Casa Amarela põe os artistas no mundo da lua | Diário do Porto


Arte

Casa Amarela põe os artistas no mundo da lua

Entenda por que o Morro da Providência atrae artistas do mundo todo: conheça o belo trabalho da Casa Amarela, dirigida por duas francesas

13 de dezembro de 2019

A lua da Casa Amarela, na Providência, serve de residência para artistas (fotos Cosme Felippsen)

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Cosme Felippsen

Quem passa perto do Morro da Providência e olha para o topo da favela logo percebe um ponto bem amarelo. É uma banana? Um navio? Uma lua colorida? Acertou quem apostou no satélite. A lua fica em cima de uma instituição chamada Casa Amarela. A Casa é um projeto de artes e outros cursos que atendem o território desde 2009 pela iniciativa de Maurício Hora, morador e fotógrafo, e do artista e fotógrafo francês JR.

O que menos gente sabe é que a lua é um quarto. Na verdade, uma residência artística, com livros, cama e tudo. O artista que sobe o morro para trocar conhecimentos no projeto pode se alojar dentro da lua. Pelo local já passaram famosos como a popstar Madona, o apresentador Luciano Huck, o cantor Pharrell Williams e outros mais. A lua foi feita em 2016 por JR, no mesmo ano que o artista japonês Takao e o americano Dirby fizeram uma obra de arte que encobre a casa com madeira e miniaturas de barracos.

Como JR conheceu a Providência?

JR estava na França quando recebeu a notícia dos assassinatos de três rapazes do Morro da Providência, em 2008. O então senador Marcelo Crivella conseguira levar tropas do Exército para garantir a obra do Cimento Social, de restauração de fachadas e reconstrução de casas da Providência.

Em Junho daquele ano, após uma festa, três jovens chegaram de táxi. Houve discussão com alguns soldados, que os levaram para o quartel. Foram liberados, por falta de conduta errada, mas soldados insatisfeitos com a decisão os conduziram para outra favela, dominada por uma facção rival da que controlava a Providência. Os rapazes foram então entregues ao tráfico local, torturados e mortos.

JR viu a notícia pela televisão, e logo decidiu vir ao Brasil conhecer as mães das vitimas. JR chegou ao Morro sem conhecer ninguém, na intenção de fotografar as mães. Na subida, foi abordado por uma moradora, que o apresentou a Maurício Hora.


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E o astro da fotografia começou, então, um trabalho com as mulheres da Providência, que tornaram-se grandes imagens coladas nas fachadas de suas casas. Uma exposição foi montada na Casa França Brasilem 2009, com o nome “28 milímetros mulheres da Providência”. Também surgiu ali a Casa Amarela.

Intervenção artística na Casa Amarela
Intervenção artística na Casa Amarela

A Casa é dirigida pelas francesas Tiphanie Constantin e Nina Soutoul. O time conta com mais três moradores, que administram a Casa: Douglas Oliveira, fotógrafo educador, Taigo Deus, administrador educador, e Ernani Ferreira, arte educador pela dança.

Tiphanie conta que fazia um trabalho de tradução para o canal France Télévisions quando veio à Providência fazer uma entrevista. Ali conheceu Maurício Hora, que lhe apresentou a Casa Amarela. Ela procurava mesmo um trabalho social para fazer com crianças. Aos 32 anos, Titi, como é chamada pelas crianças, está na Casa desde 2015. Ela conta como funciona o espaço.

Há aulas para quatro grupos: Jardim de 3 a 7 anos, Kids de 8 a 11 anos, Jovens de 12 a 17 anos e Adultos acima de de 18. Todos podem fazer diversas oficinas: dança afro, hip-hop, violino, violão, cello, percussão, canto, fotografia, edição de vídeos, pintura, aquarela, grafite, lambe-lambe, culinária, jardinagem, empoderamento feminino, auto-cuidado, massagem, maquiagem, yoga, boxe, parkour, skate, vôlei, idiomas, alfabetização, reforço escolar, arte terapia, costura, bordado, macramê. Anotou aí?

Vista panorâmica e muita empatia nas aulas da Casa Amarela
Vista panorâmica e muita empatia nas aulas da Casa Amarela

A Casa está aberta de segunda a sexta, de 14h às 19h. Há passeios culturais aos fins de semana. Semanalmente, são atendidas 80 pessoas da Primeira Favela. Parte dos educadores e educadoras é do Morro, remunerada pelo trabalho.

Um dos educadores é Ernani Ferreira, 39 anos. “Sou arte-educador pela dança”, orgulha-se. Ele chegou de Belo Horizonte em 2017 atrás de um “chamado” para mudar de vida. Queria passar aos pequenos o que aprendeu com os maiores mestres de dança afro no Brasil. Escreveu para a Casa Amarela, Tiphanie respondeu, e acordaram de fazer uma experimentação.

A francesa "Titi" em meio às atividades da Casa Amarela
A francesa “Titi” em meio às atividades da Casa Amarela

O grupo de dança hoje tem o maior espetáculo da Casa, o Encobrimento, que dura 50 minutos e foi criado com os alunos. “A gente está descobrindo o Brasil dentro do espetáculo”, diz Ernani. A dança gira em torno do africano livre em África e o preso no Brasil. Falam do povo original da terra, ao qual chamamos índios. Ernani diz que encontrou sua missão no mundo e, com seus alunos, vivem em uma família. “Nosso grupo de dança é um quilombo”, complementa ele, com os olhos brilhando.

O Morro da Providência foi a primeira favela no Brasil, formada após a abolição, como muitos outros quilombos nos campos e nas cidades.

Outro fruto do projeto é o Coletivo Jovens da Lua, que produz artesanatos e fotografias para venda. O lucro é revertido para os próprios jovens, que decidem qual curso querem contratar. Interessados em apoiar podem encontrá-lo em @coletivojovensdalua e coletivojovensdalua.com.

A diretora da Casa orienta os voluntários que os projetos devem durar pelo menos seis meses. Tiphanie deu a entrevista sendo interrompida, a todo momento, pelas crianças. Elas agitam a Casa e atraem as atenções dos adultos, aprendem e ensinam. No meio da conversa, Titi diz que “a lua é pra dizer simbolicamente que aqui se atinge os objetivos, chegando na lua”.