Reflexão sobre a barbárie na Praça XV, coração do Brasil | Diário do Porto


Editorial

Reflexão sobre a barbárie na Praça XV, coração do Brasil

Assassinato do jovem Lucas entre joias históricas da Praça XV precisa levar os governantes do Rio a refletirem sobre o descuido com a região

13 de março de 2022

Lucas, 27 anos, foi assassinado após sair de bloco na Praça XV

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A manhã deste domingo, 13 de março, começa com um ato na Praça XV em memória de Lucas Ferreira Vianna, de 27 anos, assassinado na madrugada do domingo passado. Ele teve o pescoço cortado por um assaltante. A tragédia que tirou a vida do jovem no palco mais importante da História do Brasil obriga a todos nós a uma reflexão sobre o limite da tolerância com a degradação da condição humana na cidade mais bonita do mundo.

Passava das duas da madrugada de domingo quando Lucas sentou-se na calçada para um breve descanso depois de um bloco de carnaval. Estava com uma amiga na Rua Primeiro de Março, quando reconheceu o assaltante que, uma semana antes, levara seu celular. Houve discussão, o ladrão quebrou uma garrafa e usou-a para cortar o pescoço de Lucas, de 27 anos. Estava acompanhado de comparsas.

Os pais de Lucas desceram de Teresópolis, onde moram, trazendo para a capital os documentos do filho, e encontraram o corpo no Hospital Souza Aguiar, no Campo de Santana. O sepultamento, em clima de desespero, foi na tarde do dia seguinte, segunda-feira.

É insuportável a tragédia vivida pelos Ferreira Vianna, assim como a de incontáveis famílias destroçadas todos os dias em um dos países mais violentos do mundo. Mas a barbárie que tirou a vida deste jovem ainda abre uma ferida especialmente dolorosa na alma carioca.

Praça XV do Paço e da Sé

Lucas morreu no ponto onde a nação brasileira nasceu, um lugar que deveria ser iluminado e protegido como a joia mais valiosa de nosso turismo cultural. Ele foi atacado em frente à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a Antiga Sé, a Capela Real onde João VI virou rei e na qual Pedro I e Leopoldina se casaram. É a Capela Imperial, que coroou os dois únicos imperadores na América do Sul e casou a Princesa Isabel com o Conde D´Eu. Foi catedral da capital durante o maior período da República. 

Lucas morreu ao lado do Paço Imperial, onde Dom Pedro anunciou ao povo que não voltaria a Portugal, decidido a declarar a Independência, e onde a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Ali está o Palácio Tiradentes, a Cadeia Velha, onde o Herói da Inconfidência ficou três anos preso antes de ser enforcado, ex-sede da Assembleia Legislativa e futuro Museu da Democracia.

 

As janelas do Paço Imperial
Paço Imperial (fotos Diário do Porto)

 

Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé
Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé

Nenhuma cidade do mundo deixaria às escuras, entregue a baratas e homicidas, uma joia deste quilate. Poucos países têm atrações impressionantes como a Praça XV. O episódio mostrou que os bandidos batem ponto ali: praticam crimes e voltam sem temer que a polícia os reconheça, como Lucas reconheceu. São protegidos pelo abandono, pela má iluminação e pela falta de vontade política. 

Descortinar a riqueza da Praça XV foi um dos principais objetivos da prefeitura do Rio ao derrubar o Viaduto da Perimetral, no projeto do Porto Maravilha, que consumiu cerca de R$ 8 bilhões. O prefeito agora quer derrubar o antigo anexo da Assembleia Legislativo. Se conseguir, a Praça XV vai ficar ainda mais bonita, mas a demolição do prédio feioso está longe de ser a prioridade no resgate do centro histórico.

Milhares de passageiros por dia

A Praça XV não é só um quadro arquitetônico valioso ou um museu a céu aberto do Brasil Colônia, do Brasil Real, do Brasil Imperial e do Brasil República. Por ali passam dezenas de milhares de passageiros diariamente para embarcar para Niterói e para as ilhas do Governador e de Paquetá. É o ponto final de uma linha do VLT, o trenzinho de mais de R$ 1 bilhão.

Além de guardar a alma nacional, a Praça XV é um ponto estratégico da vida urbana carioca. Precisa de guardas municipais na proteção do Patrimônio, de policiais para intimidar os bandidos, de limpeza, iluminação, ordem e incentivo a moradias e ao comércio, O poder público nada pode fazer para reduzir o trauma ou aliviar a dor diante da perda do jovem Lucas. Mas tem o dever de refletir sobre o que aconteceu e evitar que sua omissão produza novas tragédias no coração do Rio de Janeiro. 

 


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