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Brasil perde Alfredo Sirkis, o Descarbonário

Sirkis, que acabara de lançar novo livro, “O Descarbonário”, morreu em acidente de carro. Obra traz memórias do ambientalista e proposta para nova economia

10 de julho de 2020
O escritor e ambientalista Alfredo Sirkis morreu em acidente de carro, no Rio (foto: Dilvulgação)

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O Brasil perdeu hoje um de seus mais experientes e aguerridos ativistas pela preservação do meio ambiente. Fundador do Partido Verde, pelo qual concorreu à Presidência da República, em 1998, o ex-deputado Alfredo Sirkis, 69 anos, não sobreviveu a um acidente no Arco Metropolitano, na altura de Nova Iguaçu.

Ele dirigia, sozinho, para um sítio, no interior do Estado, a fim de visitar a mãe e um dos filhos. Seu carro saiu da pista, bateu em um poste e capotou. No último dia 25 de junho, Sirkis lançou o livro “Descarbonário”, uma obra com características autobiográficas concluída 40 anos depois do clássico “Os Carbonários”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1981.

Jornalista, escritor, roteirista de TV e cinema, gestor ambiental e urbanístico e ex-parlamentar, Sirkis era o diretor executivo do Centro Brasil no Clima (CBC). Entre outubro de 2016 e maio de 2019 foi coordenador executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC), no qual organizou a campanha Ratifica Já!, que propiciou a ratificação, pelo Brasil, do Acordo de Paris.

Quando deputado federal (2011-2015), presidiu a Comissão Mista de Mudança do Clima do Congresso Nacional (CMMC) e foi um dos vice-presidentes da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.

A estreia em jornal de Sartre

Sirkis foi vereador em quatro mandatos, secretário municipal de urbanismo, presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP), entre 2001 e 2006, e secretário municipal de meio ambiente no Rio de Janeiro, entre 1993 e 1996. Foi membro da delegação brasileira nas conferências do Clima de Montreal, Bali, Copenhagen, Durban, Varsóvia, Lima, Paris, Marrakech e Bonn.

Alfredo Sirkis começou a trabalhar como jornalista em Paris, em 1973, no então recém-fundado jornal Liberation, dirigido por Jean Paul Sartre. Foi seu correspondente em Santiago (1973) e Buenos Aires (1974). Em Portugal, colaborou com os semanários Expresso e Gazeta da Semana e os jornais República, Diário Popular, Diário de Lisboa. Foi redator do Jornal Novo, editor internacional de Página Um e redator chefe da edição em português de Cadernos do Terceiro Mundo. Nessa época também colaborou com Le Monde Diplomatique.

Exílio em quatro países

Nos anos 1970, passou oito anos e meio no exílio na França, Chile, Argentina e Portugal. Foi líder estudantil em 1967 e 1968. Entre 1969 e 1971, participou da resistência armada contra a ditadura militar no Brasil, atuando em operações armadas. As mais famosas foram os sequestros de embaixadores para exigir a libertação de presos políticos.

Foi repórter das revistas Veja (1982) e Istoé (1983) e colaborou com Pasquim, Playboy, Jornal de Domingo e Shalom. Elaborou diversos roteiros para a TV Globo. Foi colaborador dos jornais O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Valor Econômico e Correio Braziliense.

Sirkis era casado há 25 anos com a arquiteta, curadora, cenógrafa e editora Ana Borelli. Ele deixa os filhos Guilherme, Noah e Anna. Não tinha netos.

Descarbonário, a última obra de Sirkis

Capa do livro Descarbonário

Quarenta anos após “Os Carbonários”, um clássico literário ganhador do prêmio Jabuti de 1981 sobre a geração que enfrentou a ditadura de 1967 a 1971, Alfredo Sirkis acabara de lançar outro ambicioso depoimento geracional: “Descarbonário”, seu décimo livro. A obra traz uma narrativa ágil, com muitos relatos do que o autor testemunhou de mais relevante como político e ambientalista.

“Descarbonário” é centrado no tema preferido de Sirkis: a descarbonização da atmosfera como forma de combater as mudanças climáticas. Segundo ele, a transição para baixo carbono será forte dinamizadora da economia e geradora de empregos.

O clima não é o único assunto do livro, que começou a ser escrito em 2016 e traz muitas histórias pessoais, memórias dos anos 80 até os dias atuais, e opiniões sobre variados temas, como a liberação das drogas e as alternativas para a economia pós-pandemia. Faz uma análise crítica e profunda da política brasileira nos últimos 20 anos, além de casos curiosos sobre as vivências de Sirkis no Congresso, e participações de conferências do clima em diversos países do mundo.

Descarbonização produtiva

A narrativa de “Descarbonário” termina no dia 26 de dezembro de 2018, quando Sirkis entrega ao então presidente Michel Temer, em fim de mandato, o documento “Mudanças climáticas: riscos e oportunidades para o Brasil”, desenvolvido pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC). Nele, constava uma proposta com as medidas necessárias para o Brasil se tornar um país carbono neutro com emissões zero de gases de efeito (GEEs).

Sirkis destaca na apresentação do livro que, com a recessão causada pela pandemia, certamente haverá uma redução entre 6% e 7% das emissões de CO2 por queima de combustível fóssil. “No entanto, aquelas por desmatamento podem não ser afetadas devido ao seu aumento dos últimos meses”, explica. Para reverter esse quadro, ele defendia um mecanismo de financiamento da descarbonização produtiva, na qual a redução ou remoção do carbono da atmosfera, o menos-carbono, seria o “novo ouro” e uma fonte de valor econômico.


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