Cabotagem cresceu após greve de caminhoneiros | Diário do Porto


Infraestrutura

Cabotagem cresceu após greve de caminhoneiros

Trauma com a paralisação de maio do ano passado levou as empresas a usarem mais a navegação de cabotagem, principalmente do Nordeste para o Sudeste

7 de maio de 2019

Guindastes no Porto do Rio de Janeiro (Tania Rêgo/Agência Brasil)

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A traumática greve dos caminhoneiros, em maio do ano passado, acabou estimulando a navegação costeira entre portos nacionais, a cabotagem. O crescimento foi de 17,5% no volume transportado por navios desde o fim da greve até fevereiro deste ano. O levantamento é do Ilos (Instituto de Logística e Supply Chain). No sentido Nordeste-Sudeste, a alta passa de 20%.

A transferência das rodovias para o mar de parte da carga transportada é vista como efeito direto do tabelamento do frete, conquistado pela histórica paralisação dos caminhoneiros. A imposição de preços mínimos encareceu o transporte pelas rodovias, tornando-o menos interessante para as empresas.

Especialistas apontam também como agravante para a queda deste modal de transporte de carga o fator psicológico. Foi o trauma provocado no setor produtivo pela paralisação. É como se o episódio tivesse aberto os olhos de executivos da área de logística para a alta dependência de caminhões.

Oportunidade para o Rio

A cabotagem passou a ser vista com mais atenção, como acontece em outros países com litoral extenso. Isso abre perspectivas interessantes para o Rio de Janeiro, ponto estratégico para esse tipo de navegação. Os portos no Estado devem aproveitar a ocasião para tentar aumentar sua competitividade.

“Isso não tem volta”, tem dito Adalberto Tokarski, diretor-geral da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários). Já Marcus Voloch, diretor para o Mercosul da Aliança Navegação e Logística, especializada no transporte costeiro de cargas, disse à Folha de S. Paulo que a empresa conquistou 192 de seus 1.400 clientes após a greve dos caminhoneiros. Ou seja, a demanda cresceu 16%.

 


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Trechos nos quais a cabotagem não era competitiva, como Bahia-São Paulo ou Ceará-Bahia, tornaram-se viáveis. No caso do trecho Bahia-São Paulo, o aumento teria sido superior a 300%, afirma. Entre o Ceará e a Bahia, o volume mais que duplicou.

O tabelamento torna o transporte rodoviário de cargas menos atraente, especialmente no sentido Norte-Sul. Nele, muitos caminhões voltam vazios depois de descarregar e, pela lei da oferta e da procura, os preços baixavam muito. Agora, com preço fixo, essa “vantagem competitiva” acabou.

O fenômeno fica claro no levantamento feito pelo Ilos de junho de 2018 a fevereiro de 2019. O crescimento da cabotagem na subida (Sudeste-Nordeste) foi de 14,8%, mas na descida chegou a 21,3%.


Como foi a greve

A paralisação dos caminhoneiros autônomos foi nacional. Começou em 21 de maio e terminou oficialmente nove dias depois, 30 de maio, com a intervenção do Exército e da Polícia Rodoviária Federal para desbloquear as rodovias. Houve tentativas de continuação do movimento, mas sem adesão.

O protesto foi contra os reajustes frequentes e sem previsibilidade nos preços do óleo diesel por parte da Petrobras, a cobrança de pedágio por eixo suspenso e o fim do PIS/Cofins sobre o diesel.

O bloqueio de rodovias em 24 estados e no Distrito Federal comprometeu a distribuição de alimentos e remédios, escassez e alta da gasolina, filas imensas nos postos. Aulas foram suspensas, ônibus reduzidos, voos cancelados, 1 bilhão de aves e 20 milhões de suínos morreram por falta de ração.

Cidades decretaram situação de calamidade pública ou de emergência, como São Paulo e Porto Alegre. As ações da Petrobras despencaram 34%, em função da queda do preço do diesel.

O então presidente Michel Temer convocou as Forças Armadas através do mecanismo da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para desobstruir as estradas. Um acordo foi fechado no dia 24 de maio, com redução de 10% do preço do diesel, mas a greve continuou em algumas partes do país. No dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, concedeu liminar autorizando o uso das forças de segurança pública para o desbloqueio de rodovias.


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