Cemitério dos Ingleses sofre com má conservação | Diário do Porto


História

Cemitério dos Ingleses sofre com má conservação

Patrimônio do Porto, Cemitério dos Ingleses está sujo e mal cuidado. Local foi o primeiro do país e abriga restos mortais de nobres súditos de Sua Majestade

3 de novembro de 2021

Mais antigo cemitério do País está sujo e precisa de cuidados (DIÁRIO DO PORTO)

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Chico Silva

Quem visitou o Cemitério dos Ingleses, na Gamboa, no Dia de Finados, deve ter se espantado com as más condições da mais antiga necrópole do Brasil. Erguido pela comunidade britânica anglicana do Rio logo após a chegada da Família Real Portuguesa em 1808, o local está sujo e com vários túmulos e criptas quebradas ou danificadas. Um descaso com os súditos da Rainha que fizeram da Região Portuária sua última e eterna morada.

Túmulo danifiicado e sem lápide de identificação no Cemitério dos Ingleses, na Gamboa (DIÁRIO DO PORTO)

Na semana passada, a reportagem do DIÁRIO DO PORTO esteve no local que preserva os restos mortais de almirantes e aviadores da Royal Navy e Royal Air Force, respectivamente a Marinha de Guerra e a Força Área inglesas; oficiais da Marinha Mercante que sucumbiram à travessia Atlântica ao Rio e cônsules e outras autoridades do “Foreign Office” britânico, o departamento que cuida dos interesses da Coroa em territórios estrangeiros.

As lápides trazem nomes de nobres súditos do antigo Império Britânico, aquele que se orgulhava “nunca ver o sol se pôr”. Entre eles, John Julius Collins Westwood, vice-cônsul da Coroa no Rio por 22 anos no século XIX; John Taylor, almirante inglês que se tornou um dos heróis da Independência do Brasil por expulsar embarcações portuguesas que resistiam às tropas brasileiras. Por sua bravura, Taylor tem em seu túmulo uma placa de mármore presenteada pela Marinha Brasileira por ocasião dos 100 anos de sua morte e Charles Davies Sanders, comandante da Royal Navy morto em 1870 vítima de “yellow fever”, ou febre amarela em português.

 

Homenagem da Marinha de Guerrra Brasileira ao centenário da morte do almirante anglo-brasileiro John Taylor (DIÁRIO DO PORTO)

Há também marinheiros que morreram em embarcações postas à pique pela marinha de guerra nazista durante a 2º Guerra Mundial, exemplo do bombeiro A.Budd, que perdeu a vida aos 41 anos a bordo do “SS Fort Sakisdac” em 06 de junho de 1944. O cemitério, atualmente o menor do Rio, também abriga corpos de brasileiros. Estima-se que 25% dos jazigos sejam ocupados por moradores do Rio de Janeiro. Entre eles está o corpo do dramaturgo Mauro Rasi, morto em 2003.


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Muito mais do que um cemitério

Inaugurado em 1811, o British Burial Ground é muito mais do que um cemitério comum. Foi o primeiro campo não católico, construído ao ar livre e particular do Brasil. Até sua fundação no pé do Morro da Providência, era costume dos católicos enterrar os mortos nas áreas externas das igrejas. Mas por serem protestantes, os ingleses não poderiam ter seus restos mortais depositado em tais sítios. Por essa época começa também a preocupação das autoridades com os problemas sanitários causados pelos sepultamentos em valas ao lado das capelas.

Sujeira e lixo vistos nos fundos do cemitério (DIÁRIO DO PORTO)

Em seu artigo “O Enfoque político na edificação de uma necrópole inglesa no rio joanino”, Olga Maíra Figueiredo, professora-doutora em Geografia pela UERJ, revela que a doação da gleba por parte da Coroa Portuguesa para que Lord Strangford construísse uma necrópole protestante no Rio desagradou à cúpula da Igreja Católica em Roma. Mas a gratidão de Dom João VI pelo apoio da Coroa Britânica em sua fuga das tropas de Napoleão para o Brasil pesou mais que o temor papal.

Segundo registros históricos, um almirante da Marinha Real foi o primeiro corpo sepultado no Cemitério dos Ingleses, em 05 de janeiro de 1811. Mas a lápide desse oficial nunca foi localizada. Os jazigos mais antigos encontrados pertencem às crianças Thomas e Eliza Barker que datam, respectivamente, de fevereiro e novembro de 1812

Construído para abrigar nobres súditos da Rainha no Porto, cemitério tem 25% dos jazigos ocupados por brasileiros. (DIÁRIO DO PORTO)