Covid leva Cacau Fernandes, fotógrafa da superação | Diário do Porto

Pandemia

Covid leva Cacau Fernandes, fotógrafa da superação

Vítima de acidente com carro alegórico em 2017, Cacau Fernandes morreu menos de um mês após 1ª dose da Pfizer. Conheça a história de superação da fotógrafa

13 de julho de 2021


Cacau Fernandes, de 52 anos, atuava como fotógrafa e cumpria várias ações sociais (Reprodução do Facebook)


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Em 2017, ela escapou da morte ao ser atingida por um imenso carro alegórico desgovernado na Marquês de Sapucaí. Forte e guerreira, como ressaltam os colegas, Ana Claudia Fernandes não resistiu, no entanto, à luta contra o inimigo invisível. A repórter fotográfica Cacau Fernandes, de 52 anos, morreu nesta terça-feira 13 em decorrência de complicações da Covid-19 no Hospital do Fundão, no Rio de Janeiro.

Cacau tomou a primeira dose da vacina da Pfizer em 15 de junho em um posto de sangue de Vargem Pequena, na Zona Oeste do Rio. Neste vídeo postado em seu Facebook, ela vibrava – “nem dormi essa noite” -, agradecendo ao SUS pela oportunidade de se imunizar. Quinze dias depois, entretanto, foi internada com baixa oxigenação e teve que ser intubada. Na UTI, o quadro se agravou, e ela sofreu uma embolia pulmonar. No início da tarde desta terça, teve uma parada cardiorrespiratória. Cacau deixa dois filhos, Leonam e Ana Julia, e uma neta, Mariana.

Cacau Fernandes era premiada e reconhecida como fotógrafa (Reprodução do Facebook)

A fotógrafa trabalhava pelo jornal O Dia como freelancer quando foi atropelada por um carro alegórico da escola de samba Paraíso de Tuiuti no Carnaval de 2017, na Passarela do Samba. No acidente, outras 18 pessoas ficaram feridas, e a radialista Elizabeth Ferreira Joffe, 55, morreu. Cacau ficou vários meses sem poder fotografar e, apesar de passar por duas cirurgias nos ligamentos, até pouco tempo ainda sofria com as dores no braço direito.

Mas não era só isso. Segundo a jornalista Tássia Di Carvalho, amiga da fotógrafa, Cacau era portadora de comorbidades – duas doenças raras no sangue – e se tratava no setor de Hematologia do Hospital do Fundão. As fortes dores que sentia, especialmente no braço (sequela do acidente) e nas pernas (decorrente das comorbidades), a impediam, muitas vezes, de andar normalmente e de fotografar, sua grande paixão.

 


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Exemplo de coragem

Cacau era exemplo de coragem e superação. Nascida no subúrbio carioca, foi camelô, cabeleireira, cozinheira, cuidadora de idosos, apontadora do “jogo do bicho’. Tudo para criar dois filhos. Foi com mais de 40 anos que conseguiu concluir a graduação e a pós-graduação pela Estácio. Em menos de 10 anos de carreira como fotógrafa, foi reconhecida com várias premiações e exposições, além de ser respeitada por seu olhar atento e sensível, especialmente em coberturas de caráter social.

Mas nem sempre foi assim. Cacau chegou a ouvir de colegas que deveria desistir da faculdade por não ter o melhor equipamento, nem experiência na área, além da idade considerada fora do padrão convencional entre os universitários. Não desistiu e foi tentar estágio em grandes veículos. Ainda cursando a faculdade, em 2014, foi indicada ao Prêmio Esso, o maior reconhecimento da imprensa nacional, e teve suas imagens publicadas nos anuários “O Melhor do Fotojornalismo Brasileiro” entre 2014 e 2017. Em 2017, ficou entre os 10 finalistas do prêmio Parati em Foco.

Cacau trabalhou no Dia por cinco anos e também teve imagens estampadas na Revista Veja e jornais O Estado de São Paulo, Meia Hora e Brasil Econômico. Atuava mais recentemente na agência Domínio Fotográfico e na ONG Favela Mundo; coordenava o projeto Fotógrafo Legal_RJ e fazia parte do coletivo Fotógrafos do Bem, além de participar ativamente como voluntária em vários projetos sociais e grupos de comunicadores nas redes sociais.

Apesar do enorme talento atrás das lentes e da ampla rede de relacionamentos, com a crise econômica causada pela pandemia e impossibilitada de fotografar, Cacau teve que voltar a se reinventar para pagar os boletos: dirigiu Uber, vendeu açaí, fez faxina e bico como paisagista. Apesar das dificuldades, alimentava um sonho: construir uma pousada/bistrô/galeria de artes no terreno que comprou em Paraty com a indenização do acidente.

Amigos lamentam a morte de Cacau

A notícia sobre a morte de Cacau Fernandes deixou em choque familiares, amigos e colegas de trabalho que acompanhavam seu estado de saúde nos últimos dias. Sobre ela, Tássia di Carvalho desabafou: “Perdi minha irmã! Minha melhor amiga! Companheira de várias pautas, lutas e vitórias!”.

Apesar das dificuldades, ela não abria mão de realizar seu trabalho social como voluntária, como contou a amiga, que postou uma foto de uma de suas últimas ações solidárias durante a pandemia, distribuindo alimentos no Jardim Gramacho, comunidade no antigo lixão de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

 

Cacau Fernandes, de máscara, entregando alimentos no Jardim Gramacho durante a pandemia (Reprodução de internet)

Liane Varsano, que entrevistou a fotógrafa em recente projeto com a LV Comunicações (veja abaixo), comentou: “Uma amiga para qualquer hora. Batalhadora e guerreira. Conquistou o sonho de fotografar e fazia com o coração. Fotos incríveis que vão além do foco. Aprendi muito com Cacau e foi um prazer conviver com ela. Que seja recebida com festa no céu.”