez sejamos privilegiados por estarmos em frente à Polícia Federal, ao lado de dois grandes museus. O Morro da Providência sempre esteve ali, e, de verdade, eu não vejo esse impacto, de não poder sair por conta de um tiroteio na Providência. Há um ano e pouco atrás, tivemos um episódio em que os ônibus de excursão teve que deixar os turistas aqui dentro porque estava tendo um incidente. Fora isso, nesses oito anos, não presenciei nada.

DIÁRIO: Muitos moradores da região se ressentem da revitalização por não ter propiciado melhorias na vida deles. O VLT tirou os ônibus, e eles perderam supermercado, muitas lojas.

Denise: A população não cresceu, então tudo que existe agora já tínhamos antes. Agora, na medida em que o número de moradores começar a crescer, virão para cá supermercados. Fico surpresa de termos um mercado Zona Sul ali na Rua da Alfândega. Quando eu poderia imaginar que um mercado daquele fosse ser um sucesso aqui? Essas coisas virão, mas precisamos aumentar o público.

DIÁRIO: A senhora teme que a crise com a Prefeitura acabe fechando o MAR e o Museu do Amanhã?

Denise: Os dois museus são muito importantes para os cariocas, têm interação muito grande com o morador daqui. A prefeitura vai mantê-los abertos, vai achar a melhor forma possível. Isso também em relação ao VLT, nós, cariocas, não vamos deixá-lo parar. Nós ganhamos esse equipamento e não podemos perdê-lo, ele nos dá muita mobilidade. Então estou otimista em relação a esse processo. Não só eu, mas toda a Píer Mauá, o Marcelo Torres que vai construir o Mercado Gastronômico, o pessoal da Roda Gigante, então tem todo um empresariado que está bastante otimista.

 

VLT teste Linha 3-2
Trem testa Linha 3, que não entrou em funcionamento

 

DIÁRIO: Qual será o impacto do Mercado Gastronômico?

Denise: É um projeto no prédio do Touring e seu anexo, onde era a antiga estação de passageiros. É uma área de 6 mil metros quadrados, onde o Marcelo Torres vai construir um mercado aos moldes do mundo. É um somatório de mercados como os de Lisboa, Nova Iorque, Amsterdam, Telavive, Itália, ou seja, ele quer o melhor do mundo aqui no Rio. A Píer Mauá é a locadora do espaço, mas também investidora. Estamos há muitos anos buscando um projeto à altura deste prédio. Queremos abrir ao público nossas áreas, as mais bonitas da região. 

O projeto do mercado já está 100% comercializado, e, logo depois do Casa Cor, um evento que vai nos ajudar na divulgação do mercado, iniciam-se as obras. Depois da montagem, os melhores operadores do Rio, pinçados a dedo, vão atuar no mercado, a melhor pizza, melhor sorvete, sanduíche. Teremos um espaço de carne, cervejarias, áreas para música e venda de produtos de alta qualidade. É um projeto muito especial, único, com cerca de 40 operadores. As pessoas vão almoçar, tomar café, apreciar o espaço.


“Teremos uma temporada de cruzeiros melhor

do que a passada, em torno de 350 mil pessoas”


DIÁRIO: É o segundo ano do CasaCor no Porto Maravilha. O primeiro foi no Aqwa Corporate. O do Touring vai ser melhor?

Denise: (Risos) A nossa área é muito melhor do que a do Aqwa, o pessoal do Aqwa que me perdoe. A nossa localização e mais fácil de chegar, o nosso prédio e um prédio tombado, centenário. Esse prédio tem cem anos, construído pelo mesmo arquiteto do Copacabana Palace. A finalidade dele era receber os turistas que iam embarcar nos cruzeiros, e os familiares que ficavam iam para as varandas dar tchauzinho. E um prédio lindo que ficou escondido pela Perimetral durante décadas e que agora vai ser mostrado com todo o seu glamour com o CasaCor. A expectativa é que visitem o CasaCor cerca de 50 mil pessoas, há um público cativo.

Prédio do Touring passa por obras para o CasaCor
Prédio do Touring passa por obras para o CasaCor

Este anos ainda teremos uma temporada de cruzeiros melhor do que a passada, em torno de 350 mil pessoas. No calendário de eventos ainda temos Rio Gastronomia, VesteRio, Mondial de La Bière, um evento da Shell. O navio do Roberto Carlos também vai sair daqui, e teremos a maior biblioteca flutuante do mundo. Ainda buscamos abrir nossos espaços para o público. Temos o Youtube Space, um dos sete maiores do mundo, que faz conteúdo para postar na internet.

DIÁRIO: Com base na experiência de quem acompanha o desenvolvimento do Porto há oito anos, em qual lugar da região você investiria na compra de um apartamento?

Denise: Estou há 8 anos aqui e, sem dúvida nenhuma, eu compraria esse lançamento imobiliário aqui atrás do prédio do mural do Cobra, uma das torres residenciais da Tishman Speyer. Em relação à construção de áreas residenciais, vai depender muito de como a cidade vai viver os próximos meses, mas eu acredito que já se desenha um começo de 2020 melhor do que tivemos em 2019. Não dá para saber quando esses prédios residenciais serão lançados. Mas já estamos ouvindo falar de novo sobre petróleo, outras empresas estão circulando pela região, saindo da Barra e vindo para cá. Com esse público, as obras vão acontecer. O mercado só precisa melhorar um pouco.

DIÁRIO: O processo de revitalização do Morro da Conceição, a partir da valorização dos imóveis, já não deveria ter acontecido, a chamada “gentrificação”?

Denise: Existe um público que mora no Morro da Conceição, que é um lugar muito charmoso, mas acontece que eles precisam ser mantidos ali, e começar a construir uma convivência, que é muito importante. Se você buscar Paris, por exemplo, lá tem de tudo, e as pessoas todas acabam convivendo bem. Nós precisamos integrar todas as partes.

Denise Lima, do Píer Mauá, gesticula
Denise: dicas de lugares para almoçar e para tirar fotos do Porto Maravilha

“Eu acredito na despoluição

da Baía de Guanabara”


DIÁRIO: Quais são os lugares do Porto em que você mais gosta de almoçar?

Denise: No Museu do Amanhã, no MAR, no Asa Açaí (Rua Sacadura Cabral 79) e nos restaurantes da Avenida Rio Branco.

DIÁRIO: E qual é o melhor cenário para tirar fotos?

Denise: A extremidade do Museu do Amanhã. É o segundo pôr-do-sol mais bonito do Rio, só perde para o do Arpoador. Já tivemos muitos casamentos importantes aqui. Os casais alugam um armazém e fazem a festa à beira da Baía de Guanabara, vendo esse belíssimo pôr de sol.

DIÁRIO: A despoluição da Baía é importante para o futuro do Porto e do turismo do Rio?

Ponte Rio-Niterói vista a partir da Baía de Guanabara
Baía de Guanabara limpa: por enquanto, um sonho frustrado (foto Alexandre Macieira/Riotur)

Denise: É muito importante para a gente que recebe turistas. Quando a gente sabe que vai ter alguma mudança climática e que vai remexer o fundo com aquela sujeira, dá muita vergonha do mau cheiro. Tem um barquinho do governo do estado que limpa, mas não adianta muito.

Durante a Olimpíada, nós patrocinamos aquele barquinho que ficava limpando, mas que só tirava superficialmente e melhorava o visual, mas não adianta muita coisa. Há um monte de crianças pulando ali na curva, e sabemos que a água é suja. É muito desagradável, como carioca, vê-los ali naquela água.

Eu acredito na despoluição da Baía, tenho que acreditar que um dia vai ter algum politico que vai levantar essa bandeira. Eu quero acreditar que estamos vivendo um momento no mundo em que precisamos preservar a natureza, nós somos a natureza, e precisamos dela para sobreviver.


Veja trechos da entrevista em vídeo: 

 


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