Brasileiros descobrem tratamentos para câncer e Parkinson | Diário do Porto


Porto Saúde

Brasileiros descobrem tratamentos para câncer e Parkinson

Na coluna Porto Saúde, Luciana Medeiros fala das recentes descobertas na Medicina para o tratamendo de câncer e do mal de parkinson

14 de outubro de 2019

Pesquisadores determinam momento em que o Parkinson começa a se desenvolver

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Porto Saúde

Luciana Medeiros

Luciana Medeiros

Na sexta-feira da semana passada, correram na imprensa mais genérica e nas redes – feito rastilho de pólvora – duas informações ligadas à pesquisa médica no Brasil. A que ganhou mais visibilidade foi a de que um brasileiro havia sido curado de um câncer terminal. Assim, ponto. Bom, melhor notícia impossível. A outra, que até onde vi só o Estadão deu, dava conta de que um cientista da UFRJ, em parceria com outro brasileiro da Virgínia, encontrara a pista do momento inicial do Parkinson. São realmente excelentes notícias e ambas ligadas à pesquisa universitária de alto nível no Brasil.

No primeiro caso, o da remissão do linfoma, o que aconteceu é algo menos bombástico do que as manchetes podem sugerir, embora muito bacana. O paciente em questão estava realmente  em um estado avançado da doença, um linfoma não-Hodgkins – mais especificamente um linfoma difuso de grandes células B, como detalha a Fapesp. Sua expectativa de vida, depois de diversos tratamentos quimio e radioterápicos, era de menos de um ano. O quadro foi revertido pela aplicação, por uma equipe da USP de Ribeirão Preto, da técnica de manipulação genética batizada de CAR T CELL. Quem conduziu o tratamento foram os pesquisadores do Centro de Terapia Celular da Universidade.

“CAR” quer dizer ‘receptor de antígeno quimérico’ e T CELLS são as células T, tipo de linfócito de defesa do organismo, de glóbulo branco. Essa técnica existe há algum tempo  – falei nisso no artigo sobre Imunoterapia – e vem ganhando terreno nos Estados Unidos, onde foi desenvolvida, domando os efeitos colaterais, ganhando sem segurança. Lá, está sendo aplicada com muito sucesso, principalmente em casos de leucemias e linfomas.

Terapia com células CAR-T foi usada pela primeira vez na América Latina (Foto: divulgação)

Simplificando muito, trata-se da manipulação genética das células T do organismo do paciente, “treinadas” para reconhecer o câncer – que tem como uma de suas características o disfarce químico para que possa crescer sem limites. Reconhecendo, podem combater a doença. Isso é esperança, sim. Pelo menos de um controle a longo prazo, o que pode se aproximar da “cura”.

Mas, como disse o hematologista Rodrigo Portugal lá naquele artigo, ainda há uma “toxicidade financeira” no processo. O CAR T CELL nos EUA custa, hoje, bem mais de R$ 1 milhão (US$ 400 mil, fora a internação). A versão brasileira, desenvolvida pelo time valente da USP, já custa muito menos. Assim, pode-se esperar a queda do custo, e a cada vez que se dissemina e viabiliza mais, aquela toxicidade vai diminuindo.

A segunda novidade é impactante para uma doença cruel e ainda sem perspectivas sequer de prevenção. A repórter que relatou o avanço, que foi publicado na revista Communications Biology , foi a competentíssima Roberta Jansen, da sucursal carioca d’O Estado de S.Paulo. Ela relata que os cientistas brasileiros – Guilherme de Oliveira, da Universidade da Virgínia, e Jerson Lima Silva, da UFRJ – conseguiram identificar o ponto inicial da formação das substâncias cujo acúmulo detona a doença de Parkinson.

“Atualmente, o diagnóstico da doença é clínico, feito somente muito tempo depois dos primeiros estágios da enfermidade, quando o paciente já apresenta sintomas. Da mesma forma, não existe tratamento definitivo para o problema, apenas paliativo”, escreve Roberta na reportagem. Foram usadas na pesquisa técnicas e procedimentos de última geração nos laboratórios das duas universidades.

Tudo isso serve para lembrarmos uma questão muito, mas muito importante: a pesquisa que leva a ciência a novas conquistas é feita majoritariamente nas universidades públicas. No Brasil, a pesquisa universitária realizada nas instituições federais e estaduais responde por 95% da produção científica, como diz o artigo de Mariluce Moura, publicado em abril no site da Academia Brasileira de Ciências.

Quando as universidades perdem poder de fogo, têm suas verbas de pesquisa reduzidas, sofrem não apenas o estudante ou o professor. Sofre a ciência e também o mercado, que deixa de aproveitar comercialmente as descobertas feitas nesse investimento de pesquisa. E sofre o Brasil, que fica na rabeira e cada vez mais dependente dos avanços no exterior.

E que venham novas descobertas.


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