Cultura e Lazer

A polêmica bandeira de Adriana Varejão para o Museu de Arte do Rio

Artista diz que se inspirou em búzio, que “se assemelha ao órgão genital da mulher”. Ano passado o MAR foi proibido de expor Queermuseu, com obra de Varejão. Seminário “Samba, patrimônio do Brasil” também acontece hoje

8 de dezembro de 2018
Bandeira do MAR, de Adriana Varejão

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Bandeira do MAR, de Adriana Varejão
Bandeira do MAR, de Adriana Varejão: desenho da artista remete ao órgão genital feminino

O hasteamento de uma bandeira pode ser cult? Ou, tipo assim, muito polêmico? O Museu de Arte do Rio (MAR) responde a dúvida neste sábado 8. Às 17h, será hasteada uma bandeira com alto potencial de controvérsia em tempos de neoconservadorismo. A peça foi criada pela consagrada – e ousada – artista carioca Adriana Varejão. Ela se inspirou em um búzio que, segundo suas próprias palavras – e a primeira impressão de quem vê a bandeira -, assemelha-se ao órgão genital feminino.

“Essa é minha primeira bandeira. Minhas inspirações foram a Pequena África, região do MAR, e a homenagem à mulher. Por isso, uso um búzio que remete à casa, ao universo feminino, e se assemelha ao órgão genital da mulher, além de ter uma forte relação com o mar, lembrando a chegada dos africanos à região”, explica Adriana Varejão.

Adriana é carioca e uma das artistas brasileiras de mais destaque na cena contemporânea, no Brasil e exterior. Realiza exposições individuas desde 1988, sendo a última este ano na Victoria Miro Gallery, em Veneza. O mastro será usado pela primeira vez para marcar o aniversário de cinco anos do Museu de Arte do Rio.

O MAR no centro da polêmica entre arte e censura

O hasteamento da bandeira pode reposicionar o MAR na discussão sobre os limites entre liberdade da arte, moralismo e censura. Em outubro do ano passado, o conselho consultivo que aprova a programação do museu deliberou por abrigar a exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira“, que havia sido suspensa pelo Santander Cultural, em Porto Alegre. Por decisão do prefeito Marcelo Crivella, no entanto, a agenda foi vetada pela organização social que administra o museu, o Instituto Odeon.

Crivella considerou a mostra imoral. Integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) já haviam iniciado uma onda nas redes sociais, acusando os artistas de promoção da pedofilia, zoofilia e sexualização de crianças. Isso por causa da performance do coreógrafo Wagner Schwartz na 35ª Exposição Panorama da Arte Brasileira no MAM-SP. Na ocasião, foi para as redes um vídeo em que uma criança aparece interagindo com um artista nu. Grupos religiosos também consideraram o conteúdo do Queermuseu ofensivo às suas crenças. Foi o que levou o Santander a cancelar a programação em Porto Alegre.

O prefeito do Rio também foi às redes sociais posicionar-se pelo veto ao Queermuseu. Em 1º de outubro, em seu perfil no Facebook, Marcelo Crivella declarou: “Saiu no jornal que ia ser no MAR. Só se for no fundo do mar. Por que no Museu de Arte do Rio, não.” No post, escreveu: “Não é legal estimular uma criança a tocar em um homem nu em ‘nome da arte’. É preciso respeitar a família, vamos cuidar das nossas crianças!”. O Queermuseu acabou se apresentando ao público no Parque Lage, administrado pelo governo do Estado, de agosto a setembro deste ano.

Cenas de Interior II, de Adriana Varejão
Cenas de Interior II, de Adriana Varejão

Uma das obras, aliás, que mais provocaram a ira conservadora foi uma pintura a óleo de Adriana Varejão. Em “Cenas de interior II“, de 1994, a artista inspirou-se no estilo shunga das gravuras eróticas japonesas. A pintura retratava um ato de zoofilia, o que foi interpretado como defesa da prática.

À época, Adriana Varejão disse que a intenção foi expor práticas que ocorrem, embora às escondidas: “É uma compilação de práticas sexuais existentes, algumas históricas (como as Chungas, clássicas imagens eróticas da arte popular japonesa) e outras baseadas em narrativas literárias ou coletadas em viagens pelo Brasil. O trabalho não visa julgar essas práticas.”

O próprio presidente eleito Jair Bolsonaro, à época deputado federal, chegou a dizer que deveriam “fuzilar os autores dessa exposição”, ressalvando que usava uma “força de expressão”. Foi em um debate na TV Verdade, do SBT/Alterosa, em Minas Gerais.

MAR discute o “Samba, patrimônio do Brasil”

Quadro exposto em O Rio do Samba: resistência e reinvenção (MAR)
O Rio do Samba: resistência e reinvenção (MAR)

O Museu de Arte do Rio preparou uma programação carioquíssima para continuar celebrando o Dia Nacional do Samba, que foi dia 2 deste mês. Trata-se do seminário ‘Samba: patrimônio do Brasil‘. Inaugurada em abril, a exposição ‘O Rio do Samba: resistência e reinvenção‘ marca o aniversário de cinco anos da instituição e já emocionou milhares de visitantes.

“Trazer o samba para dentro do museu foi um grande acerto da nossa programação. Não tinha forma melhor para comemorar os 5 anos do MAR do que uma exposição sobre esse patrimônio brasileiro, que é um fenômeno social, cultural e estético que resiste, se reinventa e inventa formas de estar no mundo. O samba aproximou ainda mais o carioca do MAR”, conta Eleonora Santa Rosa, diretora executiva do museu.

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O sábado será dedicado ao seminário. Promovido pelo MAR e o Museu do Samba, o evento tem o objetivo de analisar os avanços e desafios da preservação do samba carioca como patrimônio cultural e o impacto do processo de patrimonialização, além de debater propostas para o fortalecimento desse bem, que é de todo o povo brasileiro. As inscrições são feitas no site do MAR.

Confira a programação completa do seminário:

9h30 – Credenciamento

10h – 10:30h – Abertura:

Evandro Salles (Diretor Cultural Museu de Arte do Rio), Tiãozinho da Mocidade (Museu do Samba), Hermano Queiroz (Departamento de Patrimônio Imaterial/IPHAN), Nilcemar Nogueira (Secretaria Municipal de Cultura)

 

10:30h – 12:30h – Mesa 2: A história de uma conquista: O Dossiê do Samba Patrimônio Cultural Brasileiro

Exibição do documentário Matrizes do Samba no Rio de Janeiro (20min). Aloy Jupiara (pesquisador), Maria Cecília Londres Fonseca (Conselho Consultivo de Patrimônio Cultural – IPHAN), Helena Theodoro (pesquisadora). Mediador: Felipe Ferreira.

 

14:00h – 15:30h – Mesa 3: Patrimonialização e impactos: as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro.

Rachel Valença (Museu do Samba), Julia Pereira (Rede Carioca de Rodas de Samba), Vinicius Natal (Departamento Cultural da Vila Isabel) e Luiz Antonio Simas (Historiador). Mediador: Leonardo Bruno.

 

15:30h – 17:30h – Mesa 4: Políticas Públicas e Salvaguarda do Samba

Eliomar Coelho (Comissão de Cultura ALERJ), Reimont Luiz (Comissão de Cultura da Câmara Municipal), Juliana Oakim (Instituto Rio Patrimônio da Humanidade – IRPH), Marcus Monteiro (Inepac) Hermano Queiroz (Departamento de Patrimônio Imaterial/Iphan). Mediadora: Rachel Valença

Debatedores: Desirree Reis (Conselho Municipal de Cultura RJ-Segmento Patrimônio Cultural), Marcelo Santos (Rede Carioca de Rodas de Samba), Marcia Chuva (UNIRIO) e Luciane Barbosa (UFRRJ).

 

17:30h-20h – Roda de samba: Apresentação musical com o grupo Moça Prosa

 

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