Cais do Valongo ganhará iluminação cênica

Os inúmeros problemas que cercam o Cais do Valongo, na Zona Portuária do Rio, serão agora discutidos e enfrentados, conjuntamente, por agentes públicos e do movimento negro.

 

Comitê do Cais do Valongo toma posse na sede do Iphan (Foto: Divulgação Iphan)

Os inúmeros problemas que cercam o Cais do Valongo, na Zona Portuária do Rio, serão agora discutidos e enfrentados, conjuntamente, por agentes públicos e do movimento negro. Reconhecido como Patrimônio Mundial em 2017, como lugar de memória da escravidão mais completo que se conhece no mundo, o sítio conta agora com um Comitê Gestor, responsável por acelerar as iniciativas de preservação do local, exigidas pela Unesco.

O grupo – formado por representantes de oito entidades públicas e nove do movimento negro – seguirá o Plano de Gestão do Valongo, estabelecido pela Unesco, que inclui um Centro de Interpretação sobre a história e valores ali preservados, o tratamento paisagístico, sinalização, projeto educativo e pesquisa arqueológica.

A gestão colaborativa vai propor políticas, programas, projetos e ações de caráter educativo, cultural, turístico, econômico ou social. O comitê começa a se reunir já nesta primeira semana de setembro, mas já decidiu que a sinalização no cais terá de ser acompanhada por uma iluminação cênica.

Já o Centro de Interpretação, além de aprofundar os estudos e apresentá-los a pesquisadores ou visitantes, terá uma exposição do acervo arqueológico encontrado nas escavações na região.

O plano de gestão prevê ainda a realização de jornadas de educação. A ideia é promover o maior número de debates sobre o Cais do Valongo. Durante um seminário, a ser organizado pela prefeitura no Museu do Amanhã, será apresentado um estudo arqueológico mais completo da região.

O Comitê Gestor também terá que encontrar soluções para alguns problemas no entorno do Cais. Um deles é um muro do Hospital dos Servidores, atrás do qual há um depósito de lixo hospitalar. O muro impede a circulação total ao longo do cais.

Outro obstáculo a ser superado é o prédio Docas Pedro II, projetado pelo engenheiro André Rebouças no século 19. O edifício está ocupado pela ONG Ação da Cidadania contra a Fome, que cobra uma indenização ou outro imóvel para se mudar. Ainda há o casario do Quilombo da Pedra do Sal com sérios problemas estruturais.

Celebração de matrizes africanas marcou a posse do comitê (Foto: Divulgação Iphan)

Forte presença do movimento negro

Fazem parte do Comitê oito instituições públicas, das três esferas de governo: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Fundação Cultural Palmares, Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), Secretaria Municipal da Cultura, Secretaria de Estado da Cultura, Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp), Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) e Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro (Riotur).

Integram, ainda, outras nove organizações da sociedade civil e instituições voltadas para a valorização da cultura afro-brasileira, entre elas, o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro, Centro Cultural Pequena África, o Instituto Pretos Novos e a Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo da Pedra do Sal.

A posse e a primeira reunião do Comitê Gestor aconteceram na sexta-feira (31), no auditório da superintendência do Iphan  no Centro do Rio, com uma celebração ritual de matrizes afro-descendentes.

Lugar de memória da escravidão

Pelo Cais do Valongo, na região portuária da cidade do Rio de Janeiro, passaram cerca de um milhão de africanos escravizados, o que o tornou o maior porto receptor de escravos do mundo. O local é hoje é um sítio arqueológico aberto à visitação pública, que integra o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, na região portuária da cidade do Rio de Janeiro.

Revelado, em 2011, durante as obras do Porto Maravilha, que abrange uma área de cinco milhões de metros quadrados, o Cais foi construído em 1811, para desembarque e comércio de africanos escravizados que eram levados para as plantações brasileiras de café, fumo e açúcar. Os que ficavam na capital, geralmente eram os escravos domésticos ou aqueles usados como força de trabalho nas obras públicas.

Plano de gestão

O reconhecimento como Patrimônio Mundial se deu porque o Cais do Valongo é um testemunho de uma história que a humanidade não pode esquecer. O sítio arqueológico tem importância não apenas para a história brasileira, mas também para a história do mundo. Em decorrência do título, o Comitê Gestor deverá atuar para desenvolver uma série de medidas de valorização do sítio, já previstas no plano de Gestão:

Centro de Interpretação

A implantação de um Centro de Interpretação terá como propósito centralizar as informações para o visitante, além da exposição de parte do acervo arqueológico encontrado nas escavações..

Sinalização e tratamento paisagístico

O projeto de sinalização explicativa do Cais do Valongo deverá contar com a instalação de piso diferenciado, que indica pontos de referência no sítio. A proposta é adotar uma linguagem visual comum, com referência ao conjunto da obra, que facilite a leitura por parte do visitante.

Educação Patrimonial

A exemplo do programa do Museu de Arte do Rio, de aproximação com a Região Portuária, sua relação da Pequena África e a matriz histórica e cultural na região, o plano de Gestão prevê o desenvolvimento de jornadas de educação. Poderão ser criados espaços de debates, trocas de experiências e reflexões sobre esse sítio de memória e a herança africana na região portuária do Rio de Janeiro.

Pesquisa arqueológica

A pesquisa arqueológica no Cais do Valongo se iniciou em 2011, em praticamente toda a extensão da atual Praça Jornal do Comércio. Com elas, confirmou-se o elevado potencial arqueológico da região, e o sítio arqueológico do Cais do Valongo foi registrado pela com uma área total de 2,5 mil m². Além dos vestígios desvelados, ilustram o contexto de ocupação da área, os testemunhos do Cais da Imperatriz, construído em 1843 para receber a princesa napolitana Tereza Cristina de Bourbon, esposa do Imperador Dom Pedro II. Parte dessa história ainda precisa ser escavada, e o aprofundamento do estudo é um dos pontos do compromisso do Comitê Gestor de valorização do Cais do Valongo.

Fonte: Iphan e JB, com Redação

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