Covid: reflexões para a terceira onda da praga | Diário do Porto


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Covid: reflexões para a terceira onda da praga

Ler pode ser uma fuga para uns; para outros, reflexão. Na coluna de hoje, Olga de Mello aborda clássicos da ficção sobre a peste sanitária – ou política

27 de março de 2021

Um ano da peste de proporções bíblicas: a reflexão dos clássicos (Deposit Photos)

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Olga de Mello

Olga de Mello

Fiquei em casa, e, pela primeira vez, tentei cozinhar. Mas a peste não se manifestou em mim. Pelo telefone podia falar com quem quisesse e saber as notícias. (…) Um terço da população nova-iorquina estava morta.(…). Um comunicado de Berlim atestava que um bacteriologista havia descoberto um soro para a epidemia. (…) Era tarde demais.

(A Praga Escarlate – Jack London)

 

Um ano atrás, esta coluna tratava de livros sobre pestes históricas com um toque fictício. Estimava-se que em três meses tudo se acabaria. Depois, disseram os cientistas, seriam três meses adiante. Veio a vacina. As mortes e internações recuaram, depois voltaram a aumentar. No Brasil, a catástrofe é de proporções bíblicas.

Ler é a fuga para tantos, mas reflexão para outros – e por isso vale a pena refletir com essas leituras. Porque não há solução milagrosa, parece. Melhor é ficar em casa, quem puder. E aguardar pacientemente. Tantos poderão ser como o protagonista da curta novela de Jack London, que sobrevive à pandemia por ter imunidade natural ao vírus. Os outros sobreviventes, na maioria, são os mais fortes da espécie.) Geralmente, também, os menos instruídos.

A Praga Escarlate

Lançada em 1916, A praga escarlate (Conrad, R$ 26) fala de uma doença misteriosa que acaba com a civilização 100 anos depois, sequência de diversas pandemias como surgida, em 1984, “num país chamado Brasil e que matou milhões de pessoas”. A Morte Vermelha aniquila dois terços da população mundial. Sobrevivente da época, o velho professor imune ao vírus conta aos netos, crianças violentas e iletradas, como as cidades eram abandonadas e os doentes se suicidavam ao perceber os sintomas. A força bruta torna-se mais necessária do que o conhecimento e, além de tomar vidas, a doença empobrece as estruturas de linguagem. Os jovens não sabem ler e se expressam com um vocabulário tosco. Uma bela metáfora para tempos que parecem estar sempre prestes a chegar.

Um diário do ano da peste (Artes e ofícios, R$ 45), de Daniel Defoe, traz o fictício relato de uma testemunha ocular sobre o surto de peste bubônica que causou 100 mil mortes em Londres no verão de 1665. Defoe, que era criança durante a epidemia, pesquisou históricas verídicas para montar o livro. Na abertura, ele lamenta a ausência de jornais de grande circulação na época em que a doença obrigou os londrinos a sacrificarem 40 mil cães e 20 mil gatos para conter a disseminação.

Um diário do ano da peste

Um dos títulos mais vendidos desde o início da pandemia na Europa é A peste (BestBolso, R$ 20,90), de Albert Camus. Publicado em 1947, visto por muitos críticos como uma alegoria para a França ocupada durante a dominação nazista na Segunda Guerra Mundial, o romance é conduzido pelo médico Rieux, que tropeça num rato morto numa rua em Orã, na Argélia.

A Peste

 

É um dos primeiros a advertir que metade da população corre o risco de morrer, enquanto autoridades hesitam em divulgar os números da doença, aproveitadores aumentam os preços de mercadorias e a população passa da apatia inicial para o desespero, confinados na cidade fechada a visitantes externos. Algo que se testemunhou no início da pandemia de covid-19.

Mais um clássico ganha requintada edição, ricamente ilustrada por Ralph Steadman, com duas apresentações do autor, George Orwell. Lançada em 1945, um mês antes do fim da Segunda Guerra Mundial, A Revolução dos
Bichos (Intrínseca, R$ 59,90) é uma fábula em que os animais expulsam o fazendeiro que os explorava e passam a negociar a produção de uma granja com outros humanos. Os porcos lideram o grupo e passam a dominar as outras espécies, obrigadas a trabalhar até mais do que na época do fazendeiro.

A Revolução dos Bichos

As movimentações políticas para a manutenção no poder leva os porcos, no fim, a se unirem aos homens. E, depois de aprenderem a ler e escrever, começam a andar sobre duas patas. A alegoria contra o totalitarismo, combatida arduamente pelo socialista Orwell, que lutou ao lado dos anarquistas na Guerra Civil Espanhola e se desiludiu com a política stalinista na União Soviética, é apresentada da forma mais simples que o autor, conhecido pelas construções linguísticas complexas, propositalmente montou.

Uma leitura que, infelizmente, não perdeu a atualidade 76 anos depois de sua publicação. Afinal, ainda hoje, como dizia Orwell, “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros”.

#fiqueemcasa

 


 

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