Angu do Gomes, receita de avô para neto | Diário do Porto


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Angu do Gomes, receita de avô para neto

Rigo Duarte vive uma história de amor com o angu. Mas não é qualquer angu: neto de Basílio Moreira, um dos antigos donos do famoso Angu do Gomes, ele assumiu em 2008 a marca da família, que estava sumida desde 1991, e abriu seu estabelecimento no coração do Porto Maravilha.

7 de março de 2018



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Rigo se estabeleceu na Rua Sacadura Cabral e já abriu filial em Botafogo

Menino, ele perambulava pelas cozinhas da mãe e da avó, onde aprendeu a cozinhar. Já adulto, foi aluno de uma das primeiras turmas do curso de Gastronomia da faculdade Estácio de Sá. Desde 2008, Rigo Duarte, 35 anos, vive uma história de amor com o angu. Mas não é qualquer angu: neto de Basílio Moreira, um dos antigos donos do famoso Angu do Gomes, Rigo assumiu naquele ano a marca da família, que estava desativada desde 1991, e abriu seu estabelecimento no bairro da Saúde.

Rigo trocou as carrocinhas do passado por um restaurante-bar fixo, em uma bela construção colonial no Largo de São Francisco da Prainha, justamente onde nasceu um dos pratos mais famosos do mundo, que detém o título de Patrimônio Cultural Carioca.  A iguaria continua sendo o carro-chefe, com a mesma receita e mais estrutura: “No restaurante, a gente consegue ter um controle melhor, armazenar os alimentos e garantir uma qualidade muito maior também. Além de poder dar um tratamento melhor para os clientes”, ressalta. Tem gente, ele garante, que se emociona ao comer o angu relembrando histórias de família.

“Estamos na Região Portuária, na mesma rua em que o meu avô começou. Isso é muito legal, dá uma identidade. No início, muita gente dizia que se lembrava daquela época. Mas conquistamos novos clientes, um público nosso. É novo e tradicional ao mesmo tempo”, conta.

A marca começou a se fixar na cabeça do carioca em 1955, um ano depois da morte do presidente Getúlio Vargas no Palácio do Catete. Espalhou-se entre ricos e pobres e nunca mais foi esquecida. A proposta era simples: vender angu em carrocinhas. Mas a marca Angu do Gomes acabou se consolidando como um dos exemplos mais bem acabados de negócios familiares que se adaptam aos tempos sem perder a essência.

Hoje, além do clássico angu com miúdos, o cardápio tem versões com carne moída, frutos do mar, calabresa e até uma opção vegetariana. É o que se pode chamar de adequação às novas demandas, que todo empresário precisa para não sucumbir diante da concorrência. No ramo de alimentos, ela é implacável. “A gente tem um cardápio com mais de 50 tipos de refeições e petiscos variados. Tem muita gente que vem para comer o angu com frutos do mar, outros nem gostam do angu, mas frequentam pelos outros pratos da casa. Ou vêm tomar chope e comer um bolinho. Virou um point”, descreve.

Junto com o sócio, Marcello Klang, Rigo apostou tanto na marca que abriu mais um bar-restaurante em Botafogo (Rua das Palmeiras 80) e um quiosque no Centro (Rua da Alfândega 100). Em plena crise. Qual a receita da juventude dessa marca cinquentona? Rigo entrega: “Não desista, aprenda a lidar com as dificuldades, guarde dinheiro para as oscilações, adeque o negócio, faça cursos de gestão, estude sempre. Estou sempre buscando novidades e atualização em feiras de gastronomia.” O que mais pode fazer a diferença? O cuidado com a marca da família. Assim como em um casamento.

Segundo o projeto Negócios de Valor, criado pelo Sebrae/RJ com o objetivo de preservar, fortalecer e divulgar os pequenos negócios tradicionais na cidade, o Rio de Janeiro tem 6.174 empresas ativas com mais de 50 anos. Na Região Portuária, são 380. A pesquisa reforçou a certeza de que, se manter um simples casamento já é difícil, muito
mais complicado é segurar a peteca de um negócio desses, passando de geração em geração.

Quais os segredos para evitar que o ciclo natural da vida antecipe a fase de declínio de uma empresa familiar? O estudo do Sebrae/RJ aponta alguns deles, como ter uma visão ampla de todos os processos da empresa, explorar um aspecto exclusivo que torna a empresa mais competitiva, inovar, estar sempre antenado com as novas demandas do cliente, melhorar sempre os processos em busca de eficiência e – importantíssimo – não brigar com a tecnologia. Foi com essa cabeça que Rigo Duarte fez o Angu do Gomes renascer.

“Cadê o Gomes?”

Mas e o nome Gomes, de onde vem? Exatamente de uma barraquinha de angu, na Praça XV, em 1955, onde o português Manuel Gomes vendia seu angu. Um dia, Gomes não quis mais continuar no negócio, que passou ao
filho, João Gomes. Logo se juntou a ele Basílio, avô de Rigo. Quando João e Basílio começaram a vender o angu, perguntavam “cadê o Gomes?” Então, como forma de homenagem e para lembrar que a receita era a do
português, criaram a marca “Angu do Gomes”.


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