Como surgem os atletas: o curioso caso dos basqueteiros da Ilha | Diário do Porto

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Como surgem os atletas: o curioso caso dos basqueteiros da Ilha

Do nada, surgiram basqueteiros nas quadras da Ilha do Governador. O movimento mostra o valor olímpico de espaços poliesportivos que foram sendo abandonados

21 de julho de 2021


Estimular novos atletas pode trazer orgulho ao povo (Deposit Photos)


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Wagner Victer

Todos da minha geração sabiam que a grande atividade de lazer que nos cabia como garotos era arrumar qualquer espaço para organizar nossa tradicional pelada! Quando não tínhamos as bolas dente de leite, as chamadas courinhos ou as G18, utilizávamos até pequenos objetos como meias. Quando não havia balizas, colocávamos nossas sandálias havaianas ou até paralelepípedos delimitando os golzinhos para prática desse esporte que realizávamos descalços ou devidamente protegidos com congas, kichutes ou com os calçados vulcabrás.

Na década de 1980, o local onde moro na Ilha do Governador tinha uma área plana de terra batida conhecida como Praia do Dendê, muito utilizada para os namoros noturnos. Naquela década, foi reformulada e transformada em um parque denominado Corredor Esportivo. Infelizmente, no que realizaram a intervenção, acabaram com o tradicional campo de futebol que havia e colocaram em substituição diversas quadras que não eram de atividades esportivas tradicionais, especialmente para os jovens do nosso bairro.

Surgiu naquela empreitada urbanística e da cabeça dos iluminados arquitetos, alheios à região, uma quadra de tênis, que somente depois de décadas surgiram alguns praticantes. Também instalaram as quadras de vôlei, onde aliás a primeira mulher medalhista de ouro olímpica do país, Sandra Pires, jogava ainda como adolescente. O vôlei foi o primeiro “esporte invasor” daquele espaço e foi certamente fruto do crescente sucesso da geração de Bernard na Olimpíada de 1980 a partir da icônica virada sobre a então poderosa Polônia e o notável saque Jornada nas Estrelas.

Dentro do espírito olímpico que vivemos e no brotar natural das diversas formas de esporte, tenho recentemente notado um movimento muito interessante em uma quadra de basquete também lá instalada. Apesar de muito mal preservada, com cestas e tabelas em petição de miséria, posso observar dezenas de jovens praticando o basquete, ou seja, os tradicionais basqueteiros começaram a florescer do nada.

É muito interessante que esse movimento dos basqueteiros tenha surgido espontaneamente e não tenha derivado do nosso momento de ouro no Basquete, pois já não temos mais Carioquinha, Ubiratan, Oscar, Marcel, Marquinhos, Bial e outros símbolos que tivemos no esporte que foi vitorioso, certamente influenciados pelo movimento midiático da NBA.

O detalhe é que o nosso tradicional Clube Jequiá na Ilha, que também já foi bastante competitivo na questão do basquete, e onde tive amigos de faculdade jogando como o Paulo Couto, que até chegou à seleção, não serviu de inspiração para o Basquete do bairro que surgiu hoje.

Neste diapasão, o surgimento espontâneo de praticantes de esportes olímpicos nas praças e espaços públicos do Rio de Janeiro, e com chances de medalhas – como o Skate e até o Surf -, demonstra como são importantes as políticas de incentivo.

Assim, nesse momento que se iniciam os Jogos Olímpicos, a reflexão surge de que, se for fomentado, o espontâneo pode ir ainda mais longe. É muito importante que os poderes públicos, em especial o Governo do Estado e as prefeituras, retomem aqueles importantes projetos que estão parados, onde se colocavam núcleos esportivos de diversas modalidades para aulas gratuitas. Essa retomada incentivaria, ainda mais nesse momento olímpico, o surgimento de novos atletas para as práticas esportivas que futuramente podem trazer orgulho ao povo brasileiro.

*Engenheiro, administrador, jornalista e morador da Ilha do Governador.


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