Após 8,5 bi, Porto tem pior Índice de Progresso Social do Rio | Diário do Porto


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Após 8,5 bi, Porto tem pior Índice de Progresso Social do Rio

Índice de Progresso Social (IPS) da Região Portuária é o pior da cidade. Moradores alertam para o risco de o ‘Reviver Centro’ repetir a receita de exclusão

26 de junho de 2021

A roda e o morro: duas realidades no cartão postal (Estefan Radovicz/Agência O Dia)

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O projeto do Porto Maravilha nasceu com a promessa de ser o maior legado urbano da Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro, a primeira da América do Sul. Tinha tudo para melhorar o Índice de Progresso Social na Região Portuária. Cercada por cifras e adjetivos grandiosos, a maior Parceria Público Privada em operação urbana do país despejou R$ 8,5 bilhões em uma área com apenas 40 mil moradores.

Para se ter uma ideia, se a dinheirama, em sua maioria do Fundo de Garantia dos trabalhadores, administrado pela Caixa, fosse distribuída na área, seriam R$ 212,5 mil por morador. Mas o objetivo do projeto era requalificar a região degradada para atrair empresas e turistas. Promover a qualidade de vida dos moradores não estava entre as prioridades – e continua fora delas. O resultado é que, cinco anos após a Olimpíada, a Região Portuária tem o pior Índice de Progresso Social (IPS) da cidade.

Os dados servem de base para estudos da Prefeitura do Rio de Janeiro e foram analisados pelo Instituto Rio 21. O IPS é um índice criado há menos de dez anos para medir as oportunidades, os fundamentos do bem-estar e as necessidades humanas básicas. Ele agrega indicadores sociais e ambientais e coloca as pessoas no centro da análise, chamando atenção para necessidades concretas, como ter o suficiente para comer e acesso a oportunidades de crescimento pessoal e realização.

Morros perderam verba

Os grandes investimentos no Porto Maravilha concentraram-se na parte mais próxima à Baía de Guanabara, com a implosão do Viaduto da Perimetral, a construção de túneis, a implantação do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), a reurbanização de poucas ruas e a implantação de museus, importantes para a cultura e o turismo.

Verbas que iriam para obras nos morros da Providência e do Pinto, nos quais está a maioria da população, foram remanejadas para a construção do Museu do Amanhã. A primeira favela do Brasil ficou apenas com o Teleférico da Providência, que funcionou durante pouco tempo mas logo se tornou um monumento ao absurdo carioca, com bondes e estações parados, em oxidação e sem condição de contribuir para melhorar o índice de progresso social do morro.

Alerta para o Reviver Centro

“Ninguém acredita que isso acontece no coração da cidade, perto de todos os modais de transporte de massa. Já em 2012, uma pesquisa feita em 16 favelas mostrou que nosso morro tinha os piores índices de jovens que não trabalhavam nem estudavam, a maior taxa de adolescentes gráficas, a menor renda per capita. Pelo jeito, continua a mesma coisa”, lamenta o guia turístico Cosme Felippsen, 31 anos, morador da Providência.

 

Cosme Felippsen
Cosme Felippsen alerta para o risco de o Reviver Centro repetir receita do Porto Maravilha (Foto pessoal)

 

Para Cosme, o projeto Reviver Centro, prioridade da terceira gestão de Eduardo Paes, corre o risco de repetir a receita amarga do Porto Maravilha: falta de participação de moradores de menor poder aquisitivo e prioridade para a atração da classe média. “Sem ações para reduzir a desigualdade, não vai ser bom para ninguém. Vamos continuar com a população local abandonada, descuidada. Hoje temos uma mobilidade urbana pior do que há dez anos, sem ônibus, não temos empregos ou formação da mão de obra de jovens”, relata o jovem.

Morro sem quadra

O mesmo alerta sobre o Reviver Centro é feito espontaneamente por outro morador, o motorista Paulo Luiz de Andrade, 59 anos. Como integrante da associação de moradores da Providência, ele foi um dos entusiastas da implantação do Teleférico, recebido de braços abertos pela comunidade.

 

Morro da Providência
O Morro da Providência concentra a maior parte da população do Porto

“A única quadra que tínhamos, para esportes e festas no morro, foi ocupada pela estação. Era um projeto bonito, trazia uma esperança de melhorar a vida aqui em cima, e a planta previa um ginásio esportivo. Nada disso aconteceu, e o teleférico parou”, conta Paulo. “Esse projeto novo que estão pensando para o Centro pode ir pelo mesmo caminho. A população precisa ser ouvida, e os governantes precisam cumprir o que prometem”, reivindica.

O Índice de Progresso Social (IPS) da Região Portuária é de 42,06, em uma escala que vai até 100. A segunda e a terceira piores situações são as de Pavuna (42,97), na Zona Norte, e Guaratiba (42,54), na Zona Oeste. Na outra ponta, com os melhores índices da cidade, estão Botafogo (85,03), Copacabana (80,23) e Lagoa (79,02), três bairros da Zona Sul.

IPS por região administrativa (2020). Fonte: Prefeitura do Rio de Janeiro. Elaboração: Instituto Rio21

Para o sociólogo Claudio Soares, é mais um índice que mostra o Rio como uma cidade claramente partida: a Zona Sul, apesar de ter bolsões de pobreza nas favelas, ostenta as melhores condições. Nas outras zonas da cidade, segundo ele, apesar de abrigarem pessoas com boa qualidade de vida, “a ausência de serviços e a pobreza são maiores, além de outras consequências das desigualdades”, como a violência.


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O IPS – Índice de Progresso Social

Em 2013, pesquisadores das escolas de Administração de Harvard e do MIT, em Boston, criaram uma medida do desenvolvimento socioeconômica das nações que fosse além do PIB ou de índices de competividade. A Social Progress Imperative tem o propósito único de desenvolver e difundir essa medida, batizada de Índice de Progresso Social (IPS).

O objetivo do IPS, segundo seus idealizadores, é oferecer uma medida das “coisas que realmente importam para pessoas reais”. Mais do que o PIB per capita, ele procura uma maneira mais efetiva de definir o sucesso das sociedades.

O ponto de partida é o conceito de progresso social como “a capacidade que uma sociedade tem para atender às necessidades humanas básicas de seus cidadãos, lançar os alicerces que permitirão a cidadãos e comunidades aprimorarem e manterem a qualidade de suas vidas, e criar as condições para que todos os indivíduos atinjam seu potencial máximo.”

O índice é calculado em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas, Alicerces do Bem-Estar e Oportunidades. Confira os itens levados em conta:

Necessidades Humanas Básicas:

Nutrição e Atendimento Médico, Água e Saneamento, Moradia, Segurança Pessoal.

Alicerces do Bem-Estar:

Acesso a Conhecimento Básico, Acesso a Informação e Comunicações, Saúde e Bem-Estar, Qualidade Ambiental.

Oportunidades:

Direitos Pessoais, Liberdade e Escolhas Pessoais, Inclusão, Acesso a Educação Avançada.


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