Despejo de escolas na Zona Portuária ameaça Carnaval

Liga das Escolas de Samba do Rio (Lierj) diz que cinco das 13 agremiações da Série A já foram desalojadas e outras três estão sob risco. Uma delas é a Unidos de Porto da Pedra, que sofreu recente incêndio. Cdurp diz que despejo ocorre por falta de segurança

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Porto da Pedra, que teve parte das alegorias destruídas em incêndio, corre risco de perder o barracão (Foto: O Fluminense)

Cinco das 13 escolas de samba da Série A – a segunda divisão do Carnaval carioca – já foram despejadas de seus barracões na Zona Portuária nos últimos meses e mais três correm o risco de perder seus barracões. O alerta é da Liga das Escolas de Samba do Rio (Lierj), que divulgou uma nota nesta sexta-feira (3) manifestando sua preocupação com o desfile do ano que vem. “Estamos no segundo semestre de 2018 e a situação dos barracões das escolas de samba da Série A fica a cada dia mais crítica”, afirma a entidade.

Na nota, a Lierj critica a ação da prefeitura para desocupar os imóveis, sem oferecer alternativas de novos espaços para as agremiações. “É extremamente preocupante observar que as desocupações vêm ocorrendo sem qualquer tipo de planejamento por parte do poder público e da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto, responsável pela maior parte das ações de despejo”, diz o texto. A Lierj afirma aguardar desde maio a promessa da Riotur de interceder pelas escolas da Série A, obtendo um novo terreno junto à prefeitura.

Acadêmicos de Santa Cruz, Acadêmicos do Sossego, Alegria da Zona Sul, Inocentes de Belford Roxo e Unidos de Bangu já tiveram que deixar os locais onde confeccionavam suas alegorias. A situação da Acadêmicos da Rocinha, Renascer de Jacarepaguá e Unidos do Porto da Pedra também é crítica. Na quinta-feira (2), a Santa Cruz e a Inocentes receberam um oficial de Justiça, acompanhado de policiais militares, para executar a ordem de despejo imediato.

A Vermelha e Branca de São Gonçalo, que teve parte de suas alegorias queimadas em recente incêndio, não tem para onde levar suas alegorias. A questão dos incêndios misteriosos nos barracões, que praticamente se repetem todo ano, também é abordada na nota. “Só neste ano, por exemplo, o fogo já destruiu alegorias e trouxe incontáveis prejuízos para escolas como Porto da Pedra e Unidos da Ponte”. O corte de verbas no Carnaval 2018 também foi lembrado.

Falta  manutenção, diz Cdurp

Em nota, a Cdurp esclarece que “todas as medidas judiciais que levaram à desocupação dos imóveis na Região Portuária estão relacionadas ao risco iminente de queda das estruturas sem manutenção há muitos anos, fato certificado por laudos da Defesa Civil”. A companhia também rebate informação da Lierj, afirmando que não é a única responsável por todas as ações judiciais de ordem de despejo. “Como algumas agremiações invadiram terrenos privados, elas foram retiradas por empresas privadas mediante decisão da Justiça”.

Por fim, a Cdurp ressalta que “mantém diálogo permanente com representantes das escolas, com o conhecimento da Lierj, para apoiar a transferência e evitar uma tragédia anunciada, já que são notórias a vulnerabilidade e a precariedade da segurança nesses espaços”. E conclui: “Quando as negociações verbais com as escolas se mostraram insuficientes, a Cdurp recorreu à Justiça, processo no qual as escolas tiveram voz e direito a defesa”.

Confira a nota oficial da Lierj:

“Estamos no segundo semestre de 2018 e a situação dos barracões das escolas de samba da Série A fica a cada dia mais crítica. Cinco agremiações já foram desalojadas: Alegria da Zona Sul, Unidos de Bangu, Inocentes de Belford Roxo, Acadêmicos de Santa Cruz e Acadêmicos do Sossego, além da Unidos do Porto da Pedra, que já está com ordem de despejo e sem local para levar as alegorias. No mesmo caminho, a Rocinha também vem sendo processada, assim como há um sério risco para a Renascer de Jacarepaguá.

É extremamente preocupante observar que as desocupações vêm ocorrendo sem qualquer tipo de planejamento por parte do poder público e da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto, responsável pela maior parte das ações de despejo.

Até o momento, o que vem sendo notado é que as escolas estão sendo removidas e jogadas ao relento, sem que haja a indicação de outros espaços para que os carros alegóricos e os materiais possam ser preservados e transferidos, de forma que os trabalhos continuem sem prejuízo ao Carnaval da Série A do Rio de Janeiro e, consequentemente, aos artistas que vivem dessa manifestação cultural.

Sabe-se que a CDURP, inclusive, já agendou reuniões com Polícia Militar, CET-Rio, Comlurb, Defesa Civil, Seconserva, Superintendência Regional do Centro, Guarda Municipal e outros órgãos para desocupar o barracão da Unidos do Porto da Pedra.

O receio maior é que ocorra algo semelhante ao drama já observado nessa quinta-feira (2), quando uma viatura da Polícia Militar chegou ao espaço onde estão a Santa Cruz e a Inocentes com um oficial de Justiça executando a ordem de despejo imediato.

Vale ressaltar, ainda, que vêm sendo comuns os casos de incêndios envolvendo barracões da Série A. Só neste ano, por exemplo, o fogo já destruiu alegorias e trouxe incontáveis prejuízos para escolas como Porto da Pedra e Unidos da Ponte.

Após muita procura e insistência por parte da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a Riotur havia prometido em maio viabilizar junto à Prefeitura a cessão de um terreno para que as escolas de samba pudessem realizar os trabalhos em segurança e em condições dignas. A Lierj já oficializou o pedido e efetuou todos os procedimentos indicados, porém, até o momento, ainda não teve um retorno concreto.

Nunca é demais recordar que, no Carnaval de 2018, a verba (que já sofrera um corte de 50% e um impacto direto de 75% no valor total) só foi liberada a menos de duas semanas para os desfiles. Na ocasião, houve uma promessa da Riotur para que as conversas fossem antecipadas e esse problema não se repetisse no ano seguinte.

Enquanto isso, já estamos em agosto e a maioria das escolas de samba da Série A sequer possuem um local para construir o Carnaval.

A Lierj ressalta que, além de estar acompanhando tudo de perto, manifesta total apoio e suporte às agremiações, além de não medir esforços para que as promessas do poder público sejam cumpridas e o Carnaval da Série A não seja ainda mais prejudicado”.

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