As 'heranças malditas' de Paes para Paes | Diário do Porto

Editorial

As ‘heranças malditas’ de Paes para Paes

Projetos de Eduardo Paes em tempo de vacas gordas – como Porto Maravilha, VLT, BRT e ciclovia -consomem energia e dificultam planos para o futuro da cidade

18 de fevereiro de 2021
Paes herda muitos problemas de suas próprias gestões (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

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Um governante geralmente assume amaldiçoando o legado do antecessor, uma espécie de “vacina” padrão para início de mandato com caixa vazio. O prefeito Eduardo Paes terá sempre motivos para reclamar, pois a cidade do Rio de Janeiro ficou quatro anos paralisada – para dizer o mínimo. Mas há uma outra “herança maldita” a ameaçar, no terceiro mandato, sua fama de bom gestor: são as obras de suas próprias gestões passadas, quando nadou em verbas federais na preparação da Olimpíada. O colapso do sistema BRT, que tortura diariamente trabalhadores das zonas Oeste e Norte, é apenas uma das enxaquecas que Paes herdou de si mesmo.

Ao contrário do gestor com visão curta, um estadista age de olho no futuro da sociedade que a ele confia o voto. O prefeito olímpico foi venturoso nas ideias de corredores expressos de ônibus para os subúrbios, do trenzinho não poluente nas áreas centrais, de promover o reencontro da cidade com o mar e de humanizar a Avenida Rio Branco. Tanto no projeto quanto na execução, no entanto, faltaram-lhe visão de futuro e sensibilidade para ouvir a turma do “vai dar ruim”. Agiu com a pressa de um refém do marketing e acabou deixando para o Rio – e para si mesmo – problemas no lugar de soluções.

A urgência do BRT

Falar da ciclovia à beira-mar que não aguenta ressaca é chover no molhado, embora seja preciso apresentar um desfecho para aquele vexame. Mais urgente é recompor o BRT, inaugurado a toque de caixa em 2012 sem que o prefeito enxergasse o risco de calotes generalizados nas belas estações que poderiam ser perfeitas em Berna, mas não aqui.

A tarifa do BRT é baixa para percursos tão longos, mas pesa no bolso de quem vive em algumas das áreas mais pobres e violentas do mundo. Não há catracas nem dinheiro que dê conta do número de guardas para coibir o desvio. Há soluções tecnológicas, mas elas dependem de um poder concedente mais exigente e menos permissivo em relação a concessionários historicamente acomodados.

Quando a cidade tinha generosidade e ânimo para falar sobre o futuro, Paes poderia ter introduzido a discussão sobre subsidiar a passagem dos mais carentes no BRT. Deveria também ter levado em conta os alertas sobre a efemeridade do asfalto construído às pressas sobre solo argiloso, sem estacas para aguentar o peso dos ônibus articulados e tão lotados.

O resultado são ônibus destruídos, superlotação, desinteresse do investidor e muito desperdício de dinheiro público. O próprio prefeito admitiu os erros do sistema, dando sinais de que fará mais do que chorar o leite derramado.

Erros no VLT

Os urbanistas vão se lembrar dos alertas feitos para dois riscos grandes das intervenções de Paes no Centro. Primeiro, o cálculo superestimado de passageiros do VLT, que compete com linhas de ônibus cuja retirada do centro exige uma coragem rara em gestores que dependem de voto.

Em segundo lugar, a falência de comércios da Avenida Rio Branco e de longos trechos do VLT. Em vez de pontos de ônibus barulhentos na porta, os comerciantes passaram a ter camas de papelão e uma legião de pessoas em situação de rua, um fenômeno que a pandemia elevou para outra dimensão.


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A impressão é de que Paes, à época, projetou para a cidade só o cenário de prosperidade ininterrupta, como se o banquete financiado pela União pudesse ser perene. Ele poderia ter previsto a indigestão se rabiscasse, mesmo que fosse em um guardanapo da Tia Surica ou do Cachambeer, um desenho da Análise Swot.

Qualquer estudante de Administração conhece. Nos quatro campos criados por duas linhas que se cruzam, são anotadas as Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças de uma ação – de preferência, antes de ser implementada. Muitas apostas perdidas poderiam ter sido evitadas.

Ganância no Porto

A engenharia financeira do VLT e o cenário de Walking Dead no centro – e em bairros estratégicos para o turismo, como Copacabana – não são questões insolúveis para um fazedor como Paes e sua equipe bem disposta. Foi certeira, por exemplo, a atitude do secretário Washington Fajardo de dormir alguns dias no centro para sinalizar sua prioridade. O projeto Reviver Centro, para atrair moradores e turbinar o comércio, merece um voto de confiança.

Difícil será consertar o arranjo público-privado do Porto Maravilha. A Caixa comprou por uma fortuna o direito de construir espigões e não pode vendê-lo pelo preço de mercado, hoje muito menor do que o que foi pago com o dinheiro do FGTS.

Especuladores privados, por sua vez, não aceitam vender os imóveis por menos de 10 ou 20 vezes o valor que pagaram. Devem ainda sonhar com Torres Trump, Las Vegas na Baía de Guanabara e outras fantasias tropicais. Não se sentem ameaçados pelo imposto progressivo, comum em metrópoles que revitalizam áreas degradadas. É aquele imposto que vai subindo quando o proprietário demora para vender ou construir dentro dos parâmetros planejados pelo gestor – no caso, o estadista.

O desafio da Providência

Não há problema maior para o Porto Maravilha do que a vulnerabilidade social do Morro da Providência, que espalhou-se pelos bairros da região. Na formulação apressada da parceria público-privada do projeto grandioso, poucos erros foram fatais como ignorar a necessidade do desenvolvimento social junto com o econômico.

As carências do morro seguem prejudicando a vida dos moradores e espalhando desesperança perto das sofisticadas construções na franja da baía. O dinheiro não investido na favela acaba custando o dobro ou o triplo, com o sofrimento das famílias reféns da bandidagem e com o prejuízo de investidores ameaçados pela insegurança e desvalorização dos imóveis.

Vamos torcer e cobrar

Ao contrário do antecessor, Paes começa a trabalhar cedo e não para mais, não acumula papéis sem despachar, é bom negociador e, acima de tudo, parece gostar mais do Rio do que de ideologia, religião ou compadrios. Poderia hoje dedicar-se a planejar as próximas décadas de uma cidade assolada pelos efeitos da pandemia sobre a economia criativa que a projetou para o mundo. Mas precisa gastar energia em consertar erros que o voluntarismo o levou a cometer.

O Rio depende do sucesso de Paes e de seus secretários de alto nível, que devem manter um olho no futuro e outro no passado mal resolvido. Não há muitos gestores com tamanha capacidade de ação, e poucos tiveram a oportunidade de aprender tanto com seus próprios erros. Como diria o jornalista boa praça Ancelmo Gois, vamos torcer, vamos cobrar.