Congresso pode reconhecer Almirante Negro como herói | Diário do Porto


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Congresso pode reconhecer Almirante Negro como herói

João Cândido, o Almirante Negro, liderou 2.000 marinheiros na Revolta da Chibata, ocorrida na Baía de Guanabara, em 1910, contra os castigos na Marinha

6 de setembro de 2019

João Cândido, o Almirante Negro, em foto de 1963. Ele liderou a Revolta da Chibata (foto: Arquivo Nacional)

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Os congressistas da Câmara dos Deputados e do Senado terão a chance neste ano de redimir um erro histórico do Estado brasileiro. A pedido do Ministério Público Federal, as duas Casas poderão inscrever o líder da Revolta da Chibata, João Cândido, no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

A revolta, ocorrida em 1910 na Baía de Guanabara, foi um movimento em que os marinheiros mais humildes da Marinha do Brasil, quase todos pretos, se rebelaram contra os castigos físicos impingidos pelos oficiais.

No pedido, o procurador Julio José Araujo Junior ressaltou “a importância de João Cândido para a luta contra o racismo no Brasil, bem como o fato de que se completam 50 anos de sua morte neste ano de 2019″.

Na época do movimento, a imprensa destacou a liderança de João Cândido ao chamá-lo de “O Almirante Negro”, o que foi entendido pelo oficialato como uma provocação. Ao final da revolta, ele foi preso e expulso da Marinha.

Em 1975, João Bosco e Aldir Blanc compuseram um samba em homenagem ao líder da revolta, seis anos após ter morrido pobre e com câncer. O “Mestre sala dos mares” foi sucesso na voz de Elis Regina e do próprio João Bosco.

Em fevereiro deste ano, o MPF instituiu inquérito civil público para apurar as medidas de valorização da memória do marinheiro por órgãos municipais, estaduais e federais. O procedimento também tem por objetivo identificar os registros de João Cândido na Marinha brasileira “e acompanhar as medidas adotadas pelos entes públicos para garantir a abordagem histórica de sua trajetória”, segundo o MPF.


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Se o pedido do MPF for aceito pelo Congresso, o nome de João Cândido será incluído no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, uma publicação feita com folhas de aço, que fica guardada no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. O livro conta atualmente com 52 homenageados, figuras consideradas essenciais na construção histórica do país.

A Revolta da Chibata

Em 1910, embora proibido por decreto, o chicote continuava sendo usado para manter a disciplina na Marinha, numa clara demonstração de quanto estavam presentes a discriminação racial e social na jovem República brasileira.

Na época, cerca de 90% dos praças eram negros ou mulatos, e João Cândido, que era um dos marinheiros mais experientes, foi escolhido como um dos líderes que tentaram negociar pacificamente o fim dos castigos corporais com o ministro da Marinha e com o Governo Federal.

O movimento não foi atendido e, após uma revolta que envolveu mais de 2.000 marinheiros na Baía de Guanabara, João Cândido assumiu o controle dos principais navios de guerra, apontando os canhões para a então capital do Brasil.

“Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira“, escreveram os rebeldes no manifesto que encaminharam ao presidente Hermes da Fonseca, que, para terminar a revolta, comprometeu-se em acabar com o uso da chibata e em anistiar os revoltosos.

Os rebeldes depuseram as armas, os navios foram devolvidos, mas o Governo não honrou seu compromisso.

João Cândido acabou preso e expulso da Marinha, assim como centenas de outros marinheiros. Para sobreviver, o Almirante Negro trabalhou como estivador e no mercado de peixes que havia na Praça XV, no centro do Rio. Ele viveu seus últimos anos em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.