Antídotos para os tempos dolorosos | Diário do Porto

Literatura

Antídotos para os tempos dolorosos

Jornalista Olga de Mello sugere dois clássicos – Hemingway e Jack London – e o premiado José Almeida Júnior

12 de julho de 2019


Ernest Hemingway


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Olga de Mello

Em tempos difíceis, quem pretende manter a sanidade mental precisa se entregar à arte. Literatura, música, cinema e teatro surgem comomáscaras de oxigênio que despencam em cima dos passageiros num avião desgovernado. No momento em que o Brasil assiste ao fim dos direitos trabalhistas e da Previdência Social pública, o melhor é se entregar à arte, um antídoto diante dos antolhos que cegam boa parte dos eleitores.

Há dois anos, José Almeida Júnior ganhava o prêmio Sesc de Literatura com o Última Hora (Record, R$49,90), uma deliciosa recriação do fim da Era Vargas e a manipulação da opinião pública pelos meios de comunicação. Agora, ele ousa atacar o maior ícone da literatura brasileira com O homem que odiava Machado de Assis (Faro Editorial, R$39,90).

 

Livro O homem que odiava Machado de Assis

 

O protagonista Pedro detesta “o mulato Joaquim” desde a infância. Os dois se conhecem na infância, quando Pedro, filho de um fazendeiro paulista, vai morar numa chácara no Morro do Livramento, vizinho do menino pobre Joaquim. A rivalidade entre os dois começa na disputa pelo amor de Joana, filha do padre que controla a vida da comunidade local. Mais tarde, estudando Direito em Portugal, Pedro se apaixona por outra mulher, Carolina, a quem reencontra no Brasil, já casada com Joaquim, celebrado jornalista e escritor, que rouba do companheiro de infância a ideia de escrever um livro contado por um morto.

Ao misturar dados biográficos reais com a sátira, José Almeida Júnior traz um Rio de Janeiro machadiano, miscigenado e declaradamente racista, no fim do século XIX.Uma situação que não se altera quando morre o escritor, cujo talento supera o preconceito racial. Machado é reconhecido como o maior dos escritores brasileiros em sua própria época. Por todos, exceto pelo ex-rival de infância e juventude, que o considera um ladrão de ideias.

Criar ficção em cima de figuras reverenciadas é praticamente um gênero literário. Shakespeare, devido às lendas que cercam sua origem, é personagem de quase tantos filmes e livros quanto sua obra.Como Machado, teve uma vida banal, deixando para os personagens as grandes reflexões existenciais e aventuras. Poucos escritores poderiam ter vida mais invejável que seus personagens. Os que mais encarnaram audazes aventureiros ao longo da existência foram os americanos Jack London eErnest Hemingway, com mortes também pouco ordinárias: o primeiro, aos 40 anos, de overdose – talvez acidental – de morfina; o segundo, suicidou-se aos 62 anos.

London foi marinheiro, participou da Corrida do Ouro no Alasca, envolveu-se com muitas mulheres e escreveu com afinco e exuberância. Hemingway foi repórter, cobriu os conflitos da Guerra Civil Espanhola, envolveu-se com muitas mulheres e escreveu com afinco e exuberância. Combinavam o talento estrondoso com surtos depressivos, mas nunca deixaram a vida desviá-los da literatura.

Livro A praga escarlate

Uma das pequenas maravilhas criadas por Jack London foi a novelaA praga escarlate (Conrad, R$ 20), uma distopia contada pelos sobreviventes de uma epidemia que aniquila com dois terços da população mundial. Sobrevivem os imunes à doença e os mais fortes, que dominam a sociedade inculta, cuja primeira perda é a estrutura de linguagem e a capacidade de comunicação.

Livro Paris é uma festa

Entre as delícias deixadas por Hemingway, o confessional Paris é uma festa (Record, R$ 59,90) tem o frescor das lembranças da juventude de um expatriado de 22 anos, que chegava à capital do mundo recém-casado, pronto a se formar no espírito estimulante que a cidade oferecia para a produção intelectual no pós-Primeira Guerra Mundial. As crônicas sobre suas descobertas, o encontro com escritores como Scott Fitzgerald e Gertrude Stein, essenciais para alguém tão competitivo quanto Hemingway, mostra o processo de construção de quem renovou o romance ocidental no século XX.

Mergulhar nessas páginas facilita encarar a realidade desses tempos dolorosos.