Com baluartes, Mangueira promete emocionar Sapucaí | Diário do Porto


Carnaval 2022

Com baluartes, Mangueira promete emocionar Sapucaí

Com samba de Moacyr Luz, Mangueira resgata suas origens ao contar a história de Jamelão, Delegado, Cartola, três dos maiores baluartes da Verde e Rosa

15 de abril de 2022

Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Squel Jorgea e Matheus Oliverio, evoluem com pavilhão da Mangueira em ensaio técnico no Sambódromo (Rafael Catarcione/Riotur)

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A Mangueira está em contagem regressiva para um reencontro com a sua própria história na Sapucaí. O enredo da Verde e Rosa em 2022 homenageará a santíssima trindade da escola 20 vezes campeã do Carnaval carioca: Angenor de Oliveira (Cartola), José Bispo Clementino dos Santos (Jamelão) e Hélio Laurindo da Silva (Mestre Delegado). A história do trio se confunde com a da própria escola fundada em 28 de abril no Morro da Mangueira e que quatro anos depois conquistaria o seu primeiro título, com o enredo “Sorrindo e a Floresta”.

“O título do enredo tem os nomes que fazem deles homens comuns ligados aos saberes de Mangueira. E eu tenho olhado cada vez mais pros corpos e saberes da Mangueira, a comunidade que represento. Gosto de entender o que posso fazer com o privilégio que é dado a mim: o de escolher o que a escola vai cantar no desfile. São 321 anos de história que vamos contar na avenida”, disse o carnavalesco Leandro Vieira em suas redes sociais.

A inspiração para o enredo veio do centenário de nascimento de Delegado, celebrado em 2021. O mestre-sala, considerado o maior da história do Carnaval Carioca, tirou nota 10 em todos os 36 desfiles que fez pela Mangueira entre 1948 e 1984, ano em que se aposentou após o supercampeonato da Mangueira na inauguração do atual Sambódromo construído pelo então governador Leonel Brizola.

A homenagem traz também uma importante reparação histórica. Cartola, compositor de alguns dos mais belos sambas já escritos, e Jamelão, a voz que se tornou símbolo da escola da Avenida, não foram homenageados pela Estação Primeira em seus centenários de nascimento. Cartola fez 100 anos em 2008. Jamelão, que não gostava de ser chamado de puxador, mas, sim, de intérprete, ou cantor, em 2013.

Cartola, Jamelão e Delegado, a Santíssima-Trindade mangueirense homenageada no enredo da Estação Primeira em 2022 (divulgação/Mangueira)

E o samba-enredo em homenagem ao trio tem uma assinatura ilustre. Um dos seus compositores é Moacyr Luz, fundador do Samba do Trabalhador, e um dos mais importantes letristas do gênero em atividade no País. Luz divide a autoria com Bruno Souza, Leandro Almeida e Pedro.


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A história da Mangueira

Os mangueirenses gostam de contar que, nos carnavais antigos, seus sambistas e foliões negros não eram bem-vindos nos desfiles elegantes dos brancos. Além do preconceito racial, a turma bebia, falava palavrões, se metia em brigas e, mesmo no morro, muitos eram barrados nos blocos carnavalescos familiares.

Foi então que resolveram criar um bloco só de homens, o Bloco dos Arengueiros. É quem faz arengaria, algazarra, farra, bagunça. Estrearam nas ruas e ruelas em 1923, vestidos de mulher, arrumando briga com os outros blocos no meio do caminho. Depois de apanharem, baterem e serem presos, em 28 de abril de 1928 uniram-se a outros blocos do morro para desfilar na Praça Onze.

Passistas da Mangueira sambam na chuva no último ensaio técnico na Marques de Sapucaí (Rafael Catarcione/Riotur)

Aquela turma de bagunceiros seria consagrada como uma constelação do samba, começando pelo que hoje é considerado o maior sambista do mundo: Cartola. A união ainda contou com Saturnino Gonçalves (Seu Saturnino), Abelardo da Bolinha, Carlos Moreira de Castro (Carlos Cachaça), José Gomes da Costa (Zé Espinguela), Euclides Roberto dos Santos (Seu Euclides), Marcelino José Claudino (Seu Maçu) e Pedro Paquetá. Fundaram o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Como primeiro presidente, elegeram Saturnino Gonçalves.

Por sugestão de Cartola, adotaram as cores verde e rosa, do Rancho do Arrepiado, de Laranjeiras, lembrança dos carnavais de sua infância. Recebeu o nome de Estação Primeira porque a primeira parada do trem, que saia da Estação de Dom Pedro (a Central do Brasil) para o subúrbio era Mangueira.

Quando a Mangueira começa seu desfile, todo mundo reconhece ao longe, “pelo som de seus tamboris e o rufar de seu tambor”, como canta Chico Buarque no Hino de Exaltação à Mangueira. Única a não usar surdos de terceira e segunda, a bateria da Mangueira faz uma marcação de primeira forte. O rufar das caixas vai longe e sempre levanta as arquibancadas.

Hoje com mais de 40 mil habitantes, o Morro da Mangueira é conhecido também pelas ações sociais desenvolvidas ou inspiradas na escola de samba. Elas atendem a cerca de dez mil moradores, em parcerias com os governos federal, estadual, municipal e empresas privadas.

Após parceria com a Xerox do Brasil e a Petrobras, na década de 1990 a Mangueira também construiu uma Vila Olímpica e passou a disputar campeonatos esportivos, principalmente no atletismo e basquete.

Sexto lugar em 2020

Em 2020, a Mangueira convidou o mundo a refletir sobre a mais famosa de todas as histórias da humanidade, a de Jesus Cristo. O carnavalesco Leandro Vieira criou o enredo “A verdade vos fará livre”, uma releitura da vida de Cristo que levantou polêmicas.

Ritmista da Manguiera em ensaio no Sambódromo (Rafael Catarcione/Riotur)

O desfile foi no espírito da “história que a história não conta”, como diz o trecho do já histórico e vencedor samba de 2019. Segundo a sinopse, Jesus “nasceu pobre, e sua pele nunca foi tão branca quanto sugere sua imagem mais popular”. A escola mais querida não teve o mesmo desempenho do ano anterior, mas garantiu presença no Desfile das Campeãs, por ter ficado em 6º lugar.

Veja e cante a letra do samba-enredo da Mangueira 2022 aqui.

Angenor, José & Laurindo

Autores: Moacyr Luz, Bruno Souza, Leandro Almeida e Pedro

Intérprete: Marquinhos Art’Samba

 

Mangueira… teu cenário é poesia

Liberdade e autonomia

Que o negro conquistou (ôôô)

Mangueira… a alvorada anuncia

O legado a dinastia

A sabedoria se chama Angenor

Nesse solo sagrado o samba ecoou

Tem cantor, mestre-sala e compositor

Lustrando sapato, vendendo jornal

Chapéu de pedreiro no mesmo quintal

Três iluminados reis do carnaval

 

As rosas não falam, mas são de Mangueira

Eu vi seu Laurindo beijando a bandeira

José Clementino na flor da idade

O sol colorindo a minha saudade

 

É Verde e Rosa a inspiração

A devoção por toda nossa raiz

Quem traz a cor dessa nação

Sabe que o morro é um país

A voz do meu terreiro imortaliza o samba

E quem guardou com amor o nosso pavilhão

Tem aos seus pés a nossa gratidão

 

Só sei que Mangueira

É um céu estrelado

Não é brincadeira

Sou apaixonado

A Estação Primeira

Relembra o passado

Valei-me Cartola, Jamelão e Delegado


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