Centro do Rio reage. Bar Luiz e Rio Scenarium estão de volta | Diário do Porto

Especial

Centro do Rio reage. Bar Luiz e Rio Scenarium estão de volta

Bar Luiz, de 134 anos, retorna em agosto. Rio Scenarium reabre feijoadas nos sábados de julho. Prefeito antecipa vacinação e injeta otimismo na cidade

21 de junho de 2021


Fernando Blower, presidente do SindRio: avanço da imunização traz otimismo, mas são necessárias outras medidas (foto: Divulgação)


Compartilhe essa notícia:


Especial

Já se vê luz no Centro do Rio, em meio à pandemia. Tanto que os empresários Rosana Santos e Plínio Froes estão determinados a retomar, com os cuidados sanitários recomendados por especialistas, o funcionamento de negócios que sintetizam a alma carioca. Ela é a dona do Bar Luiz. Ele comanda o Rio Scenarium.

O primeiro, na rua da Carioca, é uma instituição de 134 anos que prevê reabrir as portas em agosto. Já o Rio Scenarium, fundado em 1990, foi um dos passos mais firmes do movimento empresarial que revitalizou a Lapa e, agora, anuncia a volta das suas feijoadas, regadas a samba, para os sábados de julho.

O retorno do otimismo é embalado pelo avanço da imunização dos cariocas. O ritmo tem se acelerado, e o prefeito Eduardo Paes acaba de anunciar, com merecida pompa e circunstância, que todos os maiores de 18 anos devem ser vacinados até 31 de agosto. A nova data traz mais ânimo ao setor empresarial, que até então trabalhava com o calendário anterior de 21 de outubro.

Antes mesmo do novo anúncio de Paes, pesquisa da Fecomércio RJ com empresários do comércio de bens, serviços e turismo, já demonstrava que o avanço da imunização abria os horizontes da economia. Para 20,5% dos entrevistados, a situação melhorou ou melhorou muito em 3 meses, percentual bem maior do que o apurado em maio (11,7%) e abril (5,2%). Para os próximos 3 meses, 76,7% afirmam que esperam que a situação de seus negócios melhore ou melhore muito – este índice em maio era de 72,8%.

Antonio Florencio de Queiroz Junior
Antonio Florencio de Queiroz Junior, da Fecomércio RJ, na Avenida Rio Branco

O presidente da Fecomércio RJ, Antonio Florencio Queiroz Filho, ressalta a importância do retorno às atividades presenciais, assim como da atenção aos protocolos sanitários. “Com o avanço da vacinação, já podemos pensar em retomar algumas atividades presenciais. Está chegando a hora da vida começar a voltar ao normal, com muita atenção aos protocolos de proteção, conscientes de que esses cuidados sanitários passaram a fazer parte de nossas rotinas. Outra questão que precisa ser avaliada é que, nesses 15 meses, muita coisa mudou, principalmente na forma de se trabalhar e de se comunicar com o consumidor, com o fortalecimento da comunicação e atividades digitais”, afirma.

Bar Luiz quer comemorar 135 anos

Bar Luiz, na Rua da Carioca
Bar Luiz deve reabrir em agosto

Essa é a visão que anima Rosana Santos. Ela fechou o Bar Luiz em março, depois de um ano de funcionamentos intermitentes. Não foi fácil fechar as portas de um empreendimento familiar, contínuo desde 1887. Agora, Rosana quer preparar a festa dos 135 anos, em 2022. Ela não esmorece. “Antes da pandemia, já sentíamos a crise econômica do país, com 20 funcionários. Quando tive que fechar, há 3 meses, éramos 5. Houve dias em que atendemos um só cliente, e o bar parava as atividades às 16h. Agora, vamos voltar. Eu acredito que o Rio e o Centro da cidade vão reviver”, afirma Rosana.

O mesmo ímpeto move Plínio Froes, do Grupo Scenarium, que reúne mais 3 casas na Rua do Lavradio: a Galeria Scenarium e os restaurantes Scenarium e Mangue Seco, dos quais só o último segue em funcionamento. O grupo, que já chegou a ter 350 funcionários, tem hoje 50.

“Vamos voltar aos poucos ao funcionamento do Rio Scenarium, nossa casa principal, com as feijoadas, das 11h às 18h, aos sábados de julho. E vamos manter todos os rígidos protocolos de segurança contra a Covid-19. Não haverá aglomerações e ainda não haverá espaço para dançar, mas haverá alegria, boa comida, atendimento impecável, com todos usando máscaras, é claro”, afirma Plínio.

Rio Scenarium em recuperação

rio scenarium
Rio Scenarium volta com feijoadas em julho

O Rio Scenarium foi o primeiro estabelecimento da cidade a fechar por causa da pandemia, dez dias antes de a Prefeitura decretar as primeiras medidas de isolamento social, em 16 de março de 2020. No dia em que o bar fechou, estava programada uma festa para um grupo de turistas europeus, dos quais 4 manifestaram a Covid-19 ainda em seus hotéis. “Não quisemos nos tornar um centro de difusão do vírus. Cancelamos a festa e devolvemos o dinheiro para as cerca de 500 pessoas que haviam feito compra antecipada de ingressos”, relata Plínio.

O bar e restaurante se firmou ao longo dos anos como um ponto de atração tão obrigatório aos turistas quanto Corcovado, Pão de Açúcar e Museu do Amanhã. Mas mesmo tanto sucesso não impediu que o negócio fosse afetado pela crise econômica crescente desde 2015 e agudizada pela pandemia. Em maio passado, o Grupo Scenarium obteve o direito de recuperação judicial. “Fizemos isso para sobreviver. Agora, tenho a certeza de que vamos voltar a trabalhar e pagaremos todas as nossas dívidas, que são, principalmente, tributárias”, promete Plínio, movido por um entusiasmo contagiante.

SindRio acredita na retomada dos negócios

A situação de endividamento na pandemia é comum ao setor, segundo Fernando Blower, presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio, o SindRio. De acordo com pesquisa recente, 71% dos bares e restaurantes do Rio de Janeiro têm dívidas, das quais 81% são para bancos, 61% são com impostos e 36,5%, para fornecedores. “Mas as boas notícias estão chegando. Acelerar a vacinação aponta horizontes não só para o setor, mas para toda a cidade”, diz Blower, enfatizando que a imunização diminui a possibilidade de novos fechamentos dos negócios. “A previsibilidade é essencial, pois não podemos ficar abrindo e fechando estabelecimentos a toda hora. Muitos dos que fecharam não terão condições de retornar”, afirma.

O Governo Federal tem um papel fundamental para a sobrevivência dos bares e restaurantes endividados, completa o presidente do SindRio, pois poderia tomar a iniciativa de reduzir e renegociar as dívidas do setor com a União, que incluem Imposto de Renda, PIS, Cofins e contribuições do INSS. “O Governo do Estado já fez sua parte, parcelando o ICMS. Agora faltam as taxas e tributos federais. Isso daria um grande fôlego para o setor”, postula.

Home office no novo normal

O futuro da retomada dos negócios depende muito do novo perfil do mercado de trabalho, quando a pandemia estiver sob controle. Análises de especialistas apontam que boa parte dos trabalhadores que migraram para o home office não voltarão mais ao trabalho presencial nas empresas e escritórios. Na Inglaterra, país mais avançado do que o Brasil nas políticas contra a Covid-19, há previsão de que a semana de 5 dias presenciais de trabalho só volte a ser regra dominante em dois anos. É o que projeta o centro de estudos britânico Center for Cities.

No Rio, grandes empregadores como a Prefeitura e a Petrobras estão em compassos diferentes em relação ao retorno ao trabalho presencial, que é fator determinante para o funcionamento dos meios de transporte, comércio de rua, bares, restaurantes e vários tipos de serviço.

Importância do trabalho presencial

Eduardo Paes
Bar Luiz e Rio Scenarium retornam aos negócios, enquanto Paes antecipa vacinação

Na Prefeitura, o trabalho presencial para a maior parte dos funcionários já é determinação desde o mês passado. Na Petrobras, que tinha cerca de 5.800 empregados até o início da pandemia, o plano é de um retorno lento das gerências, a partir de julho e agosto. A volta dos demais empregados ocorre só a partir de outubro, mas com a ocupação limitada a 20% das vagas em cada um dos prédios administrativos.

Antes do novo anúncio do prefeito Eduardo Paes sobre a antecipação das vacinas, a Petrobras dizia que seguia “acompanhando as orientações das autoridades sanitárias e aprimorando as medidas preventivas que buscam proteger a saúde das pessoas”.

O avanço da vacinação não é a única perspectiva de dias melhores para moradores, trabalhadores e empreendedores do coração da cidade. A prioridade que a Prefeitura vem sinalizando para políticas públicas de adensamento populacional no centro e no Porto Maravilha já desperta a atenção de comerciantes para o movimento futuro na região, de longe a mais afetada pela crise econômica e a pandemia.

“Virada mais rápida”, diz Paes

“A virada do Rio vai ser mais rápida do que imaginávamos”, destacou o prefeito em um evento do Lide Rio, “Oportunidades no Rio frente às novas legislações urbanística”, voltado ao mercado imobiliário, com apoio do 15º Ofício de Notas. Mediado pelo presidente da Ademi (Associação das Empresas do Mercado Imobiliário), Cláudio Hermolin, o encontro contou com vários secretários comprometidos com as ações de refundação do centro.

Um dos mais entusiasmados e diretamente envolvido com o projeto é o de Planejamento Urbano, Washington Fajardo, que chama atenção para a votação, na próxima terça-feira 22, na Câmara dos Vereadores, do Projeto Reviver Centro. “Precisamos aproximar as pessoas do Centro, que é onde estão os empregos e onde já existe infraestrutura. Aproximar as pessoas do Centro é aproximar as pessoas da nossa história, acima de tudo”, frisou Fajardo.


LEIA TAMBÉM:

O mistério dos jarros de barro do Rio

Fecomércio RJ e Senac RJ atuam para fazer reviver o Centro

Distrito Empresarial do Porto será constituído no dia 6/7