As ideias de Tarquínio de Almeida, novo comandante do Porto | Diário do Porto

Economia

As ideias de Tarquínio de Almeida, novo comandante do Porto

Presidente da Cdurp quer que empresas paguem o Porto Presente e contratem moradores da Providência. Ele abre planos para roda gigante, teleférico e startups

19 de setembro de 2019
Tarquinio de Almeida, ex-presidente da Cdurp

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O estilo de Tarquínio de Almeida, novo comandante do Porto Maravilha, é o do jogador que fala pouco, corre muito e não comete faltas. No sapatinho, ele já marcou um gol no primeiro mês como presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp). Conseguiu balançar o coração – e o bolso – da Caixa Econômica Federal, que voltou a fazer repasse de verbas para o Porto Maravilha. Assim, ele impediu que a Concessionária Porto Novo abandonasse a complexa operação dos túneis da região, o que poderia provocar o colapso na mobilidade do Rio.

Tarquínio recebeu o DIÁRIO DO PORTO para, segundo ele, “a mais longa entrevista” já concedida no cargo, “já que falam muito bem da qualidade do trabalho de vocês”. É assim, com fala mansa e jeito simples, que o presidente da Cdurp valoriza seus interlocutores, deixa-os à vontade e vai construindo o ambiente para apresentar ideias e projetos. Os projetos são muitos, e as ideias são firmes, mesmo apresentadas de forma serena. Por exemplo, ele bate nos excessos da Lava Jato por terem desmontado grandes empresas de engenharia em vez de limitar-se a punir os malfeitores.

Aos 59 anos, Tarquínio ostenta 40 anos de serviço público. A mais recente missão foi como presidente da Comlurb, a empresa municipal de limpeza urbana, de onde ele foi retirado pelo prefeito Marcelo Crivella para desatar os nós do Porto Maravilha. Tarquínio revelou ao DIÁRIO seus planos de gestão. Ele quer que toda empresa ou evento no Porto contrate pessoas das favelas da região. Com elegância, chama a Caixa à responsabilidade pela maior PPP (parceria público privada) já firmada no país e aposta as fichas na roda gigante Rio Star como indutora de um novo pólo turístico e comercial na região. Ele revela um pouco mais dos empreendimentos que estão por ser anunciados no Porto. Com a palavra, Tarquínio de Almeida.

 


 

DIÁRIO DO PORTO: O que precisa ser feito para o Porto Maravilha decolar?

Tarquínio de Almeida: Tudo o que se pensou para a região no início foi que, se deu certo em tantos lugares do mundo, por que não daria em uma cidade como a nossa, com tanta vocação turística, que para o mundo é a capital do Brasil? Tudo que foi lançado aqui é fundamental, extraordinário, mas precisa de ajustes. Cheguei em um momento terrível de crise total, com o risco de parar a mobilidade da cidade inteira, com a interrupção da operação dos túneis. A concessionária Porto Novo detém a expertise na operação e manutenção de um sistema desenvolvido especificamente para as condições da região. No mundo todo você tem túneis abaixo do nível do mar, até sob a água. Mas esta obra foi concebida para a situação do Rio, com tecnologia importada, e só quem acompanhou desde o início a montagem do complexo adquiriu a expertise para operá-lo.

DIÁRIO: A Porto Novo tem uma dívida grande para receber da Prefeitura e dizia que não poderia continuar operando sem receber. O que o sr. fez para convencer a concessionária?

Tarquínio: A gente encontrou uma situação tensa, com posicionamento estático por parte da Caixa e que nos preocupava muito. Precisávamos aquecer o ambiente, trazer os atores para a mesa, ver os anseios de cada parte e, juntos, construir um caminho que levasse ao desfecho que levou, à não paralisação da prestação de serviços pela concessionária.

O acordo pressupõe o repasse mensal durante oito meses, período no qual vamos reavaliar o contrato, criar novos marcos, para então dar continuidade ao projeto até seu final

DIÁRIO: E o pagamento, como ficou?

Tarquínio: A primeira coisa a resolver era que a concessionária estava há 14 meses sem repasse. Ela chegou a um momento em que alegou que não tinha mais condições de honrar seus compromissos e tocar a operação dos túneis. A Prefeitura já tinha assumido tudo aquilo que tinha condições de fazer por meios próprios, como limpeza urbana e conservação. Os túneis a Prefeitura não tinha como operar diretamente, uma vez que só a concessionária detém o conhecimento para operar com segurança esse complexo. Era o que mais nos preocupava. Por isso, sentamos, ouvimos as partes e construímos juntos um caminho. Ele estabelece a continuidade do serviço, honrando-se daqui para a frente o retorno de pagamento mensal pela sinalização e operação dos túneis. O acordo pressupõe o repasse mensal durante oito meses, período no qual vamos reavaliar o contrato, criar novos marcos, para então dar continuidade ao projeto até seu final. Todos atores têm o segundo dever de casa para esses oito meses: fazer uma nova modelagem do contrato que possa dar suporte e continuidade a ele.

DIÁRIO: A Porto Novo passará a receber quanto da Prefeitura?

Tarquínio: A operação não envolve nenhum recurso da Prefeitura. O contrato é com a Cdurp, mas quem vai bancar é quem deveria ter bancado até hoje, a Caixa, através dos fundos. A Caixa repassa o dinheiro dos fundos, a Cdurp fiscaliza e faz os pagamentos. Nosso dever de casa foi sensibilizar a Caixa de que as perdas advindas de um desfecho diferente deste seriam catastróficas para a cidade, o consórcio e a própria Caixa. Todos perderiam, seria um jogo de perde-perde.

Haveria perda da segurança jurídica desse tipo de PPP (parceria público-privada), que é um case. Isso jogaria em descrédito toda a modelagem da PPP, que o próprio governo Bolsonaro vem propondo como necessária, uma vez que o poder público não dispõe de recursos para investir em infraestrutura. As PPPs viabilizam o desenvolvimento das obras de infraestrutura no país, com foco na geração de emprego e renda, que precisamos tanto. Se você rasga o contrato da maior PPP do Brasil, você estabelece o retrocesso, o descrédito total.

Foi nosso trabalho principal. Estive em Brasília, conversei muito com a Caixa. É muito fácil falar “é um problema lá do Rio de Janeiro, um probleminha localizado.” Sim, é localizado, mas afeta o país como um todo. Conversando, com responsabilidade, resiliência, acima de tudo parcimônia, conseguimos fechar esse entendimento. A Caixa se mostrou sensível e voltou a buscar recursos do fundo garantidor para que a gente viva esse período e reconstrua a operação em uma nova modelagem.

Veículos no Túnel Rio450
Túnel 450: paralisação provocaria colapso na mobilidade do Rio (foto: túnel Rio450/divulgação)

DIÁRIO:Vai pagar daqui para a frente, mas e a dívida passada?

Tarquínio: Nesses oito meses não haverá pagamento do passado, em princípio. O que se resolveu foi o que era urgente, primordial para não interromper a operação dos túneis.

DIÁRIO: Quanto a Porto Novo vai receber por mês?

Tarquínio: Estamos falando de um valor em torno de R$ 4.3 milhões por mês durante oito meses, é só para a operação e sinalização dos túneis. Os outros serviços estão com a Prefeitura. Mas isso é temporário, não queremos uma operação capenga. Queremos que ela contemple todos os serviços contidos no escopo do contrato e que foram interrompidos. Vamos realinhá-los para que possam ser retomados. Isso só acontecerá se cada um, no seu quadrado, realizar sua parte, que passa pelo fomento da região.

A Cdurp já vem fazendo a parte dela. Estamos para inaugurar a roda gigante e vários outros negócios em andamento. A Bradesco está vindo para o Porto, a Caixa sinalizou que está vindo para cá com a figura do seu próprio presidente. Temos investidores estrangeiros que estão sinalizando com a vinda para fazer negócios.

Temos também um projeto na área contígua ao Sambódromo que vai irradiar benefícios para o Porto. É bastante ousado, com capital estrangeiro e sem recurso da prefeitura. Vai revitalizar toda a região para que as empresas possam se mudar pra lá. É uma modelagem semelhante à da Cidade Nova, com algumas vantagens. Haverá equipamentos urbanos, praças, áreas de lazer, condomínios residenciais. Vão fazer com que aquela região se some à área do Porto Maravilha, com mais mobilidade, segurança principalmente, e movimentação de pessoas entre as duas áreas.

Quando a gente fala de segurança pública, foca em polícia, polícia, polícia. A polícia atua quando o leite já está derramado.

DIÁRIO: Tanto no entorno do Sambódromo quanto na região portuária, há medo de tiroteios nas favelas. Sempre que falamos da roda gigante, os leitores se referem ao medo de ficar na linha de tiro. Armas e drogas são problemas estaduais e federais, mas o que o sr. pensa sobre isso? Há algum plano para enfrentar esse problema?

Rio Star com Morro da Providência ao fundo
Rio Star vai incluir a Providência em cartão postal do Porto (Estefan Radovicz/Agência O Dia)

Tarquínio: Quando a gente fala de segurança pública, foca em polícia, polícia, polícia. A polícia atua quando o leite já está derramado. O que você tem que fazer é prevenção, entendimento, envolvimento com as comunidades. Você não pode tratar as comunidades como elementos isolados. O Rio é o maior polo turístico do Brasil e convive com este problema em todas as áreas. A topografia acidentada impõe a área urbana imprensada pelos morros. O pecado original da cidade é a cisão, o isolamento.

Nossa proposta é que todos os parceiros que venham para o Porto coloquem em seus projetos uma rubrica de entendimento, atração das pessoas nas comunidades. Assim, você faz o link e procura reinar na calmaria. Um exemplo prático é a roda gigante. Vamos ter 20% a 30% do potencial do emprego, dos negócios da roda e do seu entorno, vindos da Providência e dos bairros vizinhos. Esta á uma regra número um. Assim, você ganha como parceiro e participante a comunidade, que vai ter o maior interesse em proteger esses negócios. Por que não esticar a roda gigante até 22h, se vai gerar mais emprego e renda?

 


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DIÁRIO: Mas, para isso, é preciso aumentar a segurança e a sensação de segurança. Como?

Tarquínio: As cidades mais seguras do mundo fazem isso com ostensividade. Nas cidades europeias, como Londres, você vê polícia o tempo todo, desarmada até, mas ela está ali presente. No nosso entendimento, a melhor solução é a Guarda Municipal, que custa menos do que a PM. É preciso ter investidor para isso. Pretendemos fazer em breve o Porto Presente. Mas vamos precisar de investidor. Temos diversas empresas chegando que podem colocar sua marca nisso, é bom para elas, dá retorno. É muito rápido. Vamos procurar o Bradesco, e tem mais gente que está chegando. Podemos fazer um pool de empresas ou pegar um grande grupo econômico que queira capitalizar só para ele, então ele banca. Isso vai nos ajudar a sair da área consolidada do Porto Maravilha que é a Saúde, chegar à Gamboa com a roda gigante, ao Santo Cristo e à Rodoviária. É preciso evoluir, ocupar essa região, dar movimentação a ela. Só vamos fazer isso com a chegada de negócios e da transmissão da sensação de segurança.

DIÁRIO: Costurar o Porto Presente é sua prioridade?

Tarquínio: É uma delas, mas, no primeiro momento, a prioridade máxima é trazer a comunidade para o desenvolvimento do Porto. A gente tem que ter a comunidade participando diretamente de todos os processos, com empregabilidade mesmo.

Guardas municipais no Boulevard Olímpico do Porto Maravilha
Segurança no Porto Maravilha: Tarquínio quer Porto Presente (Foto DiPo)

 

DIÁRIO: Mas quais são esses projetos nos quais o sr. fala? Além da roda gigante, não há prédios sendo construídos, negócios chegando em uma escala para empregar um número de jovens que faça diferença na favela.

Tarquínio: Você tem razão. Mas a roda gigante vai fomentar muita coisa em volta. Além dos negócios permanentes, há muitos eventos aqui, e a gente vai estabelecer regras para o emprego temporário, como se faz no fim do ano. Você vai fazer um grande evento aqui e precisa de mão de obra. Então tá, vai contratar uma parcela da comunidade. Mesmo que seja temporário. O evento é de um mês? Prepare, treine, empregue.

Temos os eventos do Píer Mauá, feiras, o futuro Mercado do Porto. Tem um grupo espanhol que quer investir pesado na região. Eles têm potencial mundial de evento gastronomico, que é culinária de mexilhão. Atuam no mundo inteiro, sempre na região praiana ou portos revitalizados, montam feiras, restaurantes, têm calendário para os lugares onde não estão fixados.

Você vai fazer um grande evento aqui e precisa de mão de obra. Então tá, vai contratar uma parcela da comunidade. Mesmo que seja temporário

DIÁRIO: Não parece ser um otimismo descolado deste momento de crise?

Tarquínio: O que vai garantir o bom desfecho da PPP do Porto Maravilha é o alinhamento de todas essas iniciativas. Vencemos uma pequena batalha, que foi manter a operação dos túneis. Nesse primeiro momento, salvamos o contrato. Agora, precisamos fomentar negócios para que gerar recursos. A economia está dando sinais de melhoria. Temos que ter a valorização dos espaços. A crise foi cruel nessa região, tudo que se projetou não se verificou. A paralisação da venda dos Cepacs foi fruto do impacto que o projeto sofreu em função da crise econômica. Não depende só do Rio, depende do Brasil.

DIÁRIO: O Porto é uma área estratégica para negócios, pela estrutura, por estar entre dois aeroportos, perto de tudo. Mas não tem incentivo típico de áreas que são revitalizadas no mundo todo, como um imposto maior para donos de imóveis parados para especulação. A Lei da Inovação, que daria incentivo para a indústria criativa na região, está parado à espera de aprovação do prefeito. O que pode ser feito?

Tarquínio: Este projeto não está descartado.

DIÁRIO: Nem encartado. Ele não sai do lugar.

Tarquínio: Vamos combinar que eu estou sentado nesta cadeira há dez dias. Eu tinha uma prioridade, que eram os túneis. Isso que você está dizendo está em nosso radar, e vamos fazer gestão para que essas iniciativas evoluam. Nós acreditamos que o Porto possa evoluir de forma célere com a adoção dessas iniciativas. Precisamos dar um tratamento diferenciado, incentivar uma modelagem que vise a inovação. Os polos de startups são foco nosso. Precisamos de uma tributação diferenciada para estimular quem quer investir na frente dos outros. Lá no futuro, depois que se consolidar, a gente rediscute, mas no primeiro momento é preciso estimular quem quer chegar primeiro.

Tarquínio Almeida no computador
Tarquínio conseguiu convencer a Caixa a retomar pagamentos para a Cdurp (Foto DiPo)

DIÁRIO: A solução para Porto Novo pode ser de alguma forma aplicada para impedir a paralisação do VLT? Eles também estão sem receber da prefeitura.

Tarquínio: O VLT é um pouco diferente da Concessionária Porto Novo. À Cdurp cabe apenas a fiscalização do serviço, mas a gestão do contrato é feita pela Secretaria de Fazenda, que está revendo essas questões, verificando o contrato, vendo o que precisa ser corrigido, alinhado, acertado. Tem coisas que realmente saltam aos olhos, como o desbalanço entre receita e despesa. Tudo está sendo visto. É preciso tratar as coisas com responsabilidade, cuidado e com a prática da empatia acima de tudo, que é você se colocar no lugar do outro e entender suas dificuldades para propor soluções, e vice-versa. Isso está sendo feito agora para que se busque um entendimento, da mesma forma como construímos com a Porto Novo.

DIÁRIO: No projeto do VLT, estava previsto a eliminação de algumas linhas de ônibus circulando no centro para que as pessoas andassem em um transporte não poluente. O sr. é a favor de reduzir as linhas de ônibus para que o VLT tenha mais passageiros?

Tarquínio: A questão da mobilidade é mais complexa. Isto está com a Secretaria de Transporte, mas entendo que nada se resolve sem equilíbrio de demanda e oferta. Não adianta a gente sonhar com uma mobilidade limpa, não poluente, se o VLT não for a solução 100% para a mobilidade. Se ele for, que seja ele. Se não for, você não pode deixar a população desassistida.

Primeiro, tem que fazer estudo de demanda. Se ele anda vazio, por que anda vazio? Será que ele atende às necessidades do usuário? Onde ele para, aonde chega? Se você tiver um modal que, mesmo movido com energia suja, contemple a necessidade do usuário, o cara vai para ele. Como você vai fazer a população optar pelo VLT? Atendendo aos anseios. O foco tem que ser no cidadão. Na Europa, você chega no aeroporto e tem uma estação de metrô, de trem, não um ponto de ônibus.

Essas soluções linkadas precisam evoluir aqui para que a população sinta-se atendida e opte por meios de transporte mais adequados. A prefeitura tinha que tirar as linhas de ônibus? Sim. Mas o que ela vai colocar no lugar, se o VLT não atende todo mundo? A prefeitura não pode tirar as linhas de ônibus e não dar opção para o usuário.

 

VLT em teste na Avenida Marechal Floriano
VLT em teste: LInha 3 à espera de autorização do prefeito para funcionar

Por que a prefeitura não autoriza o funcionamento da LInha 3, que está pronta depois de um longo período de obras, gastos e sofrimento da população e dos comerciantes da Avenida Marechal Floriano?

Tarquínio: A Comlurb tem 22 mil funcionários, era uma cadeira elétrica para mim, 24 horas trabalhando de domingo a domingo, atuando com a Defesa Civil, em alimentos de escolas, limpando hospitais, tudo que não tem a ver com limpeza urbana, cortando árvores. Mas tinha uma vantagem lá. Todas as decisões eram da porta para dentro. Era o prefeito, eu e ponto final. Aqui é diferente, é o contrário. A maioria das decisões passa por atores que estão fora da prefeitura. As coisas são mais difíceis assim, a busca da sensibilidade é mais cansativa. Muitas coisas foram construídas em governos anteriores. Agora, se eu pensar como população, não quero saber mais nada, só quero esse troço funcionando. Não foi feito para funcionar? Sim, é verdade, mas não consigo responder isso sozinho. Primeiro, a gestão do contrato não está com a Cdurp, que fiscaliza parte da execução. Mas vamos buscar entender e nos colocar à disposição para ajudar na solução, buscar um caminho com foco no cidadão. Se foi concebida a Linha 3, alguém fez os estudos de demanda para consolidar o projeto.

DIÁRIO: A chegada do BRT ao Centro pode ser a oportunidade para rever o modelo como um todo?

Tarquínio: Exatamente. Você já tem o BRT chegando no Centro. Eu tenho um sonho. Eu sou engenheiro de formação, penso em tudo de melhor para cidade, sofro quando vejo funcionar bem no exterior e pergunto: por que não fazemos aqui? Por que não vamos lá, copiamos e trazemos para cá? Não precisa inventar nada. Em uma região como a nossa, tão bonita, não podemos ter tanta emissão de CO2. Mas você tem que provocar a iniciativa privada, ver os donos de empresas de ônibus, envolver a sociedade civil, buscar a representação da sociedade, as opiniões, para que todos proponham soluções para o bem estar de todos, e não para alguns.

DIÁRIO: O senhor já se debruçou sobre o problema do teleférico da Providência, que é responsabilidade da Cdurp e está parado há um tempão?

Tarquínio: É uma coisa que eu questiono. Por que ele é atribuição da Cdurp? Ele está aqui conosco, mas foi colocado aqui como solução emergencial. Não está na PPP do Porto Maravilha, foi colocado como solução temporária. A gente tem que olhar tudo que acontece na nossa cidade e no nosso país. E o teleférico do Alemão? E o bondinho de Santa Teresa? Temos muitos problemas para resolver, e o teleférico é um deles, é uma dívida que se tem com a comunidade da Providência que tem que ser resolvida. Mas temos que ver qual é a solução, debruçar sobre o projeto, entender como essa coisa aconteceu.

Vamos buscar uma solução junto à Prefeitura, mas a gente não deve misturar isso com a PPP. Tem que buscar uma solução separada e botar para funcionar.

Algo está errado como modelagem. Se você monta um projeto que é para atender a população de uma comunidade com dificuldade de mobilidade, você instala um equipamento e ele para de funcionar, algo está errado. É preciso estudar e propor solução. Vamos buscar uma solução junto à Prefeitura, mas a gente não deve misturar isso com a PPP. Tem que buscar uma solução separada e botar para funcionar. Tem que colocar para funcionar.

São tantas as demandas, que nós buscamos atuar no que é emergencial. Algumas pessoas dizem que a gestão do teleférico deveria ser da Rioluz, da Secretaria de Conservação, da Infraestrutura, que está aqui na Cdurp por questão de proximidade. Se tiver com a gente, a gente vai tocar, mas tocar para funcionar. É uma das entregas que podemos fazer para a população e que vai ao encontro do que estávamos falando sobre envolver a população no projeto e dar uma resposta do poder público para melhorar a comunidade.

 

Museu de Arte do Rio
O MAR mudou o cenário da Praça Mauá (foto: Aziz Filho)

 

DIÁRIO: A prefeitura lançou um novo edital para a gestão do Museu do Amanhã, mas o MAR, Museu de Arte do Rio, também tem um problema de falta de recursos. Qual será a solução?

Tarquínio: Os dois são geridos pela secretarias de Fazenda e Cultura. Todos esses negócios estão sendo revistos com foco na renovação de contratos e um resultado melhor para as partes. É importante que a prefeitura se desonere de etapas de financiamento, despesas. A prefeitura hoje tem como foco demandas sociais e precisa direcionar recursos. Não que venhamos a preterir a cultura, mas encontrar parceiros para ajudar a desenvolver a cultura para a prefeitura voltar recursos para as áreas carentes. Vemos muito potencial nisso.

O poder público precisa ser parceiro, fomentar a cultura, mas sem prejudicar outras áreas prioritárias, como educação, saúde, infraestrutura, conservação, muito afetadas pela crise

No exterior, subsídios públicos a museus e ambientes culturais são ínfimos. O principal patrocinador é o visitante. Como você vai ter museu do porte desses com entrada a R$ 20 ou R$ 12? Você vai a museus na Europa e paga cinco ou sete vezes mais do que isso, principalmente o turista. Então essas coisas precisam ser revistas para desonerar o poder público, para ele entrar com uma parcela menor de verbas. O poder público precisa ser parceiro, fomentar a cultura, mas sem prejudicar outras áreas prioritárias, como educação, saúde, infraestrutura, conservação, muito afetadas pela crise.

A crise foi no país todo, mas foi mais profunda no Rio, pelo problema na Petrobras. Perdemos 350 mil empregos em potencial de 2 milhões. São Paulo perdeu 350 mil em potencial de 4 milhões. Proporcionalmente, perdemos o dobro. São Paulo tem muito mais recursos que o Rio de Janeiro. O Rio precisa gerir muito bem os parcos recursos que tem. Não dá para fazer benesses em um momento como esse. Temos hoje em arrecadação RF$ 4,5 bilhões a menos por ano. Se você arrecadava R$ 30 bilhões, chegamos a arrecadar R$ 25 bilhões em função da crise e do impacto de coisas que não aconteceram. Acho muito ousado e corajoso o político que quer ser prefeito do Rio. É um desafio muito grande em um momento como esse.

DIÁRIO: O Porto Maravilha começou com a construção de grandes edifícios comerciais, mas hoje é unânime a compreensão de que é preciso ter mais habitações para desenvolver o comércio, os serviços. Há o que se fazer para estimular a construção de residências no Porto?

 

Edifícios do Porto Maravilha
Edifícios do Porto Maravilha recebem novas empresas (foto: Dipo)

Tarquínio: No mundo inteiro o downtown é um lugar central, no qual você tem serviços e escritórios, e as residências em geral ficam no entorno. Você pode ter um zoneamento e uma legislação que permitam uma integração de áreas residenciais com áreas de negócios. Este é o estado da arte, você faz a cidade viver 24 horas por dia se fizer isso. Mas tem que ouvir o empresariado. Não é o poder público que vai nortear ou impor isso. Podemos até participar diretamente, pegar um terreno nosso para gerar projetos residenciais é possível fazer. Mas você precisa fazer estudos de demandas.

Será que o CEO da empresa, os stakeholders, os gerentes, os empregados da gestão têm interesse em trabalhar e morar no mesmo espaço? O que a gente vê no Rio é o cara que vem da Zona Sul trabalhar aqui porque é perto de tudo. Aqui tem lazer, todos os serviços, mas ele prefere se deslocar rapidamente para a Zona Sul, onde mora. Na área mais longínqua também há isso, o cara quer trabalhar aqui e voltar para a Barra. Se você perguntar se alguém vende o apartamento no Jardim Oceânico para morar em um prédio do Porto Maravilha, ele olha e diz na tua cara: não. Se virar Manhattan, sim, mas eu vou esperar virar Manhattan? Não vou pagar para ver, ser o primeiro. Hoje eu prefiro trabalhar aqui e voltar para o meu Leblon, minha Ipanema.

O poder público pode acelerar o processo, fomentar, mas não consegue fazer sozinho. A vontade vem do investidor. Gostaria muito que as grandes construtoras fizessem, a cada três ou quatro torres comerciais de 30, 40, 50 andares, dois prédios mais baixos para vender apartamento a quem quer ter qualidade de vida melhor, sem deslocamento.

DIÁRIO: A crise das grandes construtoras após a Lava Jato, como a Odebrecht, que é um player principalmente no Santo Cristo, prejudicou o projeto do Porto Maravilha?

Tarquínio: Muito. Esta é outra mazela, das muitas que temos. A construção civil mais avançada e pujante dos últimos 50 anos mergulhou em uma crise e foi ao chão nesse processo todo das incertezas na questão pública. A Lava Jato atropelou. A gente está buscando os acertos dos caminhos do país, mas eu acho que as empresas deveriam ser preservadas, até para o bem do país. A capacidade técnica dessas empresas é um patrimônio do país. Quem fez mal feito, que pague, mas deixa a empresa trabalhar, progredir, ajudar o país a evoluir. Você não pode crucificar a empresa por um objetivo único de acertar a coisa a ferro e fogo. Não. Quem errou que pague sua conta, mas a empresa é um patrimônio montado por recursos internos da sociedade e é um patrimônio do país.

A Lava Jato atropelou. A gente está buscando os acertos dos caminhos do país, mas eu acho que as empresas deveriam ser preservadas

Você sabe o que a Volkswagen fez nos Estados Unidos? Você acha que a Alemanha iria deixar destruir a empresa dela? Algum país vai deixar destruir uma Caterpillar, uma Mercedes? Todas elas erram, a Boeing errou, todos os executivos erram, mas as empresas são preservadas. Se você preserva a empresa, você preserva postos de empregos, divisas para o país, tecnologia, conhecimento acima de tudo. O erro no Brasil é esse. Essa capacidade técnica é que resolve as questões.

Esse foi nosso discurso junto à Caixa sobre a Porto Novo. Não podemos prescindir do conhecimento deles. Não podemos deixar de reconhecer e expor ao risco a cidade por uma questão de embate, em uma linha na qual todos iriam perder. Não podemos fazer isso, temos que reconhecer a competência de cada um, olhar para a concessionária e dizer: olha, o limite é esse, é onde podemos chegar. Eles entenderam, por isso chegamos ao entendimento. Estamos construindo caminhos junto com a Caixa para acertar todas as pendengas para não ficar vivendo esses estresses, esses espasmos de paralisação dos pagamentos ou serviços. Isso é uma prioridade para nós.