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Brasil perde chance de ser líder em transição energética, diz Instituto E+

Para Amanda Ohara, coordenadora do E+, Governo joga fora vantagens no cenário global. Ela afirma que a transição energética é cada vez mais valorizada

19 de fevereiro de 2021
Amanda Ohara, do Instituto E+, vê futuro para novas hidrelétricas no país (foto: reprodução da Internet)

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A transição energética para uma economia de baixo carbono é preocupação fundamental nas nações desenvolvidas. Cada vez mais, as populações desses países valorizam produtos e iniciativas que tenham origem em locais com predominância de energia de fonte limpa.

O Brasil, porém, está desperdiçando a oportunidade de ser um dos líderes globais na economia de baixo carbono. Essa é a opinião de Amanda Ohara, coordenadora técnica do Instituto E+ Transição Energética, que integra uma rede mundial de instituições dedicadas ao tema.

“O Brasil, com a gestão atual, tem se aproveitado muito pouco das vantagens que já tem no cenário da transição energética”, afirma Amanda. O país, nas décadas anteriores, estruturou sua matriz de energia com a predominância de fontes limpas, como as hidrelétricas. “Mas temos jogado isso fora, com um discurso que vai contra as evidências climáticas, com o incentivo ao desmatamento e, do ponto de vista energético, sem uma narrativa clara e estruturada”, enfatiza.

A coordenadora técnica pontua que o Governo Federal e parte dos stakeholders nacionais não parecem preocupados com proeminência crescente dos temas da transição energética nos fóruns de decisão do planeta. “Como o Brasil já tem uma matriz mais renovável, eles pensam que essas questões já foram superadas. Isso não é verdade. Há muito a ser feito para garantir que as fontes descentralizadas e intermitentes sejam integradas na transição energética.”

“Fontes descentralizadas e intermitentes” são principalmente aquelas que produzem energia solar e eólica, cuja participação na matriz energética brasileira tem crescido mas está longe de atingir o potencial possível, na opinião da especialista.

Subsídio à energia solar é injusto

Amanda diz que, na visão do Instituto E+, a energia solar tem um papel importante na redução das desigualdades sociais, ao propiciar que energia barata seja produzida em comunidades isoladas, gerando oportunidades de desenvolvimento de negócios locais.

Mas ela adverte que a regulamentação atual do setor elétrico brasileiro é injusta com o conjunto dos consumidores. Eles acabam subsidiando o produtor individual de energia solar, que não paga os custos de operação da rede do sistema.

“A modernização da legislação do setor elétrico está parada no Congresso Nacional, que, na pandemia, deixou de analisar o projeto de lei 232. O Governo Federal até editou uma Medida Provisória para antecipar algumas das medidas regulatórias, mas sem a visão sistêmica do projeto”, alerta Amanda. “É preciso garantir a competição em condições de igualdade entre as fontes de energia. Para isso, é fundamental um mercado bem regulado.”

Quanto ao futuro da geração de energia no país, a coordenadora técnica do E+ acredita que ainda há oportunidades para a construção de hidrelétricas, fonte de energia cujas obras de implantação são muito criticadas pelos impactos sociais e ambientais. Os projetos de grandes empreendimentos estão todos voltados para a Amazônia.

“Se forem equacionados os problemas dos impactos para o ambiente e as populações vizinhas, muitas vezes indígenas, existe sim espaço para novas hidrelétricas. Mas defendo que o Brasil deveria investir mais nas energias eólica e solar, que têm menor dano socioambiental”, afirma Amanda.

Petrobras está na contramão da transição energética

Ainda em relação ao futuro, Amanda critica a Petrobras por ter, nos últimos anos, focado apenas nas atividades de extração do petróleo e desistido da diversificação que chegou a ensaiar para ser uma empresa de energia, não apenas petrolífera.

“A Petrobras está indo bastante na contramão das outras empresas modernas do setor de petróleo. Até os árabes, os maiores do mercado, investem muito na diversificação do portfólio, pensando na transição energética”, analisa Amanda.

Em relação ao setor petrolífero, ela vê melhores perspectivas para o gás natural: mesmo sendo um combustível fóssil e causador de emissões nocivas à atmosfera, pode ser uma alternativa às fontes ainda mais poluentes, como o diesel. Porém, essa substituição só será viável se houver redução dos custos de produção e entrega do gás natural, tornando-o competitivo.

Falando do próprio Instituto E+, Amanda Ohara destaca a importância de existir uma entidade focada nas questões da transição energética no Brasil. “O instituto tem uma visão integrada sobre todos os aspectos do setor de energia, o que é altamente positivo num meio em que coexistem muitas outras instituições e empresas, que pensam com mais exclusividade em seus próprios temas. O E+ também consegue antecipar questões que podem mudar totalmente a regra do jogo no setor elétrico, como a digitalização”, conclui.


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