Clube Empreendedor: 'Carioca trabalha mais do que paulista' | Diário do Porto

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Clube Empreendedor: ‘Carioca trabalha mais do que paulista’

Diretor do Clube Empreendedor, Rafael Ponzi diz que a maior dor de quem empreende no Rio de Janeiro é a burocracia. Ele dá um chega pra lá nos paulistas.

18 de dezembro de 2018


Ponzi: tudo começou no Whatsapp


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Rafael Ponzi, diretor-executivo do Clube Empreendedor
Rafael Ponzi, diretor-executivo do Clube Empreendedor (fotos A. Filho)

O edifício Novocais, número 86 da Avenida Cidade de Lima, destoa da calmaria ao redor. Não só porque em suas lajes corporativas fica a Odebrecht, uma das maiores investidoras do Porto Maravilha. A agitação já começa no térreo mesmo, onde uma arquitetura amigável de fotos e prateleiras vazadas abriga jovens inquietos – e barulhentos – do Clube Empreendedor.

O clube surgiu há dez meses de um grupinho no whatsapp de pessoas cansadas do desânimo com a crise no Rio. Queriam trocar ideias sobre empreendedorismo, inovação, tecnologia, startups. E acabaram criando um “ecossistema” de tipos cheios de energia. À frente da turma está Rafael Ponzi Ribeiro, 34 anos, publicitário que também é empresário, é administrador, é gestor de projetos, é político – foi candidato pelo PSD a deputado estadual -, é apresentador de programa de rádio, e por aí vai …

Em menos de um mês no Porto, Rafael já parece nativo da região. Vendeu o carro e, todo dia, pega o 473 na Lagoa para chegar ao Santo Cristo. O grupo de Whatsapp foi crescendo, e hoje ele se vira nos 30, com outras cinco pessoas, para administrar curiosidades e ansiedades de 4 mil membros no Clube. Para participar do chat e ter acesso aos cursos e encontros, basta se cadastrar pelo aplicativo (Google Play e Apple Store). Mas eles acabam de lançar um cartão premium, por R$ 49,90 mensais, que dá desconto nas atividades, aluguéis das salas de reunião e do co-working.

A equipe do DIÁRIO DO PORTO encontrou o Rafael empolgado. “Somos a maior plataforma de empreendedorismo do Brasil!” Ele não tem dúvida de que “o Rio tem jeito”, anima-se ao falar de empreendedorismo em áreas mais pobres e, mesmo admitindo que os paulistas têm razão ao reclamar da pizza no Rio, dá um chega para lá: “Os cariocas trabalham muito mais.”

 


 

Rafael Ponzi, Clube Empreendedor
Ponzi: tudo começou no Whatsapp

DIÁRIO DO PORTO: O Rio passa por crise muito forte, com elementos estruturais e conjunturais. Isso aqui tem jeito?

Rafael Ponzi Ribeiro:Com certeza tem. O Empreendedorismo é o jeito. Costumo dizer uma frase famosa: o que a Revolução Industrial foi para o século XX, o empreendedorismo é para este século. Pessoas estão abrindo empresas, falando sobre tecnologia e inovação. É esse o jeito de alavancar, mudar as relações trabalhistas no mundo. Esse é o jeito, e o Brasil está começando a caminhar bem. Temos muitas empresas unicórnio, que logo batem em 1 bilhão. A agente está conseguindo fazer e faz bem.

 

DIÁRIO: Tem algum dado para comprovar que você não está sendo otimista demais com o Rio?

Ponzi:Tem! Por exemplo, o crescimento do Porto é um dado de realidade. Todas as cidades do mundo demoraram 10 anos para revitalizar e dar vida própria a áreas como essa. Estamos vendo isso também. Tem pouco tempo que se reformou o Porto Maravilha, e está caminhando bem. Isso aqui será um polo de inovação. Startups estão surgindo cada vez mais, o ecossistema de empreendedorismo está se retroalimentando. Espaços de coworking estão surgindo cada vez com mais empreendedores.

 

Edifício Novocais
Edifício Novocais, onde fica o Clube

DIÁRIO: Por outro lado, há muitos empreendimentos frustrados, prédios não ocupados, novos empreendimentos parados. Como sair dessa paralisia?

Ponzi:Demora para um porto ser revitalizado. Em todos os países é assim. O centro da cidade do Rio está inchado, a estrutura é mais antiga. Aqui no Porto tudo foi feito com muita tecnologia. Dá para abrigar centros de tecnologia e startups que trabalham inovação. Tem internet, prédios bons, estrutura, tudo, consegue receber essas startups para investir em tecnologia e inovação. Não tem outro jeito. É aqui no Porto que o pessoal virá pra começar a trabalhar nisso.

 

DIÁRIO:Você acha possível desenvolver o Porto nesse ritmo de construção de prédios comerciais ou acha fundamental ter projetos residenciais?

Ponzi:Acho fundamental ter projetos de moradia no entorno. É importante virem as empresas, mas é importante ter investimento nas moradias. Isso dá vida para o local, até para movimentar o mercado local, começar a vir mais gente para cá.

 

DIÁRIO: O Clube Empreendedor tem alguma informação sobre projetos residenciais para o Porto?

Ponzi:Extra-oficialmente ouço falar que setores públicos estão vendo formas de melhorar as moradias que estão aqui e ocupar prédios abandonados. Existe esse movimento, estou torcendo para dar certo.

 


“A burocracia é a grande dor do empreendedor no Estado do Rio de Janeiro”


 

DIÁRIO: A visão do empreendedor no Brasil está muito ligada a grandes empresas. Não temos uma cultura de empreendedores sem capital próprio. O empreendedorismo social, por exemplo, é incipiente. Vocês têm sido procurados por pessoas com porte menor?

Ponzi:Isso está crescendo. Há dois tipos de empreendedores. Há o que faz isso por estilo de vida, que procura provocar uma mudança significativa para a sociedade. Não só para ele prosperar, mas para fazer diferença na sociedade. E tem aquele que empreende para sobreviver. Isso está crescendo muito com a crise. Agora, o tipo de empreendedor que está querendo sobreviver começa a entender o que é o empreendedorismo, está virando a chave para se tornar alguém que quer realmente construir alguma coisa mais em prol da sociedade e fazer diferença. Os que estão nessa batida de fazer a diferença já estão enxergando mais a questão social também.

São eles os que mais nos procuram. A gente consegue intermediar relações de empreendedores, desde o que faz uma pipoca diferenciada ao grande empreendedor que deseja abrir uma empresa com filiais, por exemplo. São vários tipos, e todos estão chegando. O crescimento do Clube Empreendedor é uma prova viva de que as pessoas precisam estar conectadas ao ecossistema e precisam de ajuda. Nem que seja para serem ouvidas por outros empreendedores e que possam fomentar suas ideias. A pessoa precisa ver se a dor dela dela é uma dor dos outros empreendedores também, se é uma dor do ecossistema.

 

Ponzi defende a aprovação da Lei de Inovação
Ponzi defende a aprovação da Lei de Inovação

 

DIÁRIO: Quais são as dores mais comuns entre os empreendedores?

Ponzi: É a burocracia. Essa é a grande dor do empreendedor aqui no Estado do Rio de Janeiro. Eles ainda têm dificuldade na legalização, nos trâmites burocráticos mesmo. Por isso, trouxemos aqui para o Clube Empreendedor uma empresa de contabilidade, para ajudar os empreendedores do Clube. Não só contabilidade, como área jurídica, assessoria de imprensa e outras. A gente não está incubando nem acelerando empresas, isso vai ser feito em outra fase. O que a gente faz é dar essa assessoria para ele entender um pouco mais, como emitir uma nota, coisas bem simples.

 

DIÁRIO: É possível diminuir a burocracia no Brasil?

Ponzi: Não só no Brasil. Há um movimento mundial para reduzir a burocracia, com inovação, gestão. É algo que está surgindo agora com os millennials, as startups. Tem acontecido muita coisa para desburocratizar, é nisso que eu acredito. Com tecnologia, por exemplo. Se você for no setor público legalizar sua empresa, vai demorar bastante tempo. Com a tecnologia, aplicativos e novas ferramentas, consegue acelerar de forma segura e rápida. A tecnologia ajuda nisso.

 


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DIÁRIO: No Porto há um fenômeno social, o das favelas nas quais há dificuldade de urbanização, atendimento a questões básicas de cidadania. Nesses lugares também é possível ter empreendedorismo?

Ponzi:Com certeza. É o local onde a gente mais vê os empreendedores trabalhando. Nas comunidades há muitos empreendedores. Dos dois tipos. Não só os que estão lá por uma causa, para mudar a sociedade, mas também o empreendedor que precisa sobreviver. Eles se dão muito bem. Como é, literalmente, uma comunidade, sabem como se ajudar. Eu dou aula de empreendedorismo em algumas escolas públicas e vejo que eles têm isso dentro deles, o empreendedorismo. Só falta saberem quais são as ferramentas certas para alavancarem. Isso que é legal no empreendedorismo social. E é o que o Clube Empreendedor vai fazer um pouco mais à frente: dar as ferramentas para eles alavancarem os negócios deles.

 

DIÁRIO: Você tem exemplos de empreendedores nas favelas?

Ponzi:Conheço muitos. Conheço um professor que dava aula de graça de futebol no Vidigal e hoje ele tem uma escolinha. É um grande empreendedor. Tem também o famoso caso do empreendedor que vendia água e hoje dá curso em Harvard, faz propaganda para um banco.

 

DIÁRIO: A violência é um obstáculo para o empreendedorismo no Rio?

Ponzi:Um grande obstáculo. A violência trava as pessoas. No entanto, ao mesmo tempo em que é um obstaculo para que o empreendedorismo vá mais fundo, o empreendedorismo gera soluções. Pode estimular a busca de solução pelo empreendedor, então cria-se um negócio. Por exemplo, se há muita violência em certa área da cidade, o empreendedor cria uma ferramenta para resolver aquele problema. Qualquer problema de uma cidade, o empreendedor consegue resolver. Esse é o verdadeiro empreendedor. Diante de um problema, ele quer criar algo para empreender na área e também fazer a diferença, ajudar seu ecossistema, sua sociedade.

 


‘Quem não vier agora (para o Porto) vai querer vir depois e não vai conseguir’


 

DIÁRIO: Para quem trabalha aqui no Porto, o que mais faz falta no dia a dia?

Ponzi:Estou há pouco tempo, mas sinto falta de um comércio mais ativo. Acho que isso vai melhorar com o tempo, as pessoas vindo para cá. Eu já almoço atrás do prédio, e aqui na frente tem vários barzinhos pequenos com comida caseira. que eu adoro. Aquele franguinho com farofinha, coisa bem caseira. Já tem alguma coisa, mas precisa dar uma ampliada.

Falta gente vindo para cá. Ninguém vai abrir um grande empreendimento aqui se não tiver gente para comprar. A gente espera que venham cada vez mais empresas para cá. Elas estão vindo. As pessoas pensam muito em trazer as grandes empresas, âncoras, para fomentar mais rápido. Mas, se isso não acontecer, não tem problema. Isso vai vir de modo natural e orgânico. Mas quem não vier agora vai querer vir depois e não vai conseguir. Melhor vir logo, hein? (risos).

 

DIÁRIO: Em quais segmentos o empreendedorismo está mais avançado no Rio?

Ponzi: O forte no Rio de Janeiro é o setor de serviços. Turismo, eventos, isso é o que o Rio é bom em fazer. Muitos empreendedores querem impulsionar o setor de serviços ligados a turismo, eventos e cultura. O Rio de Janeiro tem que parar de querer ser o que não é. A gente tem que assumir o que a gente é. A gente é um grande estado maravilhoso, com todo o potencial de turismo que a maioria dos estados do Brasil não tem. Tem a questão cultural e de grandes eventos. A gente tem que incorporar isso e seguir em frente.

 

DIÁRIO: O Brasil e o Rio serão governados por forças novas no cenário político. Qual é a expectativa do Clube Empreendedor?

Ponzi: O que nos anima nessas novas gestões estadual e federal é que eles falam muito de empreendedorismo. Ao mesmo tempo em que a gente fica animado, porque eles sabem a importância do empreendedorismo, da economia criativa, da inovação e tecnologia, nos preocupam os oportunistas, os grandes aventureiros, que não entendem do tema e chegam pela questão do modismo. Já é muito bom a gestão entender a importância do empreendedorismo. Eles podem, por exemplo, transformar o Porto em um grande hub de economia criativa, inovação e tecnologia.

 

Fábrica de Startups, um dos focos de empreendedorismo no Porto
Fábrica de Startups, um dos focos de empreendedorismo no Porto (divulgação)

 

DIÁRIO: O que precisa para o Porto consolidar esse hub?

Ponzi: Precisa de um pouco de tempo para as pessoas entenderem o ecossistema. Precisa de apoio do poder público para incentivar as grandes empresas a virem também. Os pequenos empreendedores, que estão começando agora, as startups, já estão vindo. Já tem o Clube Empreendedor, a Fábrica de Startups, o Hub RJ, vários locais. Talvez falte um incentivo maior do poder público. Eu acho que vai acontecer porque eles estão entendendo a importância de trazer benefícios e facilidades. É óbvio que a gente não vai pedir qualquer facilidade, mas eles precisam entender que é importante não travar, não atrapalhar.

 

DIÁRIO: Há um projeto esperando aprovação do prefeito, a Lei de Inovação, que reduz ISS e isenta ITBI investidores da economia criativa no Porto. Qual é a importância disso?

Ponzi: É importantíssima. Estamos torcendo. Isso animou muito os empreendedores, o pessoal que está vindo para o Porto. É um tipo de ação que retorna. Eu acredito que, quando você reduz um tributo ou dá um incentivo, acaba recolhendo mais impostos. Esse é um desses exemplos. Estou torcendo para que aconteça para a gente gerar mais movimento, fazer mais negócios, alavancar a economia.

 

DIÁRIO: Em turismo e gastronomia, nossa mão de obra está bem qualificada ou precisa de um esforço extra?

Ponzi: Isso é um problema do Rio de Janeiro. Com a vinda dos grandes eventos, isso melhorou muito. Temos pessoas hoje com know how bem interessante trabalhando com isso. Já trabalharam e entenderam. Melhorou bastante, e estão vindo novos produtos, como a roda gigante. Acho que o entorno da roda gigante vai se tornar um grande local de eventos e entretenimento. Já tem pessoas preparadas e prontas para este mercado.

 

DIÁRIO: Os paulistas zoam o Rio de Janeiro por causa da qualidade dos serviços e da gastronomia, principalmente as pizzas.

Ponzi: É engraçado, eu gosto muito dos paulistas, adoro ir para São Paulo. Só que eles acham que trabalham mais do que a gente. Eu vejo que a gente trabalha muito mais do que eles, muito mais mesmo. A gente aqui é incansável. Talvez eles tenham razão na questão de serviços. Temos que treinar um pouco mais a nossa mão de obra na gastronomia. Mas isso é um pouco cultural. Para quebrar esse paradigma cultural, talvez tenhamos que trabalhar isso mesmo. Mas em trabalho a gente pega pesado, trabalha bastante. Outra coisa. Com esses movimentos que estão surgindo de empreendedorismo, a gente tem que começar a travar nossos empreendedores aqui, para os grandes unicórnios ficarem aqui. Muitas vezes eles saem daqui e vão pra lá (São Paulo) porque as grandes empresas estão lá. Temos que mostrar que a gente tem capacidade aqui também.

 

Rafael Ponzi, Clube Empreendedor
Ponzi dá parabéns a quem escolheu o Porto

DIÁRIO: E a gente tem?

Ponzi: Tem, com certeza. Temos grandes empreendedores aqui.

 

DIÁRIO: O Clube Empreendedor tem um núcleo de empreendedorismo feminino. Ele tem características especificas? Precisa de um olhar mais cuidadoso, especifico?

Ponzi: Bem, nós temos núcleos de mercado, núcleos geográficos espalhados pelo Rio de Janeiro e núcleos temáticos, que vieram a pedido dos nossos empreendedores. Então temos o núcleo feminino, do empreendedorismo afro e a questão de PcD, pessoa com deficiência. Esses três núcleos temáticos foram pedidos por eles. A gente enxerga que o empreendedorismo feminino está crescendo cada vez mais. As mulheres antigamente tinham muita dificuldade de empreender, mas agora, entendendo essas questões todas, elas estão se juntando para se ajudar. Entender as dores umas das outras e poderem se ajudar e caminhar, alavancar seus negócios no mundo do empreendedorismo.

 

DIÁRIO: O que de mais importante a Prefeitura deve fazer para continuar o processo de desenvolvimento do Porto?

Ponzi: Tem que investir em estrutura, manter suas obrigações. Ela não pode abandonar o Porto. Não abandonou, acho que vai continuar indo bem no Porto, cuidando das obrigações em relação á estrutura, vias, iluminação. E talvez um incentivo de ISS, que a gente está esperando, para aquecer a economia, o mercado, trazer pessoas para cá. A Lei de Inovação é muito importante.

 

DIÁRIO: E o governo estadual?

Ponzi: No governo estadual, segurança é importante. Talvez também trazer algumas empresas para cá, dar incentivo para empresas virem pra cá, de ICMS. Tem muito espaço aqui. O mais importante, no entanto, é não atrapalhar.

 

DIÁRIO: Um recado para os empreendedores do Porto.

Ponzi: O recado que eu tenho é que vocês estão no lugar certo e na hora certa. Vocês estão na vanguarda do processo e estão em um lugar excelente para empreender. Aqui vai ser nosso novo hub de empreendedorismo, inovação, economia criativa. Parabéns por escolherem esse local aqui e empreender nessa causa tão nobre, que é alavancar a economia do Estado do Rio de Janeiro.

 

 



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