Abav-RJ

Cristina Fritsch diz que Brizola e Globo fizeram mal ao Rio

Presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens no Rio, Cristina Fritsch cobra mais políicas e guardas municipais para haver ordem nas ruas

6 de fevereiro de 2019
Cristina Fritsch, presidente da Abav-RJ, diz que a cidade precisa de ordem (foto DiPo)

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Cristina Fritsch é do tipo que defende o Rio de Janeiro com unhas e dentes – e sem papas na língua, como todo carioca radical. Presidente da Abav-RJ (Associação Brasileira de Agências de Viagem), dispara críticas em todas as direções. Para Cristina, há 30 anos na Carnaval Agencia de Viagens e Turismo, o maior problema do Rio é a falta de segurança. Ela aponta o ex-governador Leonel Brizola como responsável pelo aumento das armas no morro. Mas atira para o outro lado com a mesma desenvoltura. Para Cristina, a TV Globo começou a falar mal do Rio para prejudicar Brizola, “gostou da brincadeira” e não parou mais, afastando os turistas.

Nessa entrevista ao DIÁRIO DO PORTO, Cristina também critica “taxistas bandidos”, que cobram fortuna de turistas desavisados, e o prefeito Marcelo Crivella, principalmente por não colocar mais guardas municipais nas ruas.

DIÁRIO DO PORTO: A Copa e a Olimpíada foram positivas para o turismo no Rio?

Cristina Fritsch: Foram, mas, infelizmente, não aproveitamos. Foi muito negativo não poder aproveitar a onda toda que foi criada para turbinar o turismo. Trouxemos turistas, poderíamos ter dado prosseguimento na solução dos problemas da cidade, na segurança, na visibilidade, em vender a cidade lá fora. Mas, em nível federal e estadual, tudo encolheu, a gente perdeu a oportunidade.

DIÁRIO: Por que isso aconteceu?

Cristina Fritsch: Por vários motivos. A gente se preparou para uma Olimpíada, mas não se preparou para um plano estratégico de turismo. Você tem que ter um plano para conduzir uma cidade no turismo, e faltou isso. Tivemos o impeachment da presidente Dilma, depois veio o presidente Temer, o Ministério (do Turismo) parou, a Embratur parou. Você não botou o Rio de Janeiro lá fora, nas prateleiras das grande feiras. Para atrair turista você tem que mostrar, tem que dizer: “olha, estou aqui, tenho isso e aquilo.” Temos o Rio, o Nordeste, o Pantanal, o Sul, mas não mostramos.

E ainda tem a questão da segurança. Teve a intervenção federal, o Estado parou. Nada foi feito. Turista hoje, quando viaja, quer segurança. A gente tem tudo a oferecer para o americano, o europeu, o asiático. Temos a maior costa do mundo, praias maravilhosas, cultura, mas e daí? Cadê a segurança? 

DIÁRIO: Com tantos problemas, os hotéis lotaram no Revéillon e estão começando a ficar cheios para o Carnaval. Como se explica?

Cristina Fritsch: Não é milagre, isso é Rio de Janeiro. É portão de entrada do país, é o lugar que atrai turista para o Brasil. Por isso é importante que o Rio fique bem sempre. Se o Rio ficar bem, todos os estados ficarão bem no turismo. Agora, acontece um problema qualquer em Santos, o noticiário lá fora diz assim: “aconteceu um ataque a um turista em Santos, que é próximo do Rio de Janeiro”. Aconteceu um ferimento em Fortaleza, “estado a tantos quilômetros do Rio de Janeiro”. Toda vez que fala do Brasil em algum lugar, é Rio de Janeiro.

É verdade que tivemos um revéillon lotado, temos promessa de Carnaval cheio, porque, de certa forma, não estamos mais vivendo aqueles momentos muito ruins. Houve uma intervenção, temos governos novos, o federal e o estadual. O municipal não ajuda muito, mas em níveis estadual e federal temos promessas muito boas. Não tenho dúvida de que a retomada do turismo tenha a ver com esse novo momento político.

DIÁRIO: Esse turista que está aparecendo é estrangeiro ou brasileiro?

Cristina Fritsch: Temos este ano um fluxo bom de turistas argentinos voltando. A economia deles melhorou um pouco. São nossos maiores visitantes, seguidos dos americanos. Internamente, são os paulistas.

DIÁRIO: O Rio está nos livros de todo estudante de História, exerce atração no brasileiro. Você acha que a gente cuida bem desse turista doméstico, temos políticas públicas para atraí-lo?

Cristina Fritsch: Não, mas deveríamos. Infelizmente, as más notícias chegam primeiro no Brasil. Todo dia o Rio está no noticiário com más notícias. O brasileiro está assustado com o Rio de Janeiro.


“Ninguém quer esconder a notícia, mas não é assim nos outros lugares”


DIÁRIO: O Rio não está entre as capitais mais violentas do país, mas tem a fama. A fama é pior do que a realidade?

Cristina Fritsch: Existe o problema, e existe a fama. A gente aqui não tem nada de diferente de Fortaleza, que sempre foi uma cidade violenta, por exemplo. Mas temos um problema muito sério que vem da época de Leonel Brizola, que transformou bandido em cidadão, que não deixou a polícia subir o morro. Com isso, a bandidagem instalou-se na favela. Em cada uma delas tem um quartel general do tráfico de drogas, com armas que não têm em outros lugares, é difícil o acesso a essas comunidades.

Naquela época, o Brizola dizia para a Globo: “quando eu for presidente, vou acabar com vocês.” E o que a Globo fez? Começou a bater nele, a falar de violência no governo dele, violência, violência, violência. E a Globo gostou dessa história, não parou mais. Viciou. Isso é fato.

No jornal O Globo, as notícias do nosso dia a dia não saem no caderno da cidade, mas na primeira página. Quando eles não têm nada para falar da violência na cidade, desenham o Cristo Redentor vestido com colete à prova de balas e colocam na primeira página. Isso vai para o mundo inteiro. Aí, fica difícil. Isso não acontece em Fortaleza, em São Paulo, em outras cidades.

Aliás, o mercado de turismo tem ido ao alto comando da Globo falar sobre isso. Houve um encontro para o qual foram levados diversos grandes anunciantes para dizer: “vocês estão acabando com a cidade.” Ninguém quer esconder a notícia, mas o problema é a forma como a notícia é dada. Não é assim em outros lugares! Você reparou que, no Carnaval, quase não tem notícia de violência? Sabe por que? A Globo é patrocinadora do Carnaval. A questão não é esconder a notícia, é o tamanho do destaque, a forma.


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DIÁRIO: O Rio ganhou uma nova área de interesse turístico internacional, longe das praias, que é é o Porto Maravilha. Você acredita no potencial turístico do Porto?

Cristina Fritsch: O Porto é uma realidade pronta. Os turistas já vêm para conhecer o Porto. O Museu do Amanhã e o MAR são muito procurados. Os estrangeiros gostam de visitar museus, os brasileiros também. Agora, precisa ter ordenamento, mas não tem. Você vê algum policial na rua em algum lugar? Em Copacabana, que é o bairro mais turístico do Brasil, cadê a Guarda Municipal, a polícia? Você não vê.

Tivemos uma reunião de ordenamento do Porto recentemente com a Riotur, a Guarda Municipal, o subsecretário do Porto, o Píer Mauá. Não estamos em uma boa temporada de turismo de navio, que é o que mais cresce no mundo. O número de turistas hoje é o de dez anos atrás.

Nós temos no Rio dois aparelhos que são os mais espetaculares do mundo: o Aeroporto Santos Dumont e o Porto, ambos dentro da cidade. Você desce, pega o taxi e vai embora. É um espetáculo, mas tem que ter ordenamento.

O prefeito, para começar, tem que entender que é prefeito de uma cidade de festa chamada São Sebastião do Rio de Janeiro. Você viu algum movimento dele no Dia de São Sebastião? Zero. É o padroeiro da cidade, não interessa qual é a religião do prefeito. Ele veio a ser prefeito de uma cidade que é Carnaval, pagode na rua, festa, Pedra do Sal.

A cidade não tem guarda municipal na rua. Isso aqui é uma zona, não existe ordenamento nas nossas ruas. Vá à Rua Uruguaiana, onde fica a Secretaria de Turismo. Você quase não consegue andar, de tantos camelôs.


Você chega, bota o seu paninho no chão, vende o que quiser, onde quiser, na hora que quiser.”


DIÁRIO: Tivemos uma intervenção militar na segurança durante nove meses, com o comando militar na Central do Brasil, e ali foi uma das regiões em que o crime mais aumentou.

Cristina Fritsch: Se você colocar polícia na rua, bota ordem. Se não colocar, não tem ordem. É só isso. Veja o Píer Mauá. Milhares de turistas passando, não tem guarda. Nós fotografamos isso, não se vê um guarda municipal ou policial em nenhum lugar. Quem tem que fazer isso é a Guarda Municipal. Um dia o ministro do Turismo veio almoçar em um navio. Zero polícia. Então, vira terra de Malboro, a cidade não é de ninguém. Você chega, bota o seu paninho no chão, vende o que quiser, onde quiser, na hora que quiser.

Cristina Fritsch brinca com miniatura de avião
Cristina: “A Globo aprendeu a falar mal do Rio e gostou”

DIÁRIO: Você elogiou o aeroporto Santos Dumont e o Píer Mauá, mas no Porto tem outro equipamento turístico muito importante, que é a Rodoviária do Rio.

Cristina Fritsch: É verdade. Aeroporto, Píer Mauá e Rodoviária do Rio deveriam ter policiamento estratégico. A Rodoviária ficou um oásis no meio de um inferno de trânsito. A administração melhorou muito, mas, quando você sai na rua, além de ficar sufocado pelo trânsito, há uma questão de polícia. Você pode até colocar controladores de trânsito, mas a questão é de polícia. Sair andando por ali é complicado.

Temos outro problema sério na cidade, que é táxi. Vamos voltar para o Porto. Tem bandidos ali. O Píer Mauá tem uma cooperativa, mas ela não consegue atender 4 mil ou 5 mil passageiros. Talvez uns 800 saiam em ônibus de turismo, já têm um guia, um passeio contratado. Mas e aquele que pega um taxi no meio da rua? Vai pegar onde? O trânsito vira um inferno, não tem polícia. Cadê os guardas? A gente está pagando 50% a mais de IPTU, e o que estão fazendo com o nosso dinheiro?

DIÁRIO: O Rio de Janeiro perdeu o congresso nacional da Abav para São Paulo. Por que isso aconteceu?

Cristina Fritsch: O congresso antes era itinerante, e ficamos no Rio por uns dez anos, mas há quatro foi para São Paulo. Estamos fazendo um movimento pela volta dele para o Rio, mas precisamos de apoio dos hotéis e da prefeitura.

O Rio não perdeu só a feira da Abav. Toque o violino que eu vou começar a chorar com você. Nós temos boas perdas. O (ex) ministro Vinicius Lummertz sempre falava das perdas do Rio: quando acabou a monarquia, quando deixou de ser capital, quando acabou a Guanabara. Os grandes eventos foram para São Paulo por que? Tivemos problema de segurança, de ICMS alto para quem expõe e vende em feiras. 

DIÁRIO: Esse fenômeno não tem a ver com um desprezo do Rio pelo turismo doméstico, sempre dependendo da sazonalidade do turista estrangeiro?

Cristina Fritsch: O turista interno vem naturalmente. O Riocentro é o melhor centro de convenções do país, mas tivemos um problema durante muito tempo que era a Barra da Tijuca. Houve obras infernais, demorava mais de duas horas para chegar lá. Não tínhamos hotéis por lá, mas hoje temos. São Paulo tem muito mais oferta de centros de eventos. A Gol fez o hub dela no Rio, mas o da Latam não é aqui. Quando você faz um evento aqui e tem que passar por São Paulo antes, é ruim também.


“O que eu posso dizer aos jovens é: estudem.”


DIÁRIO: Você está na presidência da Abav-RJ há quatro anos. O que houve de melhor nesse período para o turismo do Rio, em que tivemos Copa e Olimpíada?

Cristina Fritsch: Houve uma união grande das entidades de turismo. Elas estão bem próximas, e a Abav não faz mais nada sozinha, nem a ABIH, o Rio Convention Bureau etc. Nós fazemos trabalhos juntos, vamos a Brasilia, ao governador, temos uma articulação boa como nunca houve no Rio. Foi muito positivo.

 

Cristina Fritsch sorri, em pé, com livros atrás
“As novas tecnologias causaram um grande choque, uma ruptura que é um desafio”

 

DIÁRIO: Como está o mercado das agências de viagem hoje?

Cristina Fritsch: Tivemos uma mudança muito grande no cenário. Mudou muita coisa. As novas tecnologias causaram um choque grande, uma ruptura que é um desafio. O Airbnb, por exemplo, atrapalhou a hotelaria. Os aplicativos, ferramentas, vendas online, Booking, Decolar, tudo isso atrapalha nossa vida.

DIÁRIO: Você é a favor da taxação do Airbnb?

Cristina Fritsch: Acho que sim. Em Nova York e muitas outras cidades, você pode fazer o aluguel da sua casa, mas é taxado. É imposto que entra para a cidade, que precisa dele. O hotel paga imposto, não paga?

DIÁRIO: O Rio recebe muito mais mineiros do que franceses. Por que nos preocupamos em divulgar muito mais o Rio na França do que em Minas Gerais?

Cristina Fritsch: O turismo doméstico é importante, e por isso me preocupei muito em andar pelo nosso Estado. Em vez de fazer uma feira Abav na cidade do Rio, temos o programa Abav Visita. Eu saio do Rio, com vários operadores, convido hotelaria, seguros de saúde, e levo para o interior do Estado. Fazemos um workshop no interior, é uma forma de eu estar com nossos associados em diversos municípios.

Esse ano o programa vai ser em Juiz de Fora, junto com a Abav de Minas. Vamos depois a Petrópolis fazer toda a região de serra, com Teresópolis e Nova Friburgo. Depois a gente tem Volta Redonda, Barra Mansa. Temos Niterói. Nós fazemos a Barra da Tijuca também. Hoje ninguém quer sair da Barra da Tijuca, então vamos para lá com os operadores.

DIÁRIO: Que mensagem você deixaria para o jovem carioca que deseja trabalhar no mercado do turismo?

Cristina Fritsch: Estude. Existem muitas oportunidades de turismo na cidade, e a gente tem que se preparar para isso. Durante esses anos na Abav, o que mais trabalhei foi na qualificação dos agentes de viagem. Fui buscar um convênio com a UFF,  colocamos um MBA de Gestão e Turismo da UFF dentro da Abav. Um sucesso danado. Então o que eu posso dizer para vocês é: estudem!

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