Bom roteiro de balé urbano para as ruas do Centro | Diário do Porto


Urbanismo

Bom roteiro de balé urbano para as ruas do Centro

Uma reflexão da jornalista Amelia Gonzalez, que viveu um pesadelo ao inaugurar um restaurante no Centro do Rio. Ela torce por mais moradias na região

17 de setembro de 2021

Centro da cidade: cariocas querem mais ordem, lazer e segurança (Foto: Agência Brasil/Tomaz Silva)

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Amelia Gonzalez

Amelia Gonzalez

 

 

Há cerca de seis anos, decidi investir o dinheiro que recebera depois de uma vida inteira de trabalho – leia-se Fundo de Garantia – e transformá-lo em capital produtivo. Começou assim uma empreitada que não me deixou saudades e esvaziou completamente meus bolsos. Era um restaurante pequeno, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, a preços bem populares, do tipo “self service”. Virou um pesadelo.

Com muitos erros de gestão, na esteira da crise financeira e econômica monumental que vem assolando a cidade desde então, foram-se meu restaurante e meu sonho. Mas não posso nem devo ser injusta: ficaram algumas boas lembranças – que estou relatando num livro – e muita experiência. Acima de tudo, colou em mim uma brutal noção de espaço urbano.

Desespero nas ruas

O Centro de uma cidade precisa de pessoas circulando para que qualquer negócio instalado dê certo. E, nos anos que se seguiram ao meu empreendimento, o que mais vi no Centro da segunda cidade mais rica do país foram calçadas virando dormitórios, muita gente muito pobre sem ter para onde ir, faminta, em desespero.

Hoje ainda não está diferente. Mas, aqui e ali, ouço novidades que, em tempos tão sombrios como os que estamos vivendo, acabam sendo uma luz de esperança. Agarrei-me, por exemplo, à notícia de que o prefeito Eduardo Paes está convicto da necessidade de mudar o perfil do Centro do Rio, tornando-o residencial, não apenas comercial. É uma ótima iniciativa, até porque se trata de uma tendência nos grandes centros de todo o mundo. E é muito fácil explicar por quê.

Primeiro, vamos aos fatos: o último relatório do Worldwatch Institut, publicado em 2012, já dava conta de que o número de cidades com mais de dez milhões de habitantes mais do que duplicara na primeira década do século. Tóquio era então a mais povoada – e continua sendo, com mais de 37 milhões de pessoas. Para quem torce o nariz só de pensar na multidão, vale saber também que a cidade é o quarto centro financeiro do mundo, o que não quer dizer que ela ofereça bem-estar aos seus cidadãos. Tóquio não consta da lista das cidades mais felizes do mundo, mas certamente seu Centro é um lugar importante e bem cuidado. E é muito diversa, o que leva os moradores a terem contato com várias culturas diferentes.

Tóquio à noite
A adensada cidade de Tóquio, a maior do mundo (Photo Deposit)

Embora não seja garantia de bem-estar, já que isso ficará sempre a cargo de boas políticas públicas, as cidades, mesmo muito povoadas, oferecem muito mais chances para seus cidadãos. O ser humano é gregário. A criatividade é maior quanto mais houver relações sociais.  O autor Edward L. Glaeser, que em 2011 lançou o livro “Os centros urbanos: a maior invenção da humanidade” (Editora Campus Elsevier), defende a densidade demográfica. Para ele, quanto mais densa e compacta, mais ecológica será a cidade, já que requer menos uso de carros e cujas casas, menores, não exigem tanta energia para se aquecerem ou se resfriarem.

“Se o futuro tiver de ser mais ecológico, ele também precisará ser mais urbano. Pelo bem da humanidade e de nosso planeta, as cidades representam – e assim deve ser – a onda do futuro”, argumenta Glaeser.

Jane Jacobs
Jane Jacobs, uma defensora das cidades abertas e plurais (reprodução)

Autora que também gosto de ler para refletir sobre urbanidade é Jane Jacobs, uma super ativista social canadense que morreu em 2006, aos 90 anos. “Morte e vida das grandes cidades” foi seu grande gol, lançado nos Estados Unidos em 1961, que chegou aqui só no início deste século. O tema central é Nova York, cidade onde Jane viveu. A autora utiliza uma linguagem bem atraente, conta histórias a partir de sua própria vivência. Chama de “balé urbano” a diversidade que defende que exista nas grandes cidades. Nesse ponto, seus pensamentos convergem com os de Glaeser.

Para abraçar a diversidade e, ao mesmo tempo, oferecer qualidade de vida aos cidadãos, no entanto, é preciso percorrer um longo caminho de boas políticas públicas. É o que eu torço, mas torço muito, que venha a acontecer com o Rio de Janeiro. É preciso ter um olhar amplo. Serviços públicos têm que estar sempre à mão, a mobilidade urbana precisa ser eficiente, os carros não podem ser priorizados em detrimento das pessoas. O lucro não pode vir antes dos humanos.

Jane Jacobs cita o exemplo de um gestor que pensou muito em segurança e, para isso, construiu bons conjuntos habitacionais em Pittsburgh, nos anos 50. Não adiantou. Um estudo chegou à “embaraçosa conclusão de que a delinquência era mais alta nos conjuntos habitacionais novos, onde havia melhorias”.

Vida saudável

“Será que isso significa que moradias melhores aumentam a criminalidade? De modo algum. Significa, porém, que outras coisas podem ser mais importantes que a habitação, e também que não existe nenhuma relação direta e elementar entre boa moradia e bom comportamento, fato que toda a história da civilização ocidental deveria ter tornado evidente há muito tempo”, escreve ela.

Paes vai precisar se cercar de especialistas para levar adiante sua boa iniciativa. Não adiantam prédios bonitos, empreendimentos seguros, se houver lacunas no processo de levar vida saudável e bem-estar às tão sofridas ruas do Centro do Rio. Estou na torcida para que ele consiga, mas vai dar trabalho. O Rio de Janeiro está precisando muito mais do que boas promessas e boas energias.

*Editora do blog Ser Sustentável


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