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Crab: Um choque de profissionalismo no artesanato brasileiro

Arquiteta Heliana Marinho, coordenadora do Crab, aponta estados brasileiros e cidades fluminenses onde o artesanato está quase pronto para se profissionalizar e ganhar dinheiro como gente grande.

9 de dezembro de 2018
Heliana Marinho, coordenadora do Crab

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Heliana Marinho comanda o Crab
Heliana Marinho comanda o Crab (Fotos A. Filho)

É isso mesmo. O Brasil tem mercado e criatividade suficientes para abandonar a ideia de que artesanato é só um meio de sobrevivência de “coitadinhos”. Empreendedores estão perdendo uma boa oportunidade de ganhar dinheiro com uma atividade que, segundo o IBGE, movimenta R$ 50 bilhões no país. A opinião forte é da arquiteta e urbanista Heliana Marinho. Trata-se da comandante do único Centro de Referência do Artesanato Brasileiro. Com instalações de primeiríssimo mundo em três construções históricas da Praça Tiradentes, o Crab existe para mostrar aos brasileiros e aos estrangeiros a riqueza que o Brasil faz à mão.

Ator Lázaro Ramos no Crab
Ator Lázaro Ramos no Crab

Quem pensa que vai encontrar no Crab havaianas com miçangas ou panos de prato de gosto duvidoso precisa pegar o VLT para a Praça Tiradentes com urgência. Foi o que fez o DIÁRIO DO PORTO.  Sabe quem encontramos? O ator Lázaro Ramos, frequentador, comprando criações do mineiro Willi de Carvalho. O pessoal do Crab está acostumado com celebridades e estrangeiros atrás de peças que brasileiros deveriam valorizar mais. Especialmente os empreendedores. O Brasil não tem, por exemplo, e-commerce de artesanato. “É preciso avançar nos instrumentos capitalistas”, diz Heliana.

Com a autoridade de quem tem mestrado em administração pública e doutorado em administração empresarial – com uma tese sobre o artesanato -, a coordenadora do Crab aponta quatro polos de artesanato de qualidade no estado do Rio de Janeiro e afirma que “o mercado tem que ser mais profissional, não pode ser o mercado mambembe”. Vamos à entrevista.

 

DIÁRIO DO PORTO: Qual a diferença entre arte e artesanato?

Heliana Marinho: É um pouquinho sutil. A arte, de modo geral, impacta muito a emoção das pessoas. Já o artesanato, também no senso geral, é algo ligado à funcionalidade. Normalmente se traduz em objetos decorativos, funcionais, palpáveis, de uso das pessoas. Ele tem uma função, mesmo que ela seja estética, decorativa. A Arte não tem uma função tangível, é algo que vai impactar sua emoção. Você gosta ou não, em função da sua emoção. Do artesanato você gosta muitas vezes em função da sua natureza de ser um objeto de uso comum. Não é simples explicar, mas basicamente é isso. Uma é guiada pela emoção, a outra pela utilidade.

O que você acha do artesanato brasileiro?

O DIÁRIO foi ao CRAB – Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro entrevistar a coordenadora, Heliana Marinho, e encontrou por lá o Lázaro Ramos, "gastando uma grana" com obras do Willi de Carvalho. É claro que pedimos uma palhinha, e ele mandou um recado pra galera que lê o DIÁRIO: vale a pena conhecer o CRAB. #LázaroRamos #ArtesanatoBrasileiro #Crab #SebraeRio

Publicado por Diário do Porto em Segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

 

DIÁRIO: A função do Crab é ser um marco para a consideração do artesanato como algo nobre?

Artesanato no Crab
Artesanato no Crab

Heliana: É a crença do Crab. Uma das razões que nos levaram a fazer um centro de referência é a crença de que é possível requalificar o artesanato brasileiro. Hoje ele é tratado como algo que gera emprego e renda para pessoas que muitas vezes fazem trabalhos manuais como solução de sobrevivência, e não como produto qualificado na fronteira entre o design e a arte popular.

Há uma diferença também entre o que a gente chama de artesanato. O que é muito vinculado a uma geração rápida de renda é mais ligado à manualidade, a uma função social. E o artesanato ao qual o Crab dá visibilidade é o que tem a alma brasileira, muita relação com a arte popular e o design. É o artesanato qualificado. Acreditamos que, para que ele fosse mais visto e cobiçado, era fundamental ter algumas ações para qualificá-lo e colocá-lo à disposição das pessoas.

O Crab é alicerçado em crenças. Uma delas é de que esse artesanato precisa ter um valor de mercado muito forte. Para isso, temos a loja. Outra crença é de que ele precisa ter uma contínua requalificação. Por isso, trabalhamos o conhecimento, a pesquisa, as informações. E acreditamos que o artesanato possa ser esse objeto de desejo, através das exposições. Esses três focos se complementam. Toda exposição tem uma curadoria bastante especializada. Ela nos permite ter produtos sofisticados e de melhor representação do artesanato brasileiro na loja. Essa ponte entre mostrar esse artesanato incrível com a loja é fundamental.

É o único centro de referência do artesanato brasileiro. Discutimos muito com especialistas, dentro e fora do Sebrae, sobre o que é ser um lugar de referência. É o lugar onde as pessoas percebem do ponto de vista sensorial e de convivência com o produto que aquele artesanato é interessante. Também é um lugar que oferece informações básicas e conhecimento mais estruturado para pesquisadores e público.

 

DIÁRIO: Qual é o quesito que uma peça precisa preencher para entrar no Crab?

Heliana: Esse artesanato não é trabalhado como uma peça de uma região ou um grupo. Ele é identificado a partir de uma informação de identidade. A identidade brota para nós através de temas. Por exemplo, fizemos uma exposição chamada “Origem vegetal”. A gente expôs e vendeu mais de 1.200 produtos em sementes, fibras, madeira. Nosso corte era o de mostrar que o insumo natural que pode gerar excelentes produtos. Eles vieram de várias regiões. Então não foi uma busca pela região que faz o produto. Foi o inverso: o produto que atendia a um critério temático no qual queríamos focar.

Artesanato no Crab
Artesanato no Crab

A última exposição foi “Festa brasileira, uma fantasia feita à mão“. Foi para mostrar o artesanato que estava por trás das festas populares. Trouxemos o artesanato que está por trás do Boi, todos os processos, insumos e produtos correlatos gerados. Desde as festas tradicionais, como o Boi, Reizado, Congada, até festas indígenas, trazendo todo esse fazer que está por trás. Além de trazer produtos e organizá-los nessa temática, montamos um espaço para filmes, apresentando o processo de fazer o Carnaval, mas basicamente o processo que o serralheiro, a costureira, o pintor, como é feito e se transforma no produto que vai para a Avenida.

Aí a gente quebra esse paradigma de que todo artesanato é um produto acabado. Existem processos de fazer o artesanato. A próxima exposição se chamará “Que mestre é esse?“. Vai trazer os mestres de ofício, o pensamento artesanal que concebeu o Brasil. Teremos Gilberto Freire, Mário de Andrade, Lina Bo Bardi, Janete Costa. Até os mestres de ofício como serralheiro, mestre padeiro. Isso tudo é um saber artesanal. No fundo, estamos caminhando para mostrar que existe uma formação para o artesão que o Brasil não tem. Existe a necessidade de estruturação dessa formação, que gera produtos de alta qualidade.

 

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DIÁRIO: O mais importante para profissionalizar o artesanato brasileiro é a formação?

Heliana: Sim. O artesanato brasileiro não é profissional. Muitas vezes ele é inter-geracional, como no Vale do Jequetinhonha. Ali você tem uma comunidade que trabalha com barro, e essa herança vai ficando. Tem o Alto do Moura, no Recife, que tem aquele trabalho de dar vida àqueles bonequinhos. Você tem alguns núcleos, mas não existe um processo formativo mais formal, como em outros países.

 

DIÁRIO: Por exemplo?

Heliana: A França. A formação de um artesão na França equivale a um curso técnico. São muitas horas de estudo. Você tem uma carga horária na qual, em três anos, ele vai ser especialista em uma técnica. A partir dessa técnica, ele gera o produto. A formação brasileira visa pouco a técnica e tem foco no produto. O não educacional é a oferta de oficinas para que a pessoa domine uma técnica e, a partir daí, melhora-se o produto, às vezes com investimento grande, mas a técnica não foi aprendida.

A França, o Reino Unido, a Colômbia, a Espanha, o México. Aqui a gente não tem escola de artesanato. Tem oficinas vinculadas a algumas instituições. O Sebrae, por exemplo, oferece muitas oficinas. Mas esse trabalho mais formativo, em que o artesão dedica anos para dominar uma técnica, é fundamental. O artesanato, mesmo que dialogue com a fronteira da arte popular e do design, precisa de uma técnica.

 

DIÁRIO: Se não houver isso, começa tudo do zero, a todo momento?

Heliana: É isso o que acontece. A gente já faz no Brasil a modelagem de uma oficina muito interessante. Você identifica um grupo de uma comunidade e coloca um design de renome. Ele fica imerso uma semana, trabalha aquele grupo, desenvolve protótipos. Mas, quando esse designer sai, muitas vezes ele leva aquele conhecimento. Ele vem com uma técnica, uma matéria prima que não necessariamente existe ali no local. Alguns têm continuidade, mas a maioria não tem. Então, fica muito difícil.

 

DIÁRIO: Muitas pessoas que consomem arte veem o artesanato de forma depreciativa. Isso acontece por preconceito, pela qualidade do nosso artesanato ou pelos dois?

Heliana Marinho em escadaria do Crab
Heliana Marinho em escadaria do Crab

Heliana: Acho que tem três coisas. Tem um preconceito. pois o Brasil tende a associar o artesanato a uma saída rápida para a geração de renda. Isso gera um preconceito porque são sempre produtos “coitadinhos”. É como se o artesanato nunca tivesse qualidade, existisse apenas porque vai ter uma subsistência a partir dele. Esse é um preconceito que não melhora a situação.

Existe também o desconhecimento. As pessoas não conhecem o artesanato brasileiro. Temos coisas incríveis. A terceira questão é que não há formação de artesão. O programa da França, por exemplo, é interessante porque eles têm uma formação para ter o domínio da técnica. Você vai ser bom em couro, em reciclável, em linhas, em serralheria. Vai ser um especialista. Fica aprendendo a técnica e, ao final, eles têm uma possibilidade de imersão entre esse profissional recém-formado e o mestre, que o recebe no ateliê e finaliza a formação, avaliza. Então, aquele formando vira um artesão.

O Brasil não tem um critério para maestria. O mestre, lá fora, é alguém que está no fim da carreira, que tem um domínio e plenitude sobre uma técnica, que tem reconhecimento. Então, ele recebe o artesão para finalizar a formação. É aquele modelo quase medieval da guilda, na qual um mestre assumia a responsabilidade e avalizava a formação de quem chegava. Tinha o saber, passava o saber e dava o selo de que o profissional tinha o domínio.

 

DIÁRIO: O Rio é uma das cidades mais criativas do Brasil. Por que as feiras de artesanato são tomadas por produtos tão fracos? A feirinha de Ipanema tem produtos em escala e repetitivos. A feirinha do Posto 5 da Avenida Atlântica também. O que acontece?

Heliana: Tem muito produto chinês, biscuits, souvenirs. Na raiz disso está o desconhecimento e uma falta de identidade do produto que está sendo vendido. Essa é uma frente na qual o Crab pode atuar. Não nas feiras, pois as feiras são as feiras. O artesanato não necessariamente precisa estar ligado a uma feirinha, aí é uma depreciação. A de Ipanema tem raros produtos de artesanato. A maioria é de camisaria, souvenir chinês. Você trouxe uma questão importante. O artesanato não tem escala, é feito à mão, cada produto é diferente do outro, é difícil compor uma forma ou fórmula para fazer tudo igual. Quando isso acontece, ele passa a ser souvenir.

 

DIÁRIO: Mas é possível transformar um artesanato em souvenir de qualidade, não?

Heliana: É muito possível. Aqui no Sebrae fizemos um projeto antes do Crab chamado Souvenir Carioca. O souvenir existe, e pessoas gostam de comprar. Desenvolvemos uma linha de produtos com designers, artistas, artesãos, que respirassem o Rio de Janeiro. Outro problema dessas feirinhas que você citou é que não se encontra nada que seja a alma do Rio. Você compra, mas não é Rio, você pode comprar aquilo em qualquer lugar.

 

DIÁRIO: O artesato pode virar souvenir mas não precisa ser ching ling, é isso?
Heliana: Não precisa. Quando vira souvenir, ele deixa de ser artesanato, passa a ter escala, aí é diferente.

 

DIÁRIO: Existe um mercado para o artesanato no mundo corporativo que é pouco aproveitado?

Heliana: Sim. As corporações podem realmente comprar mais artesanato, mas esse artesanato precisa ser apresentado a elas.

 

DIÁRIO: Que tipo de artesanato é mais propício a isso? Dê um exemplo.

Artesanato no Crab
Artesanato no Crab

Heliana: Em Minas Gerais, por exemplo, se uma grande corporação como a Vale desse como brinde ou como presentes para os funcionários aquelas bonecas incríveis do Vale do Jequetinhonha. Assim, você estaria legitimando a localização da empresa, gerando renda para quem faz aquele trabalho de qualidade e disseminando-o. Em Alagoas, você tem as cabeças de Irinéia, são todas diferentes umas das outras e todas são a cara dela, é um alter-ego impressionante.

 

DIÁRIO: Como é o mercado do artesanato no Rio de Janeiro?

Heliana: Não temos um artesanato muito tradicional. O Rio de Janeiro é muito cosmopolita, e o artesanato se diluiu bastante. Temos alguns pontos em algumas cidades com artesanato mais interessante. Por exemplo, se você vai a Paraty, tem aquelas lojinhas com produtos chineses, aquelas ararazinhas. Aquilo não é feito no Brasil. Alguns são feitos em São Paulo, onde tem uma cidade especializada em fazer souvenir empurrado como artesanato.

 

DIÁRIO: É uma China em São Paulo?

Heliana: (risos) Isso. É uma escolha do lugar. Mas existe em Paraty um núcleo incrível de cerâmica, uma cerâmica sofisticada, com toda condição de ser trabalhada para exportação. E poucas pessoas conhecem. Lá, eles têm uma escola de formação de ceramistas. Portanto, é completamente diferente da cerâmica que tem aqui perto de Niterói, que a gente vê nas estradas. Aquilo é manufatura. São produtos que muitas vezes você não quer nem ver. Tem produtos que são muito duvidosos. A de Paraty, ao contrário, é uma cerâmica com alma, outra coisa.

 

Polos fluminenses: ‘Paraty, Casimiro, Cabo Frio e Rio de Janeiro’

 

DIÁRIO: O artesanato de Paraty é o melhor que temos no Rio?

Heliana: Estou citando como exemplo. Outro é na região de Casimiro de Abreu. É uma região endêmica em pés de bananas. Lá tem quase uma fábrica de trama de fibra de bananeira. A gente já levou compradores italianos lá, muitos compradores. Eles (os artesãos) precisavam querer transformar aquela potencialidade em um produto que o mundo queira comprar. Mas, em vez disso, ficam reféns dos trabalhos de assistência social da Prefeitura. Então você vê tramas muito bem feitas de fibra de bananeira, mas com acabamento em materiais que, imediatamente, desvalorizam o produto.

 

DIÁRIO: E aí os gringos não compram?

Heliana: É muito difícil. Os gringos queriam comprar painéis. São muito interessantes para paredes, teto, revestimento. Tem um grande mercado. Mas falta acabamento e falta a eles querer vender para este mercado. Tem que se adequar a requisitos de qualidade, de entrega, de tratamento da matéria prima. Significa investir e profissionalizar quem domina a técnica mas não consegue transformar em produto sofisticado. Hoje fazem chapéus, bolsas, esteira de praia. É um mercado super descartável, você passa ali, compra, vai à praia, nem leva para casa. São vários núcleos em Casimiro. No melhor sentido, poderia ser quase uma fábrica de artesanato.

 

DIÁRIO: Algum outro exemplo no Estado do Rio?

Heliana: Em Cabo Frio temos alguns artesãos que trabalham com osso de animais. É um trabalho lindo, absolutamente sofisticado. Transformam em joias, em acessórios fabulosos. Eles adaptam as ferramentas, usam o motorzinho com broca do dentista, saem adaptando. As ferramentas o artesão tem que inventar, não há um mercado de ferramentas feitas para ele.

 

Brinco de Heliana: prata com jarina
Brinco de Heliana: prata com jarina

DIÁRIO: Bijuteria é artesanato?

Heliana: Bijuteria é mais manual, né? Você compra conchas, miçangas, e sai fazendo aquilo. A gente não considera artesanato. É feito à mão.

 

DIÁRIO: O seu brinco é bijuteria ou artesanato?

Heliana: Este é um artesanato, uma mistura de prata com uma semente do Norte, a jarina. É feito por uma artesã incrível com um ateliê fantástico no Rio, a Monica, que trabalha com coisas bio.

 

DIÁRIO: Então é uma joia?

Heliana: É uma joia. Tem um valor de mercado enorme. Tivemos aqui na loja um produto muito incrível, que era prata com espinhos de cactos. O artesão e o designer, juntos, descobriram uma forma de juntar e colocar algum tipo de suporte de prata para ser vendido. Um brinco de cacto desses era R$ 700. Vendeu tudo, principalmente para os estrangeiros, que por incrível que pareça sabem valorizar isso.

 

DIÁRIO: Qual é o perfil dos frequentadores do Crab?

Heliana: Já fizemos duas pesquisas. Eles têm uma escolaridade muito alta, expectativa de encontrar produtos de muita qualidade. Além disso, vêm aqui porque sabem que tem o que querem comprar. Muitos são estrangeiros. Há pouco tempo ganhamos um selo de qualidade do Trip Advisor, que nos surpreendeu. É uma coleta de opiniões em 200 sites internacionais. Esse tipo de surpresa mostra que estamos no caminho certo, de contribuir para a requalificação e para a comercialização do artesanato, mas, principalmente, contribuir para o conhecimento de que isso existe.

 

“Alguém tem que assumir o e-commerce”

 

DIÁRIO: É possível, para um empreendedor, investir em artesanato?

Heliana: É muito possível. Por exemplo, existe todo um mercado possível que é o e-commerce. Alguém tem que assumir o e-commerce, não é o Sebrae que vai ter uma loja virtual. Isso é tipicamente um lugar de investidor e empreendedor, que não tem no Brasil. O que podemos fazer é indicar para este investidor quais são os grupos que estão legalizados, que entregam, que têm nota fiscal, que têm qualidade, porque passaram pela nossa curadoria.

Nós estamos pensando em fazer um modelo de certificação. Trabalhamos com vários grupos de vários estados. Já temos 90 grupos que são entregadores, onde investimos na formalização, na melhoria do produto, na capacidade de logística. Eles dão nota fiscal. A gente só recebe produtos formalizados, o que é um desafio.

 

DIÁRIO: Em quais estados este processo está mais consolidado?

Heliana: O Piauí é um estado que avançou muito. Até porque não tem muitas indústrias. A atividade artesanal tem muitos investimentos, é muito reconhecida. A Paraíba também. Santa Catarina é um estado que trabalha o artesanato, a formalização, o desenvolvimento de maneira muito profissional. Tem muitos grupos legalizados. Tem que saber emitir a nota, tem que ter prazo de entrega, estar comprometido com a entrega. Eu diria que esses estados estão muitos preparados. Minas Gerais também.

 

Heliana Marinho no Crab
Heliana Marinho no Crab

DIÁRIO: O Rio não está entre os estados mais avançados?

Heliana: Não, mas ficará. Voltando à questão de o Rio ser cosmopolita, é possível, apesar disso, identificar artesanato de qualidade. Mas é muito pulverizado. Eu citei Paraty, Casimiro, Cabo Frio e também a cidade do Rio, no ramo de biojoias. Existem outros núcleos. Fizemos ano passado uma chamada para novos grupos no Rio. Identificamos 60 com perfil de investimento a longo prazo. A partir de um convênio que o Sebrae fez com o Instituto Europeu de Design, eles participaram seis meses de oficinas de melhoria do produto onde tudo é discutido, a questão do planejamento, da logística, do marketing.

Mas o principal foco era o design do produto. Porque produto sem design é impossível, não tem coração afetuoso que consiga vender. Esses 60 novos grupos passaram por uma trilha de capacitação aqui no Crab. Então a gente passa a reorientar o trabalho de artesanato. Assim você começa a ter uma massa interessante eno Rio de Janeiro para oferecer para o mundo.

 

DIÁRIO: A informalidade, ao mesmo tempo em que isenta o artesão de pagar imposto, reduz o acesso a fontes de financiamento e promoção. Como aumentar a formalização desse mercado? Se o IBGE estima em 8 milhões de pessoas, uns 7,5 milhões devem ser informais, no mínimo?

Heliana: A legislação do Micro Empreendedor Individual (MEI) caiu como luva no universo do artesanato. Muitos se formalizaram e são MEI. Essa adesão mostrou que era romântico o sonho de que os grupos só trabalhavam vinculados a associações, cooperativas, de um trabalho mais coletivo, fraterno, um mundo paralelo. Esse mundo paralelo não existe. O que existe é o mundo no qual as pessoas precisam ganhar dinheiro e sobreviver a partir do artesanato.

Existe uma confusão grande no Brasil em dois pontos. Um é a carteira do artesão, que os governos de Estado podem emitir. É uma confusão enorme, tem estado que emite, tem estado que não emite. A carteira do artesão permite que ele participe de feiras e venda seu produto. O que nós pensamos disso? Quando o artesão é o próprio vendedor do que ele faz, durante um bom período não está produzindo. Está vendendo. Assim, está perdendo mercado, não está ganhando. Portanto, é preciso que ele tenha uma estrutura onde a oficina dele não pare, e ele consiga comercializar.

A legislação da carteira do artesão é muito vinculada a um programa federal, o PAB, que muda de ministério a todo momento. Ultimamente ele estava no da Indústria, Comércio e Tecnologia. Esse programa cria um sistema com todos os governos estaduais. Como em todo sistema que é federal, alguns estados conseguem desenvolver bem, outros não. Mas é uma ação que se confunde muito com ação de desenvolvimento social. Na maioria das vezes, tem um artesanato de baixa qualidade. Tem artesanato vinculado à Agricultura Familiar, e fica aquela coisa confusa, que ninguém sabe quem é quem. O MEI direciona um pouco isso.

 

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DIÁRIO: O MEI traz um componente mais de mercado do que assistência social?

Heliana: Isso. Outra coisa é que os estados têm condições diferenciadas para a venda do artesanato. O artesão, se vai para a feira e tem carteira, está isento de tudo. Mas qualquer lugar que comercializa tem o ICMS para pagar. Em alguns estados é de 2%, 4%. O Rio de Janeiro cobra 19%. Nossa loja é tributada em 19%.

Então, quando você entra lá e acha um produto muito caro, é porque tem o preço da logística e do imposto. O Rio de Janeiro tinha de fazer uma discussão séria em relação a isso e tomar uma decisão. Ou todo mundo é artesão com carteira de artesão, e aí não existe loja, não precisa pagar imposto, fica essa ação social. Aí você vai ter sempre um artesanato que é um sabonete de renda, uma sandália havaiana enfeitada de miçanga. Ou tudo vira pano de prato. São essas três vertentes. Isso deprime o artesanato brasileiro, que tem qualidade e precisa ter visibilidade.

 

 

Willi de Carvalho: artesanato mineiro
Willi de Carvalho: artesanato mineiro

 

DIÁRIO: Você diria que o artesanato brasileiro precisa de um choque de capitalismo?

Heliana: Nós vivemos no capitalismo e viveremos. O artesanato caminha para isso se ele for identificado como uma atividade que é produtiva, não é um benefício social. É uma atividade de produção. Ela gera renda, é um mercado, e esse mercado precisa ser melhor desenvolvido. Nesse sentido, é preciso avançar nos instrumentos capitalistas. Esse limbo nem é algo capitalista e, ao mesmo tempo, não te dá algo de qualidade para trabalhar.

Essas fronteiras são muito delicadas. Esse desenrolar da nossa conversa aponta para questões nevrálgicas no processo de produção e comercialização do artesanato. Uma boa embalagem para você sair desse benefício social, dessa coisa de coitados, de trabalhar o artesanato como a última possibilidade de quem não teve escolarização, formação, de quem não tem espaço no mercado, é você sair desse universo de coitado. O artesanato também não tem a pureza da arte. Ele é feito como um produto que tem função. Revestido de estética, de qualidade, design, que traz em seu conteúdo informação da nossa cultura, da nossa subjetividade, ele tem mercado. O mercado tem que ser mais profissional, não pode ser o mercado mambembe. Por isso nossa loja é sofisticada, mostra que o artesanato tem dignidade. É um produto digno de estar em um lugar mais estrelado.

 

DIÁRIO: Por favor, deixe uma mensagem para o artesão do Rio de Janeiro.

Estátuas na decoração do Crab
Estátuas na decoração do Crab

Heliana: É fundamental internalizar que o seu produto tem mercado e você pode viver desse produto. E que a busca de qualidade é fundamental para que esse produto seja comercializado. A qualidade tem a ver com valor estético e com a territorialidade. Por isso, um produto de artesanato que respira o lugar onde é feito tem uma agregação de valor grande. É um produto que você olha e identifica: poxa, é do Rio de Janeiro.

Hoje, se você fizer essa pergunta, você sabe identificar o artesanato que é de Minas, que é de Pernambuco, vários artesanatos, mas não consegue dizer: esse artesanato é do Rio de Janeiro. Um lugar como esse, que participou da invenção do Brasil, guarda todas as histórias, toda a arquitetura e todas as festas populares. Tem, portanto, muito conteúdo, muita informação, para ser injetado nesse produto de artesanato para ele ter outro valor de mercado.

A outra questão é a profissionalização, tanto do processo de produção quanto da logística de entrega. É fundamental que haja um comprometimento para que o comprador tenha sempre uma grande satisfação de ter comprado o produto e de o produto ter chegado como deve ser. Então, é quebrar essa ideia de que o artesanato é algo informal, sem vitalidade, sem mercado, e que vale qualquer canto para ser vendido. Não é assim. É um produto digno, que tem mercado, principalmente nesse mundo capitalista e global. A diferença do produto no mundo global é o produto singular, feito à mão, que traz territorialidade, um produto com alma.

 

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